Vida de estudante

Tudo o que gostava de ter sabido antes de entrar na universidade

Porque ser caloiro nunca foi fácil...

Por Drew Brown
18 Setembro 2017, 11:45am

Foto vía Shutterstock | Arte por Noel Ransome

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Canadá.

Numa trágica primeira tentativa desta era moderna em que vivemos de desenhar um mundo novo e mais próspero, a Primeira República Francesa criou um calendário em que colocou o Ano Novo em Setembro. Isto sempre me chamou a atenção e, depois de 12 anos de liceu e mais uma década na universidade, cheguei à conclusão de que o equinócio de Setembro é a verdadeira altura do ano de mudanças e recomeços.

Poucas dessas revoluções pessoais são tão incríveis como o primeiro ano de universidade, sobretudo se é a primeira vez que vais viver fora de casa dos teus pais. Eu, como já sou um gajo antigo de 30 anos, tive tempo de reflectir sobre as loucuras que fiz quando era mais jovem, antes de alcançar a verdadeira sabedoria. Ofereço-vos, pois, este tesouro e espero que vos seja útil, ainda que saiba que muito provavelmente não me vão ligar nenhuma, porque têm entre 18 e 21 anos, o que significa que já são as pessoas mais inteligentes da história do Planeta.


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Não há problema se não tens ideia do que andas a fazer

Massacram-te tanto com a ideia de que a universidade é uma coisa boa e imprescindível para o teu futuro, que, provavelmente, chateias-te a ti próprio a pensar que deves descobrir e iniciar o teu caminho antes sequer de terminares o primeiro semestre, porque, caso contrário, estás a falhar. Só que isso não é correcto. Os teus estudos são obviamente importantes, mas, numa perspectiva realista, não são tudo. Portanto, leva o teu tempo e abre o teu leque de possibilidades, para que não acabes por perder tempo com algo que odeias e que não te cai bem.

Não há problema se abandonas o percurso e mudas de rumo, não importa o quão longe estejas

Comecei o primeiro semestre num curso de economia, porque, quando tinha 17 anos, lia regularmente as obras de Ayn Rand e fiquei convencido de que entender bem como funcionava o capitalismo era algo necessário para entender o Mundo e tornar-me rico e poderoso. De seguida, descobri que a economia dominante, a que se ensinava nas faculdades da maioria das universidades canadianas antes da Grande Recessão, era baseada, principalmente, no cálculo do capital.

Para além disso, não gostava daquilo. No entanto, ainda que e cada época de exames de cada semestre preferisse morrer a voltar a escrever "Introdução ao mercado laboral", ou o que quer que fosse que me pedissem, neguei-me a trocar de curso por psicologia, que era algo de que gostava muito. Tinha metido na cabeça que tanto sofrimento acabaria por valer a pena.

Outra coisa que me preocupava era a possibilidade de perder tempo a fazer uma coisa nova, depois de ter investido tantas horas, dinheiro e energia num curso de economia (não tardou a aprender que esta desgraça que vivi se denomina de "falácia de custos perdidos"), para além de me atrasar a licenciatura, porque precisava de um monte de equivalências para mudar de curso. A conclusão a que cheguei é simples: faz o que te der na real gana. Isto não é uma carreira, pelo que não há nenhuma meta com empregos para a toda a gente no final.

A educação não é sinónimo de inteligência

É lógico que existe uma correlação positiva entre ambos os conceito, mas não te iludas e penses que as notas são o reflexo directo da inteligência de uma pessoa. Há muitas pessoas inteligentes a quem, por uma série de razões, custa tirar boas notas, enquanto outros alegadamente menos dotados sacam belíssimos resultados.

Também pode dar-se o caso de que sejas um "nerd inapto", ou seja, que aprendes tudo basicamente de memória sem alimentares o pensamento crítico, que é, na verdade, o que torna possível que adquiras o verdadeiro conhecimento e desenvolvimento intelectual. "A mente não é uma conduta que é preciso encher, mas sim um fogo que há que alimentar".

Existe, sem dúvida, uma distinção importante entre ser um pensador crítico e um opositor imbecil. A educação ajuda-te a compreender essa diferença, mas, obter um título académico não significa necessariamente que a tenhas compreendido. Tenham isso em conta, idiotas.

Vai às aulas, pelo amor de Deus

Ouve, há muitas teorias sobre a relação entre ir às aulas e a obtenção de boas notas. Na universidade vais encontrar todo um reino de exploração pessoal onde desenvolves diversas actividades que te permitem descobrir o teu lado mais selvagem e saber viver orgulhosamente com ele.

Entre essas actividades podes incluir festas universitárias, jogos de futebol que se transformam em oportunidades perfeitas para dares cabo daqueles de quem não gostas muito, maratonas de noites a fio a ouvir rock de mau gosto com os teus colegas de casa, ou pequenos trabalhos de grupo no bar da universidade que não são mais que desculpas para se embebedarem todos à uma da tarde de uma quarta-feira, antes de irem para um sítio qualquer manhoso fumar erva e ver episódios de Kenny vs Spenny.

Tudo isto é verdadeiramente importante para o desenvolvimento pessoal. Mas, vai às aulas. Devias ir a pelo menos 70 a 80 por cento delas.

Vais apanhar escorbuto se não comeres fruta e vegetais

Isto parece algo bastante óbvio para quem tenha nascido depois do século XVII, no entanto, continua a acontecer, porque alguns de nós (sobretudo adolescentes que vivem sem supervisão de adultos) somos idiotas. Aprende a cozinhar. É uma vergonha quando o médico tem que receitar-te sumo de laranja, porque pensavas que comer apenas aveia duarnte várias semanas seria uma boa dieta para perderes peso.

Escreve apontamentos à mão, porque vais aprender mais

Passei 12 anos na universidade, primeiro como estudante e depois como professor e, sabes uma coisa? Os portáteis são, na maior parte das vezes, inúteis. Leva um caderno para as aulas, tira apontamentos e faz rascunhos e redacções à mão. O teu cérebro vai trabalhar melhor. Não tenho intenções de compreender o mecanismo cerebral, mas garanto-te que se escreveres vai funcionar melhor.

Faz coisas estúpidas, mas com cabeça

Cometer erros e fazer estupidezes de proporções catastróficas é, provavelmente, o método mais eficiente para não vires a ser uma pessoa assim tão terrível no futuro próximo e os dois primeiros anos da universidade são a época "mais segura" para que possas ter aquelas experiências que, eventualmente, te podiam arruinar a vida.

A chave passa por manter os pés bem assentes na terra quando decides fazer algo imbecil, seja explorares novas aventuras sexuais, ou consumir alguma droga esquisita só para veres como é. Lembra-te de, neste último caso, teres sempre em conta a dose que metes e de te assegurares que nada do que consomes tem fentanil, ou um desses opioides extremamente aditivos.

Sobretudo, desfruta da tua liberdade, porque nunca mais vais voltar a ser tão livre (e não, não podes ampliar essa liberdade com o mestrado, portanto esquece essa tentação se era isso que tinhas em mente).

Y, sobre todo, disfruta de tu libertad, pues nunca más volverás a ser tan libre. (Y no, no podrás alargar tu libertad haciendo un máster, así que olvida esa tentación, si es lo que pretendías).

Não comeces uma relação à distância com a tua melhor amiga, ou o teu melhor amigo do liceu a menos de dois meses de deixares a tua cidade natal para embarcares no teu primeiro ano da universidade

Isto é, simplesmente, uma coisa que nunca acaba bem.