Identidade

Como biohackear seu cérebro para transar sem ficar emocionalmente apegada

Cientistas isolaram os hormônios e estruturas do cérebro que podem ser responsáveis por apego romântico. É possível manipulá-los para fazer sexo sem aqueles sentimentos pós-coito irritantes?
MS
Traduzido por Marina Schnoor
8.11.19
sexo casual apego
Ilustração por Grace Wilson.

Vanessa* jurou que não faria mais sexo casual depois de um incidente na festa de despedida de solteira de uma amiga. Ela tinha arranjado um encontro no Tinder às 2 da madrugada “enquanto bebia de um canudinho em formato de pênis”, depois que se encontrou com o cara para fazer sexo que ela caracterizou como apenas “OK”. O parceiro era ainda menos impressionante: “Odiei ele e tudo que ele representava com cada fibra do meu ser”, ela diz.

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Ainda assim, ela se viu apegada por ele depois. “Cada fibra do meu ser gritava 'Não deixe ele ir'”, ela diz. “Isso fodeu com a minha cabeça.”

É uma situação familiar pra muita gente: você decide transar com alguém que tem uma personalidade que você acha repugnante, em quem não tem o menor interesse em namorar, só para se ver bizarramente apegada na manhã seguinte.

“Sempre acabo querendo namorar com as pessoas que faço sexo”, diz Lucy, 25 anos, “mesmo se odiei o cara”.

Apego romântico funciona de maneiras misteriosas; acredita-se que isso seja resultado de um coquetel complexo de hormônios, processos neurobiológicos e condicionamento social. Enquanto partes da condição humana continuam um total enigma, cientistas isolaram alguns hormônios e estruturas cerebrais que podem ser responsáveis por essas insanas mensagens de texto que você mandou na outra noite.

Muito do que sabemos sobre amor veio através dos arganazes do campo. Os roedores são muito queridos entre cientistas que tentam elucidar os mistérios do amor humano: diferente de 97% dos mamíferos, eles são monogâmicos, e casais de arganazes formam um apego muito forte um com o outro. Quando têm escolha, os animais – que vivem nas matas da Europa e Ásia – vão escolher ficar na companhia de seus parceiros exclusivamente, limpar um ao outro, e eventualmente fazer um ninho. Em estudos, pesquisadores isolaram dois hormônios responsáveis por esses laços duradouros: ocitocina e vasopressina, ambos liberados durante o sexo dos arganazes.

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Testes mostraram que quando os arganazes machos recebem uma dose de vasopressina – ou fêmeas de ocitocina – os animais se apegam à primeira vista com o parceiro em potencial mais próximo, antes do coito ocorrer. Para arganazes machos e fêmeas, concluíram os pesquisadores, vasopressina e ocitocina são ingredientes mágicos para monogamia para a vida toda, unindo os dois até que a morte os separe.

Sempre acabo querendo namorar com os caras com quem transo, mesmo se odiei o cara.

“Arganazes machos produzem vasopressina”, explica Larry Young, pesquisador da Emory University especializado em comportamento social de arganazes do campo. “O sistema de vasopressina estimula comportamento territorial. É um laço mais possessivo.” Estudos já mostraram que quando os arganazes machos são injetados com um químico que evita a liberação de vasopressina, ele não conseguem se apegar às parceiras.

Enquanto isso, arganazes fêmeas dependem mais da ocitocina (apesar dos machos também liberarem esse hormônio). Produzida no hipotálamo, a ocitocina é profundamente ligada a uma variedade de comportamentos sociais, incluindo laços maternais, formação de apego, e ler e reconhecer dicas sociais. Nas arganazes fêmeas, a ocitocina se combina com dopamina para criar um senso forte de apego.

“Há um coquetel de químicos acontecendo no cérebro [da arganaz fêmea], e um deles é a ocitocina”, explica Young. “Isso faz o cérebro absorver dicas sociais do parceiro sexual – coisas como sua fisionomia, seu cheiro e seu som.” Quando os arganazes cruzam, uma parte do cérebro deles chamada núcleo accumbens faz a conexão entre as dicas sociais que a ocitocina os faz observar e o senso de prazer ocasionado por um grande fluxo de dopamina (o hormônio do prazer) em seus cérebros.

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Enquanto a dopamina e a ocitocina são ligados nos cérebros dos arganazes pós-sexo, o apego cresce. “É de onde vem o laço”, explica Young. “É uma parte do nosso cérebro também envolvida no vício.”

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O cérebro humano também contém receptores de ocitocina e vasopressina. E, como os arganazes do campo, humanos liberam grandes quantidades de ocitocina durante o sexo. Dr. Young explica que estimulo nos seios e cérvix durante o sexo são conhecidos por liberar grandes quantidades de ocitocina no cérebro das mulheres, que aí recebe um novo fluxo de ocitocina depois do orgasmo. Pesquisas da Dra. Helen Fisher da Universidade de Indiana mostraram que, quando você escaneia o cérebro de pessoas apaixonadas, elas exibem atividade nas partes que produzem e distribuem dopamina – as mesmas regiões que se ativam quando você usa cocaína.

Young postula que essa apego romântico é um problema evolutivo desenvolvido para nos encorajar a criar laços, e assim garantir que nossos filhos tenham as melhores chances de sobrevivência. “Filhos de humanos levam muito tempo para se desenvolver – a mãe cuida do bebê por anos. Historicamente, era benéfico para parceiros sexuais se apagarem para poder trabalhar juntos para criar um filho saudável”, ele conclui.

Mas esse laço pode ser evitado? Como a ocitocina e a vasopressina criam esse irritante apego pós-sexo, é possível manipular esses hormônios para evitar chorar bêbada depois do seu casinho de uma noite? Dr. Young diz que é viável.

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O primeiro passo para controlar os hormônios do amor, segundo ele, é evitar contato visual – sabemos que contato visual prolongado aumenta a liberação de ocitocina no cérebro. “Quando você faz sexo com alguém”, explica Young, “você está fazendo uma conexão íntima com o rosto e particularmente os olhos da pessoa. Isso, no seu cérebro, é inerentemente gratificante. Amor e apego são muito como o vício. Eles compartilham muitos dos mesmos químicos. Então se você pode evitar que essa informação entre não fazendo contato visual, isso vai ajudar.”

No assunto de vício, pode ser útil fazer sexo depois de usar drogas se você quer evitar um apego emocional. “Cocaína e metanfetamina aumentam a secreção de dopamina, e dopamina é o que está envolvido em criar laços em primeiro lugar. Se você aumenta essa dopamina exteriormente antes de um momento íntimo, então isso não vai ter o mesmo impacto depois”, explica Young. “O caráter especial do sexo, e o diferencial causado pela liberação de dopamina não serão tão altos.” Em outras palavras, se você chapa antes de transar, você tem menos chances de associar o aumento de ocitocina formador de apego com o parceiro sexual.

Uma ressalva: enquanto drogas podem ser úteis para cultivar um desapego intencional, o álcool pode ter o efeito reverso nas mulheres. “Quando arganazes machos tomam álcool, eles se tornam promíscuos e isso impede que eles formem laços”, diz Young, citando um estudo que ele está conduzindo atualmente onde arganazes machos recebem álcool e depois podem cruzar com uma fêmea. “Normalmente, se o arganaz macho cruza com uma fêmea, no dia seguinte quando o colocamos numa gaiola de três câmaras contendo três arganazes fêmeas, ele vai optar por ficar com a arganaz com que ele já cruzou.” Mas, se o arganaz macho estava bêbado no momento do cruzamento, ele vai escolher não ficar com a fêmea com que ele já cruzou. “Ele vai preferir uma fêmea diferente.”

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Infelizmente, o mesmo não se aplica a arganazes fêmeas. “Quando as fêmeas bebem álcool, isso aumenta as chances delas se apegarem prematuramente.”

Outro jeito de evitar a associação íntima entre seu parceiro de foda e atividades aumentadas no centro de recompensa do seu cérebro é conscientemente se focar em outra pessoa durante o sexo. “Se você força seu cérebro a associar o que você está sentindo com outra pessoa”, explica Young. “Pode ser um astro de cinema ou alguém que você nunca vai ver pessoalmente. Fazendo isso, você desvia a atenção do cérebro para alguém que não está ali.” Isso evita que o cérebro se apegue pela pessoa com que você está realmente transando – você não está absorvendo as dicas visuais que são vitais para a liberação de ocitocina.

Quando as fêmeas bebem álcool, isso aumenta as chances delas se apegarem prematuramente.

Young também sugere evitar estimulação dos mamilos. Bom, ele não disse exatamente isso – estou parafraseando. O que ele realmente disse foi: “Os humanos são a única espécie onde os homens adotaram a estratégia de estimulação dos seios durante o sexo para estimular liberação de ocitocina. Os seios, nos humanos, se tornaram um ponto da atração sexual e preliminares. É um jeito de ativar o sistema de ocitocina, persuadindo o cérebro da fêmea a se apegar ao parceiro sexual.” (As mulheres são condicionadas a liberar ocitocina em resposta a estimulação dos mamilos; é assim que alimentamos nossos bebês.)

Se você fez todas essas coisas e ainda está se sentindo inexplicavelmente devotada ao homem misterioso deitado do seu lado, não surte. A terapeuta sexual Nan Wise pede que você lembre que somos, nas palavras imortais do Bloodhound Gang, nada mais que mamíferos.

“Esses sentimentos para com a outra pessoa são uma reação natural do cérebro mamífero. É como uma droga, esse sentimento de afeto. Mas você pode aprender a lidar com isso”, diz Wise. “Não considere isso algo terrivelmente significativo. Os sentimentos não estão vindo dessa pessoa [com quem você está transando]; e sim da sua reação aos estímulos.”

Diferente dos arganazes do campo, (a maioria) dos humanos têm autoconsciência e habilidade intelectual de entender que o que você está sentindo não é necessariamente real. Saber que seu cérebro foi inundado com um poderoso barato químico, que eventualmente vai se dissipar, pode te ajudar a modular essas emoções pós-coito. Reconheça que você está simplesmente arrebatada por um romance químico passageiro, e liberte seus genitais.

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