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análise

Um especialista em seitas explica o que há de novo em 2018

Há quem venda milagres pelo PayPal...

Por Julian Morgans
03 Abril 2018, 5:45pm

Fotos pelo autor.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Austrália.

Liz estava num centro comercial na sua cidade natal, Camberra, Austrália, quando uma mulher com um grande sorriso lhe perguntou se era modelo. Sentindo-se lisonjeada, Liz parou para conversar e concordou em preencher um formulário para o que acreditou ser um inócuo grupo cristão. Três anos depois, estava no The Feed, programa do canal de televisão VICELAND, a contar como esse momento a levou a juntar-se a uma seita.

“Não pensei que me estivesse a juntar ao que quer que fosse”, disse ao jornalista Joel Tozer. E acrescentou: “Disseram-me que estavam a fazer uma exposição de arte cristã. Mandaram algumas fotos por e-mail e parecia maravilhoso, incrível. Por isso, concordei em encontrar-me com eles para falar sobre a possibilidade de participar”.

Era a Missão Gospel Cristã, mais conhecida pelos seus anteriores nomes: Providência e Jesus Morning Star (JMS). O grupo começou em 1980, na Coreia do Sul, e os seus membros acreditam que o fundador, Jung Myung-Seok, é a segunda vida de Jesus. Numa contradição gritante, Jung passou os últimos 10 anos preso por violação. “Diziam-nos que ele estava preso porque era perseguido e tinha sido falsamente acusado”, explica Liz.

Oito meses depois de preencher aquele formulário, Liz mudou-se para uma casa partilhada, propriedade da JMS. Um ano depois, visitou Jung Myung-Seok na prisão e foi-lhe oferecido um colar de pérolas que disseram que simbolizava uma vagina. “Jung é obcecado por mulheres e sexo”, conta. E salienta: “Acho que ele quer que as suas mulheres usem coisas que o simbolizem”.

Liz acabou hospitalizada devido a um transtorno alimentar. Enquanto recuperava em casa da mãe, um especialista em seitas chamado Rick Ross foi contratado para tentar uma intervenção. Felizmente funcionou e ela deixou o JMS em 2013. “A única forma de descrever aquilo é violação”, diz sobre a experiência de dois anos. E sublinha: “Mesmo não sendo físico – era uma violação mental, emocional e espiritual. Senti-me violada”.

Agora, anos depois, Rick Ross acredita que o JMS é a seita mais perigosa da Austrália. “Jung Myung-Seok acabou de sair da prisão e, pelo que sei, não mudou nada”, menciona o especialista. E acrescenta: “E, por alguma razão, o seu grupo está a levar a cabo grandes esforços de recrutamento na Austrália”.

Encontro-me com Ross num evento de imprensa em Paris. É um tipo de aparência bastante académica, com óculos, blazer e um sotaque do Arizona. Há mais de 30 anos que Ross tem vindo a retirar pessoas de seitas. Comigo, aborda o tema da doutrinação baseado em provas e acho que é por isso que já apareceu em vários documentários e agora ajudou na criação de um videojogo.

Rick a explicar o seu trabalho no jogo Far Cry 5.

Façamos aqui uma pausa. Voltamos às seitas daqui a pouco, quero só contar a história de como conheci Ross. Ele tinha acabado de fazer a consultoria para um jogo chamado Far Cry 5. Foi contratado pela empresa que desenvolveu o jogo, a Ubisoft, para ajudar a equipa a criar uma seita fictícia.

A seita que inventaram é uma variedade comum de cristãos fundamentalistas, alojados nas colinas de Montana e armados até aos dentes. Os jogadores assumem o papel de um jovem polícia local, escolhido para entrar na propriedade de helicóptero e prender o líder do grupo, um plano que corre mal. E, enquanto jogas, não consegues deixar de reparar que o jogo dança com a história. Tem um pouco da visita desastrosa do congressista americano Leo Ryan a Jonestown em 1976. E muito do cerco ao Ramo Davidiano em Waco, já em 1993.

O trabalho de Ross era guiar a equipa de desenvolvimento para criar uma seita baseada em precedentes, fazendo com que o jogo fosse assustador. “Os tipos da Ubisoft perguntavam-me coisas como: 'Uma seita já fez alguma coisa deste género?' e davam-me o exemplo de algo que estavam a considerar. Depois, eu dizia 'Sim, mas na verdade há exemplos bem piores que esse' – e foi assim que ajudei”.

Voltando à nossa conversa. Encontrei-me com Ross num evento de Far Cry 5 para a imprensa, em Paris, que vi como uma oportunidade de descobrir como as seitas estão a recrutar e a operar em 2018. “Agora, uma seita pode existir inteiramente na Internet”, dispara. E adianta: “Há uma mulher chamada Sherry Daniels que comanda uma coisa chamada Escola do Milagre. Sherry vende milagres pelo PayPal e a sua organização está cheia de dinheiro. Numa denúncia que recebi, alguém acabou por gastar 25 mil dólares em apenas alguns meses, para que Sherry puxasse esta pessoa para um mundo mágico onde era retirada da realidade. E coisas deste género são tão destrutivas como as seitas mais tradicionais”.


Vê: "'A Vida Depois da Poligamia': as mulheres e filhas de um culto polígamo no regresso à realidade"


Sendo assim, Ross afirma que as seitas em 2018 são mais difíceis de reconhecer. Mas, o factor constante, diz, independentemente do grupo ser novo ou velho, é que são construídos e gravitam ao redor de um indivíduo. É esse o caso do JMS na Coreia, era o caso do Ramo Davidiano no Texas e de Jonestown, na Guiana. Essas organizações são criadas em torno da ideia de que o seu líder tem uma ligação directa com Deus e, portanto, tudo o que ele diz é sagrado. “No entanto, o que é interessante é que alguns desses gurus são fraudes e sabem disso, mas, ainda assim, acreditam mesmo que têm alguma coisa de Deus”, pontua Ross.

Ross diz que trabalhou arduamente com a equipa da Ubisoft para criar um líder de seita e antagonista credível para Far Cry 5. O resultado foi um personagem chamado Joseph Seed que – entre acreditar nas suas próprias fantasias e querer fazer do Mundo um lugar melhor –, atinge um tipo de mal muito familiar e humano. “Vi alguns excertos dos clips promocionais do personagem e é incrível como eles acertaram em cheio nesse tipo de psicologia”, salienta.

Pergunto a Ross o que aprendeu sobre seguidores de seitas depois de mais de 30 anos a investigar o tema e ele nem hesita: “A mente humana é muito mais frágil do que queremos admitir. Qualquer um pode juntar-se a uma seita destrutiva conforme as circunstâncias e no timing certo”.

Ross conta ainda que pessoas vulneráveis nem sequer percebem a sua própria arrogância. “É como dizer: 'Nunca vou apanhar uma DST'. As pessoas acham que são o super-homem, portanto não reconhecem os sintomas quando as coisas começam a dar para o torto. Têm tantas certezas de que 'isso nunca me vai acontecer' que não percebem o que está mesmo a acontecer”.

“Mas, pensas que estás a conseguir ganhar?”, pergunto-lhe. “Especialmente quando a ideia das seitas está tão incorporada na cultura popular – as seitas encontram mais dificuldade para funcionarem?”, reforço. Ross diz que essas são coisas difíceis de medir, mas uma forma de o aferir é olhar para a forma como as seitas contra-atacam – através de processos e ameaças em geral. “E, agora, diria que o nível de resistência é bastante alto”.

O especialista revela também que foi processado cinco vezes por cinco grupos diferentes, tendo um deles gasto 3,8 milhões de dólares no processo. Mas, o seu exemplo favorito é o grupo que passou meses a ir-lhe ao lixo para tentar encontrar algum podre que pudesse usar contra ele. “A pessoa responsável pelo lixo do meu apartamento estava a vendê-lo à seita e descobri isso num Tribunal Federal. O facto de tal coisa ter acontecido diz-me que o nível de resistência deles é alto, mas diz-me também que devo estar a fazer alguma coisa bem”.

"Far Cry 5" foi lançado no dia 27 de Março. Segue Julian Morgans no Twitter. Nota: o autor fez esta entrevista para o lançamento de "Far Cry 5".


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