Pornô hardcore pode ser arte?
Sexo

Pornô hardcore pode ser arte?

De orgias teatrais a DPs de ficção científica, críticos de cinema dissecaram alguns dos pornôs mais ambiciosamente artísticos da década.
Lia Kantrowitz
ilustração por Lia Kantrowitz
26 May 2017, 3:34pm

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE US.

Os closes de orifícios, diálogos constrangedores e música tosca de elevador geralmente associados com o pornô não trazem à mente arte cinematográfica para a maioria das pessoas. Mas há uma longa tradição de diretores e produtores de pornô ambiciosos, que tentam usar seus filmes para mais do que te ajudar a aliviar o stress. Nos anos 70, quando o pornô começou a rastejar para fora das sombras da censura e moralidade excessiva, longas hardcore como Garganta Profunda ganharam atenção da mídia mainstream e foram analisados por grandes nomes da crítica como Robert Ebert.

Mas em algum lugar do caminho, a intelligentsia do cinema norte-americano parou de conferir o que a turma dos filmes picantes estava fazendo. Para mudar isso, bolamos um pequeno experimento. Abordamos cinco críticos de cinema e acadêmicos respeitados para assistir mais de oito horas de alguns dos vídeos hardcore mais ambiciosos da última década. Veja o que eles acharam abaixo.

Wasteland

Nesse filme de 2012, o diretor Graham Travis constrói uma história íntima cercando a amizade turbulenta entre duas mulheres. Com diferença de anos, elas se reúnem nesse submundo hedonista de Los Angeles, onde se envolvem em transas emocionalmente carregadas.

David Sterritt: Como apenas um filme, eu não daria uma crítica muito boa. Mas dado que uma das prioridades dele é mostrar sexo hardcore, o filme faz um bom trabalho apresentando as coisas que valorizamos em filmes: desenvolvimento da narrativa, psicologia dos personagens, atuação que tem uma aura de veracidade. Quando você carrega isso para as cenas de sexo na primeira metade do filme, realmente senti que as duas personagens estavam tendo uma experiência de amor, não apenas uma experiência física divertida. O filme consegue, até uma boa extensão, usar a atividade sexual hardcore para estender o significado emocional da história. E por isso, quando você chega no clube de sexo da segunda parte do filme, é decepcionante, porque você não sente mais isso. Vejo uma pessoa assistindo esse filme mais de uma vez pelos relacionamentos além da pornografia. O filme defende razoavelmente bem a possibilidade de cinema sério na indústria adulta. Não é um filme ótimo, mas é um bom filme.

Meghan Sutherland: O filme tenta imbuir os corpos com mais significado e apelo sexual através da narrativa, e nesse sentido, ele é inovador e interessante. Os closes não eram apenas de pintos e buracos. A maioria era de rostos, e eles só têm porra e pintos em volta deles em 20 ou 30% do tempo. Por todos os tropos padrões do pornô, esse filme está realmente tentando encontrar uma maneira diferente de pensar de onde o desejo, o sexo e os corpos vêm, pensando nessa amizade e fazendo uma reflexão do fato que há empatia, criatividade e amor [ali]. É quase exagerado, defender os valores artísticos do filme além do uso [para pornografia]. Mas foi impressionante, um passo mais clínico que um filme de arte que mostra sexo não simulado.

Michael Sicinski: Levei um tempo para entender o que o filme queria. A cena inicial onde Jacky sai do carro e faz um boquete num sujeito aleatório me pareceu exagerada. Depois fica aparente que tudo está integrado, da conexão emocional das personagens ao seu ciúme, estranhamento e amargura. Tudo isso estava presente na relação sexual delas. E toda essas sensações de perda e derrota estavam presente quando Jacky vai para o clube de sexo, e os sentimentos complexos de Anna sobre Jacky estão lá quando ela se deixa levar no clube. Essas cenas não foram feitas para ser sexy. São degradantes. Para os espectadores homens, isso meio que te implica.

É quase como se [o diretor] estivesse fazendo um filme pornô antipornô. Ele faz essa alegoria de como o trauma pode levar alguém a se desvalorizar. E isso contrasta com a amizade e a relação lésbica, que parecem ter o potencial para sexo com uma maior conexão emocional. O filme me pareceu bastante radical. Outros filmes lidam com a repetição do trauma e como isso avança para o sexo sem alma. Mas como não retratam sexo hardcore, eles precisam gerar uma camada discursiva para chegar aos mesmos lugares que Wasteland vai diretamente. O filme nem sempre alcança suas ambições, mas foi fácil para mim contornar as falhas por causa da ressonância emocional.

Mike Sargent: Acho que mais coisas podiam ser exploradas. Isso te afasta um pouco do filme às vezes, porque de outras maneiras ele é crível. Tipo quando uma personagem diz "Vamos para casa" e a outra garota só desce do carro e se junta a ela, você pergunta "Por que ela fez isso?" Ela não parece questionar por que fez isso. Aí, no final, ela simplesmente vai embora. Mas essa experiência a abriu um pouco, não? Você quer saber se elas continuam amigas, se reconciliam, continuam apaixonadas. Você quer saber mais sobre o que essas personagens pensam sobre sexo, que é algo que você nunca tem no pornô. Não ligo para finais em aberto, mas havia alguns elefantes na sala. Acho que eles poderiam ter abordado isso, mas talvez tenha sido a escolha artística.

Lise Raven: Não acho que isso foi uma tentativa de não ser um pornô, mas imagino assistir isso como um filme da meia-noite no Sundance. A cinematografia, o design e o visual do filme são incríveis. Me pareceu um Gossip Girl com boquetes. O enredo se intercala [visualmente com o sexo] até o final. No gangbang final, as garotas meio que se perdem. As coisas simplesmente acontecem com elas. Suspeito que tenha uma filosofia sobre passar pelo inferno e sair do outro lado, mas não tenho certeza. Começou como um filme e terminou como outro, e essa inconsistência me incomodou.

The Crash Pad

Em algum lugar de São Francisco existe um apartamento vazio. Se alguém te der a chave, você pode ir até lá e transar muito. O problema é que você só pode usar a chave sete vezes. Dirigido por Shine Louise Houston em 2006, esse filme utiliza seu cenário simples para mostrar hardcore queer surpreendentemente diverso e bem filmado.

David Sterritt: A razão para precisar de um filme inteiro, se você realmente precisa de um [para o pornô], é para trabalhar a história e a psicologia. Esses elementos eram mínimos em The Crash Pad. O que o distingue é o ângulo voyeurista, que há uma filmagem secreta rolando na história. Tecnicamente, o visual é cru. Isso pode ter sido de propósito por causa do tema do filme... voyeurismo. Também é muito repetitivo. Sei que há tipos diferentes de penetração e combinações. Para ser justo com Crash Pad, [todo mundo envolvido] parece estar se divertindo muito. E sei que ele fala com uma comunidade geralmente ignorada. Então isso é admirável. Mas o subproduto só vai servir uma comunidade limitada, e não alcança pessoas como eu.

Meghan Sutherland: Gostei do fato de que não há narrativa. É um filme direto. Ele muda a questão dos valores estéticos para ética e estilização de diferenças sociais e sexo, que rearticula o social através de diferentes agrupamentos. As estruturas formais parecem mais reminiscentes do pornô hétero tradicional do que eu esperava – um foco pesado, quase clínico, na ação. Mas eu estava interessada em como isso era mostrado. O "crash pad" é só uma casa normal, não um espaço de fantasia. A iluminação era natural, o jeito como os corpos eram mostrados parecia muito íntimo, como se você estivesse vendo pessoas reais que não foram maquiadas fora das câmeras. Isso dá ao filme ternura e honestidade.

Michael Sicinski: Quero ver mais trabalhos de Shine Louise Houston. Esse filme tem uma vibe comunitária e vem de uma sensibilidade queer. Mas há uma atenção à composição e edição que nunca notei que faltava tanto na pornografia. A maioria dos pornógrafos acha a vagina insignificante na melhor das hipóteses e de mal gosto na pior. Mas Houston filma vaginas como uma parte bela do corpo. Em uma cena de ménage, há uma tomada do final da cama subindo para a pélvis de uma mulher nua, enquadrada pelos consolos negros de duas outras mulheres, quase numa formação triangular. Essa não é uma coisa que acontece por acaso. Isso mostra cuidado com a imagem e como a câmera pode embelezar uma cena de sexo.

Mike Sargent: O filme tem um bom mecanismo de entrega... que qualquer casal pode estar lá e você passa a chave a diante. Mas você não entende por que pode usar o apartamento ou como isso tudo começou. Não há interesse em te dar mais que isso. "Tem uma chave, você pode ir lá transar." Gostei muito da variedade e do fato do filme ser multirracial. Pessoas não brancas são mais fetichizadas na indústria de filmes adultos. Gostei que o filme não tivesse nada de fetichista. Eram mulheres diferentes tendo experiências sexuais diferentes. Gostei de como o filme mostra a diversidade da cultura queer. É isso que torna o filme vanguardista. Ele me fez questionar coisas que nunca questionei antes, como andar por aí com sua cinta-caralha em público sendo mulher. Isso acontece? O que isso significa? Fiquei curioso.

Lise Raven: Muito divertido e nada pretensioso. Todo mundo está se divertindo muito, não importa o que aconteça. Há muita ação e o mínimo de distração. O filme é novo e cru, e gostei disso. A diretora não tentou fazer uma edição muito rebuscada, mas também não era uma edição preguiçosa e não intencional. Ela não usou a câmera de nenhum jeito diferente. Mas o filme não seguia nenhuma fórmula. As cenas de sexo pareciam orgânicas em vez de construídas ao redor do trabalho de câmera e edição. Mas depois de um tempo, era só um casal atrás do outro fazendo sexo. Se eu não tivesse obrigação de assistir tudo, eu provavelmente teria ficado entediada e passado para o final.

Upload

Um épico de ficção científica de quatro horas de 2007 que retrata um futuro altamente tecnológico, onde a infraestrutura mais vital dos EUA é uma internet que permite que as pessoas baixem pornôs imersivos direto no cérebro. A história acompanha uma agente do governo que tenta rastrear um vírus que parece vir desses pornôs cerebrais – e conseguindo sua primeira dupla penetração.

David Sterritt: O filme não foi feito com um orçamento mainstream. Mas os efeitos convencem. Há diálogos longos; acho que isso mostra seriedade da parte do filme. Mas os diálogos não são tão interessantes, e a atuação não é muito boa. E muito disso se passa entre um homem atrás de uma mesa e uma mulher na frente da mesa – algo pouco criativo.

As cenas de sexo são como um filme para encanadores. Você vê que esses canos realmente se encaixam. Na comunidade de espectadores especializados no gênero, acho que a conversa seria "Essa é a primeira dupla penetração de fulana". As pessoas têm direito de se interessar por isso. Mas para quem não curte, mais de um minuto já é demais. Há um tipo de monotonia, não apenas nas cenas de sexo mas no filme como um todo, apesar do tema exótico. É um sistema de entrega [de sexo hardcore].

Meghan Sutherland: Primeiro pensei "Jesus, quatro horas". Achei que seria uma experiência brutal assistir o filme inteiro. Mas desenvolvi uma apreciação. O filme trabalha com várias referências formais de longas noir e a femme fatale. Fiquei impressionada com o rigor da ideia e dessa reflexão sci-fi no pornô. O enredo era inteligente. O tema de ficção científica permite multiplicar as possibilidades de cenário. Há uma tentativa de refletir a projeção da psique de uma mulher que estaria no pornô, da mesma maneira que a personagem principal está sempre atraindo as pessoas para pensar em seus motivos. [E] é uma visão interessante do que o futuro do pornô pode ser quando incorporar inteligência artificial.

Michael Sicinski: Muito tempo, dinheiro e esforço foram devotados para o design de produção. Mas achei muita da narrativa de espionagem cibernética tediosa. O tempo, a estrutura e o ritmo são muito estranhos. Muita coisa é opaca e ilógica. Você pode se safar com bobagens ilógicas num enredo se manter o ritmo. Mas como o timing se perde, o público tem tempo de perceber que algumas coisas não fazem sentido. Também parece que os produtores queriam investir numa narrativa cyberpunk mais do que no pornô, mas como o dinheiro estava vindo dessa indústria, eles tinham uma obrigação contratual de ter conteúdo hardcore, o que muitas vezes parece fora de lugar. Muitas vezes o sexo é só estranho.

Mike Sargent: Partes da narrativa são um pouco cruas, apesar de a ideia ser boa. Gostei do modo como eles prestaram tanta atenção nisso, e eu queria saber o que era o McGuffin aqui. Isso teria funcionado como filme B. Tem uns 45 minutos de história. Mas eles poderiam alongar se quisessem fazer uma série pornô para a TV ou algo assim. Mas o sexo era muito longo. As cenas de sexo não avançavam a trama necessariamente. Na verdade, o sexo parava a trama. E em termos de estilo de filmagem, parece que eles atiraram para todo lado. E nenhuma das atuações é muito boa. O filme tem sucesso em 50% das vezes que tenta emular valor de produção. O resto do tempo parece só um longa brega.

Lise Raven: As pessoas teriam assistido esse filme no cinema nos anos 80, na época de Alien e Blade Runner, como fizeram com Garganta Profunda? Talvez não. Dá para ver o valor elevado de produção e a tentativa de criar um mundo levando o longa para novos territórios, mas não há cenas de ação sci-fi suficientes. Não tem o suficiente acontecendo.

Os personagens eram muito mais complexos do que geralmente vemos na indústria adulta. Mas isso não importa porque quando eles vão para uma cena hardcore, é só uma cena hardcore. Não importa quem sejam. Eles não levaram suas inovações para as cenas de sexo. Você tem tudo muito detalhado. Dentro do gênero do filme adulto, eles fizeram algo do que se orgulhar com uma grande cinematografia, design, figurino e locações. Mas não senti nem por um minuto que isso era algo além de um pornô.

David Sterritt é crítico de cinema aposentado mas ainda prolífico com mais de 50 anos de experiência, defensor da vanguarda e uma voz respeitada da crítica e estudos de cinema clássico.

Meghan Sutherland é professora de estudos cinematográficos da Universidade de Toronto; seu trabalho envolve política, estética e espetáculo na tela.

Michael Sicinski é crítico de cinema, professor e a voz por trás do Academic Hack , uma coleção de críticas explorando principalmente filmes experimentais.

Mike Sargent é membro fundador da African American Film Critics Association, do Black Film Critics Circle e diretor emergente.

Lise Raven é uma cineasta cofundadora do Slamdance Film Festival para artistas emergentes e filmes independente, e professora de cinema na Montclair State University .

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Tradução: Marina Schnoor

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