A insegurança masculina é um dos temas de filme pornô feito por duas brasileiras
María Riot e Parker Marx em uma das cenas do filme pornô Landlocked. Foto: Divulgação/Paula Faraco.

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A insegurança masculina é um dos temas de filme pornô feito por duas brasileiras

‘Landlocked’ conta a história de dois jovens que se conhecem em Berlim e começam um relacionamento sexual casual de paixão e intimidade.

Pornô para mulheres virou um gênero altamente explorado pela indústria de filmes de adultos e por produtoras independentes. Apesar do termo em si ser limitado, justamente por associar o prazer feminino com clichês batidos de sexo gentil ou apelar para produções menos explícitas, muitos materiais interessantes acabaram saindo nesse balaio que pelo menos traz um respiro de ar fresco para a pornografia. Uma dessas produções é o longa Landlocked, dirigido por duas brasileiras, a cineasta Lívia Cheibub e a produtora Angélica Amalin Abe, donas da produtora Wild Galaxies, criada em 2016.

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A ideia de produzir e dirigir um filme adulto começou a ser rascunhada em 2009, quando a cineasta pensou em filmar casais transando, considerando a falta de produções que focassem na intimidade e, especialmente, no prazer feminino. “Não encontrei casais que topassem o projeto, e aí comecei a abordar atores sobre a possibilidade de atuarem em um filme com sexo, como era para eles, se tinham interesse. E aí mergulhei em um mar de tabus e de inseguranças. Ninguém queria mostrar o rosto, com o receio de serem tachados para sempre de 'atores pornôs' mesmo com um roteiro e uma narrativa”, explica Cheibub.

Morando em Nova York, Livia conheceu Angélica em 2012 e só quatro anos depois elas finalmente conseguiram colocar o projeto no papel e decidiram trabalhar com atores amadores para o longa. “Minha frustração sempre foi com os filmes pornôs, porque nada do que eu assistia realmente soava como real. Eu me lembro que fazia meus namorados perderem um tempão caçando filmes em que eu via que a mulher estava realmente gozando, e raras as vezes a seleção deles passava pelo meu crivo”, conta Angélica por e-mail.

A produtora Angélica Abe e a cineasta Lívia Cheibub, donas da produtora Wild Galaxies, nos bastidores da gravação do longa pornô. Foto: Divulgação/Paula Faraco.

O apelo de Landlocked vai além do rótulo publicitário atraente para releases de ter duas mulheres por trás das câmeras – coisas aindas raras de se ver na indústria tradicional, mas sim opta em abordar experiências sexuais de dois estranhos em um país estrangeiro de forma melancólica e verdadeira. A história é contada pela perspectiva de Joana e Thomas, jovens que se encontram em Berlim numa loja de conveniência e desenvolvem imediatamente uma conexão sexual e emocional.

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Queríamos falar sobre a intimidade de um sexo casual, da entrega, de uma paixão momentânea, de uma personagem feminina independente e fluida, e de um homem normal, com inseguranças. - Lívia Cheibub.

A escolha dos protagonistas foi crucial para a naturalidade que transparece durante o longa. Maria Ríot é uma atriz argentina ativista dos direitos de trabalhadoras sexuais e de sexualidade fluída e Parker Marx é ator adulto no gênero de queer porn e já estava adaptado à linguagem diferente que as diretoras queriam tocar para a história. Um dos requisitos era que ambos nunca tivessem gravado juntos para não precisar forjar justamente a descoberta dos corpos entre os dois. Livia e Angélica garantem que a química entre eles foi instantânea.

Parker e María, os protagonistas do pornô. Foto: Divulgação/Paula Faraco.

"Eles só tinham feito uma cena juntos há muito tempo e queriam se encontrar de novo. Então foi match na hora. O maior desafio foi o trabalho de preparação, já que eles não são atores profissionais e foi a minha primeira experiência dirigindo atores. E essa foi a parte mais legal do processo, porque aprendemos juntos. Trabalhamos na criação do ponto de vista dos personagens, nos objetivos das cenas, nas 'raízes' e circunstâncias de cada cena", conta Cheibub .

O roteiro foi baseado em uma história real escrito por Raphaela Tavarone. Segundo as diretoras, foi um longo processo para encontrar uma história para dar vida ao longa justamente para encaixar com a proposta de passar o sentimento de intimidade e paixão para os espectadores. “Queríamos falar sobre a intimidade de um sexo casual, da entrega, de uma paixão momentânea, de uma personagem feminina independente e fluida, e de um homem normal, com inseguranças”, diz a cienasta.

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Gosto muito das cenas em que o Thomas acorda sozinho na cama. O corpo masculino nu, na sua fragilidade, 'desarmado'. Sua casa, sua cama, ele de pau mole, naturalizam uma sensualidade que não depende de virilidade.

As cenas de sexo explícito e visceral se misturam com papos de relacionamento e, especialmente, as inseguranças masculinas em torno de Thomas. Essa fragilidade masculina do personagem, algo impensável para um pornô, trouxe profundidade para o longa e saiu do lugar comum. No meio disso, o foco principal fica no prazer da protagonista. Fluídos vaginais, dedadas e lambidas substituem o entra-e-sai da penetração.

"A sexualidade vai muito além do 'pau na buceta', ela é a movimentação da energia vital do seu corpo. Ela permeia e influencia toda a sua vida. Pode soar meio hippie, mas existe uma relação direta entre sexo e espiritualidade, ele é sinônimo de integração do ser como um todo. Quando nos juntamos para realizar o projeto, a gente queria criar um approach mais humanista do pornô", analisa Livia sobre o filme.

Lívia prepara os atores em uma das cenas de Landlocked. Foto: Divulgação/Paula Faraco.

Numa das várias cenas do filme, o Thomas se desnuda emocionalmente e isso, por incrível que pareça, era uma das coisas mais sexuais do filme. Ao contrário de ver o homem num papel de dominação e postura de macho alfa constante, algo irreal para o mundo fora das câmeras, o personagem mostra suas paranoias em não poder satisfazer sua amante e preocupado com o tamanho do pênis. "Eu gosto muito das cenas em que o Thomas acorda sozinho na cama. O corpo masculino nu, na sua fragilidade, 'desarmado'. Sua casa, sua cama, ele de pau mole, naturalizam uma sensualidade que não depende de virilidade. Além de empoderar a mulher, queríamos abordar a questão da vulnerabilidade masculina porque acreditamos ser importante darmos abertura para esse diálogo, que raramente existe. As pessoas se fecham e o isolamento causa muita desconexão. Algumas vezes, pode até causar violência e abuso. Nosso intuito foi tocar no assunto, por que não podemos falar disso?", questiona Lívia.

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O filme pornô, querendo ou não, educa o comportamento sexual e de gênero de uma geração em formação. Se abrir e se mostrar inseguro é um ato de muita coragem, que poucos machos têm o culhão de encarar.

Nos últimos anos, a pornografia cada vez mais vem sendo colocada na berlinda por inevitavelmente ajudar a moldar o comportamento sexual de muita gente, especialmente adolescentes héteros. Com isso, sua função sexual está ultrapassando as barreiras do entretenimento e caindo direto para a educação sexual. Faz sentido, se as escolas e outros órgãos de saúde têm lavado as mãos para a educação sexual, o pornô ocupa esse lugar. Angélica e Lívia estão nessa escola no "novo pornô".

"O filme pornô, querendo ou não, educa o comportamento sexual e de gênero de uma geração em formação. Se abrir e se mostrar inseguro é um ato de muita coragem, que poucos machos têm o culhão de encarar. Ao mesmo tempo, deixar o outro adentrar este espaço de vulnerabilidade dá chance à mágica e à cura acontecer também, como retratado no filme", explica Livia.

Landlocked foi lançado mês passado na plataforma On Demand no Vimeo, mas já saiu do ar. Se você quiser comprar, ele está disponível aqui por um preço decente e acessível. Se você quiser também colaborar com o trabalho do Wild Galaxies, clica aqui.

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