Fui ver o Slam Resistência falar sobre representatividade no Festival de Criação
Imagem: Divulgação/Festival de Criação/Clube de Criação
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Fui ver o Slam Resistência falar sobre representatividade no Festival de Criação

A sétima edição do Festival de Criação, que rolou nesta segunda, 24, convidou o coletivo para conscientizar o mercado publicitário, majoritariamente branco.
26.9.18

Quando eu era pequena não me reconhecia como mulher negra. A auto percepção e aceitação se deu somente aos meus 17 anos de idade. Depois de algum tempo percebi que esse atraso se devia principalmente pelo fato de não conseguir me enxergar nos outros que já estavam nos holofotes. Não me via nos videoclipes, nos programas de televisão e tampouco nas propagandas e outdoors pelas ruas.

Há pouco mais de um século após a abolição da escravatura, a presença de corpos negros nas TVs e propagandas de revista ainda é escassa e isso tem muito a ver com a presença dos mesmos nos bastidores e na produção. Em uma pesquisa feita pelo Instituto Etnus, em 2015, foi levantado que a cada mil funcionários, apenas 35 tinham descendência africana nas agências publicitárias. Isso resulta em materiais publicitários racistas e a falta de representatividade em produtos comerciais.

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Por conta disso, colei na sétima edição do Festival de Criação, em São Paulo, que convidou o Slam Resistência para o evento. O Slam se trata de poesias faladas que retratam a vida, vivência e dificuldades nas periferias atrelados a autoestima, ascensão profissional e o genocídio negro periférico. Nesse caso, a intervenção em um dos maiores eventos de publicidade do Brasil foi responsável por abrir a mente e mostrar a realidade para a galera que acessa esses espaços.

Acompanho o grupo há algum tempo, e a principal função deles é arrepiar. Seja nas quebradas, no centro das cidades ou em espaços elitizados, a mensagem é passada de maneira clara e objetiva para que cada verso atinja no ponto fraco do espectador. Ao ocupar o Festival, a reação não foi diferente por lá.

Segundo a curadora do Clube de Criação, Laís Prado, é preciso que exista esses momentos para que o mercado publicitário saia da bolha e possa ver o mundo que tem a sua volta e como ele pode ser usado a favor de todos.

Com a sala cheia, Tawane Teodoro, Humberto Marques e Mayara Vaz recitaram suas poesias que resultaram em belos minutos de aplausos em pé motivados pelas palavras abordando a ascensão do negro nos espaços de elite que lhes são negados.

O slam enquanto modalidade nasceu há dez anos atrás nos EUA, principalmente em salas de teatro. Aos poucos, foi se transformando na expressão poética da arte periférica que ocupa as ruas até hoje. Aqui, ele ficou muito popular nas apresentações abertas feitas na Praça Roosevelt, em São Paulo. Os caras registram todas as performances poéticas em vídeos que já atingem 100 mil visualizações no Facebook.

Segundo o slammer Beká, 26 anos, a molecada percebeu que esse espaço era um dos únicos em que eles conseguiam ter voz. “É uma oportunidade de ser ouvido. Hoje mais do que nunca as pessoas, se não pelo real interesse da coisa, estão nos ouvindo e sendo obrigados a nos ouvir”, completa. Para eles, a importância de estar nos palcos e ocupar os lugares de discussão de mercado é enorme, principalmente para as crianças. “Essa é a meta. Porque sabemos que esse é o objetivo, para as crianças terem um objetivo maior do que ficar na rua”, diz Tawane, de 19 anos.

O incentivo à leitura, ao estudo e a poesia fazem com que a população negra ocupe espaços de fala, de liderança e mude o mercado. Enquanto isso não acontece, é importante conscientizar quem está nesses lugares atualmente. “A parte mais importante é convergir esses dois elementos no mesmo espaço”, completa Mayara Vaz. Só pelo fato dos negros estarem visíveis e ativos no mercado fazem com que as crianças olhem e pensem que é possível chegar no topo.

Cresci sem ter tido a chance de ver pessoas iguais a mim nos palcos e protagonizando histórias. Hoje, com esses poetas em ascensão e a indústria sendo obrigada a adotar a diversidade e consequentemente dar voz às maiorias minorizadas, sei que no futuro as coisas podem ser diferentes. E como lançou o slammer Beká diante da plateia, em um futuro próximo “eles vão ver que mesmo no escuro os pretos são capazes de brilhar”.

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