Drogas

Esse cara faz ayahuasca pirata com ervas japonesas

Um pseudo xamã nos arredores de Tóquio oferece experiências alucinógenas na esperança de tratar depressão.
9.10.17
Fotos pelo autor

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE US .

Apesar de progressos e avanços em outras áreas da cultura e da vida, o Japão ainda é bastante arcaico quando o assunto é droga. Medidas preventivas draconianas são a resposta para ondas de vício em anfetamina que assolam o país desde a Segunda Guerra Mundial. Réus primários, independente da droga ilegal com que são pegos, encaram altas multas, anos de prisão e possivelmente o desprezo de amigos, familiares e empregadores quando forem soltos.

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Nesse cenário, além de um fluxo constante de desinformação do governo, não é de se estranhar que uma minúscula porcentagem da população japonesa já tenha experimentado substâncias ilícitas. Enquanto alas mais conservadoras da sociedade podem considerar esse baixo uso de drogas uma vitória, um japonês teme que as leis e os tabus que cercam as drogas no Japão possam roubar certos benefícios dos cidadãos do país.

Ao inventar uma espécie de réplica da ayahuasca, usando apenas ervas tradicionais japonesas e antidepressivos, Aoi Glass diz que encontrou uma brecha na lei para fornecer uma experiência como a da raiz indígena para as massas no Japão.

Glass corre por fora como pseudo-xamã num bairro suburbano e calmo de Tóquio há mais de três anos. Visitei a casa dele mês passado para saber mais sobre os serviços psicodélicos que ele presta.

Formado pelo departamento de Agricultura e Biotecnologia da Universidade Hirosaki, Glass me disse que começou a pesquisar sobre a ayahuasca como parte de um esforço para tratar a depressão de amigos, depois que vários conhecidos perderam o emprego por causa da doença.

"Comecei fumando todas as sementes de grama que encontrava na rua por três anos e escrevendo os efeitos. Também fiz isso com cogumelos e folhas aleatórias", ele explicou. "Depois estudei a ayahuasca por um ano. Estudei todos os elementos que a planta contém e tentei recriá-los com sementes e ervas que eu tinha fumado e estudando, enquanto também ejetava os elementos que induzem o vômito."

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A partir disso, Glass diz que começou a cultivar ingredientes, testando as reações em si mesmo duas vezes por semana por seis meses — direto —, aprimorando a receita durante o processo. Depois de definir uma fórmula, Glass afirma que fez exames de sangue, urina e sêmen para garantir que sua receita, servida como um chá, não iria inadvertidamente envenenar as pessoas.

Quando se trata dos ingredientes da mistura, Glass oferece transparência total, tanto para mim quanto para o mundo. Ele já postou a receita, junto com as de outras drogas ilegais parecidas, no Cookpad, um site de compartilhamento de receitas japonês. Os principais ingredientes da mistura de Glass são "raiz de acácia, uma folha de um tipo diferente de acácia e lespedeza de montanha (que acrescenta o triptófano)", que ele prepara como chá. Aí ele tritura comprimidos do antidepressivo Aurorix, que ele pede que seus clientes tragam porque o remédio é controlado, e coloca na mistura, mantendo tudo dentro da legalidade.

Glass evita se comparar com um xamã e seu chá com a verdadeira ayahuasca. Ele prefere ser chamado de um "auxiliar" oferecendo um "tratamento".

Como Glass nunca experimentou a ayahuasca autêntica, falei com um de seus clientes que diz já ter tomado a ayahuasca real em Buenos Aires. "O que experimentei foi exatamente o mesmo", o cliente me disse, preferindo se manter anônimo por causa do tabu cercando as drogas no Japão. "A ayahuasca [em Buenos Aires] me permitiu acessar partes específicas e profundas da minha consciência. Isso parecia com um labirinto caleidoscópico. Quando usei ayahuasca pela segunda vez, em Tóquio [a receita de Glass], tive a mesma visão e senti tipo 'uau, voltei para cá'. Senti que estava exatamente na mesma sala na minha mente."

Outra paciente de Glass, que buscava os supostos benefícios terapêuticos da bebida, me disse que a experiência a ajudou a enfrentar uma depressão desencadeada por problemas com os pais. "Você não pode dizer legalmente que é uma cura médica a não ser que o governo aprove", ela explicou. "Mas, na minha opinião, isso me curou daqueles sentimentos."

Tudo isso parece incrível, mas possivelmente bom demais para ser verdade, então perguntei ao escritor e especialista em ayahuasca Robert Tindall sua opinião sobre essa abordagem nova para a medicina tradicional. Tindall ficou aliviado em ouvir sobre a apreensão de Glass em chamar sua mistura de uma imitação da ayahuasca, dizendo que "como um etnólogo vindo de uma perspectiva mais indígena, não existe um substituto para a ayahuasca. Da perspectiva indígena, você conhece a planta a absorvendo, conhecendo seu espírito e ensinando suas capacidades, e acaba desenvolvendo um relacionamento com ela. Nós [pessoas não-indígenas] simplesmente não podemos fazer isso".

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Mas a abordagem de quebrar ao nível molecular "plantas sagradas que são usadas há milênios por sociedades tradicionais" não é necessariamente algo ruim, disse Tindall. "Parece que o que ele está fazendo pode ser muito útil, e ele realmente fez o que muitos xamãs fazem, que é combinar plantas com base em instinto, intuição e estudo empírico." Tindall acrescentou que o tratamento de Glass pode estar chegando "na hora certa", já que "a sede dos ocidentais por ayahuasca está acabando com as florestas. Mesmo xamãs respeitados estão investindo em desenvolver outras maneiras de fazer sua cura usando plantas diferentes".

"Com a preparação certa e se usados em circunstâncias claras com intenções honestas, psicodélicos podem ser uma ferramenta potente de cura". — Dr. Gerald Thomas

Curioso em saber o que realmente acontece com os usuários da bebida de Glass, abordei o Dr. Gerald Thomas, um cientista colaborador do Centro de Pesquisa de Vício da Colúmbia Britânica, que já pesquisou muito sobre a ayahuasca e sua capacidade de tratar problemas como o vício.

"Não há nenhum grande mistério aqui", Thomas disse depois que pedi que ele examinasse a lista de ingredientes. "[Lespedeza e acácia] são fontes potentes de DMT e o remédio é um inibidor de MAO seguro e bem considerado. Muitas coisas que ingerimos contém traços de DMT, que é um dos psicodélicos mais poderosos conhecidos. O sistema digestivo humano cria uma enzima (MAO) que quebra o DMT instantaneamente, então não sentimos um barato com as coisas que comemos. A droga citada acima, como o caule da ayahuasca, desativa o MAO para que o DMT se torne biodisponível quando ingerido."

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Embora ele reconheça os problemas em potencial que essa (e qualquer outra) experiência psicodélica pode ter, Thomas conclui que "com a preparação certa e se usados em circunstâncias claras com intenções honestas, psicodélicos podem ser uma ferramenta potente de cura".

Mas nem todo mundo compra a ideia da concatenação de Glass. O professor-associado de farmacologia da Rush University, James T. O'Donnel, me disse que, acreditando que eu não tenha caído numa mentira elaborada, os ingredientes que Glass está usando não são totalmente inofensivos. Ele apontou que "há um risco de suicídio" por abuso do antidepressivo Aurorix, que "não é aprovado nos EUA".

"Alucinógenos são perigosos, e a maioria é ilegal", alertou O'Donnell. "Tentar contornar o sistema usando outras substâncias para atingir um suposto barato tem seus riscos, de saúde e legais."

No entanto, ele optou por comercializar a mistura e seja lá qual forem os riscos, está claro que Glass tem ambições elevadas, mas benevolentes para sua bebida terapêutica. Esperando que seu avanço incentive outros, ele planeja oferecer em breve o tratamento para grandes universidades e incubadoras de tecnologia japonesas, numa tentativa de fomentar um pensamento novo ao estilo Vale do Silício.

"Todas as inovações estão vindo dos EUA, como o iPhone e o Google", lamenta Glass. "Temos menos disso no Japão, e acho que é porque temos menos experiências com drogas alucinógenas, que permitem que mais criatividade seja desbloqueada. Quero que pessoas inteligentes tenham essa experiência para pensarem em mais inovações e ajudarem o país inteiro."

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