Meio Ambiente

Esse cano está cuspindo sangue no mar há quase dois anos

Filmagens obtidas recentemente mostram um cano submarino na Colúmbia Britânica que joga sangue e tripas infectadas no mar do Canadá.
11.12.19
Tavish Campbell diving next to the pipe. Photo courtesy Campbell​.
Tavish Campbell mergulhando perto do cano. Foto cortesia de Campbell.

Talvez você tenha ouvido falar sobre o Cano de Sangue, um encanamento que soltava sangue no Oceano Pacífico da costa do Canadá? Bom, um novo vídeo mostra que ele continua fazendo isso, quase dois anos depois que foi assunto das notícias no país e no mundo.

No outono de 2017, o fotógrafo Tavish Campbell seguiu um palpite e mergulhou no canal Discovery Passage, na Ilha de Vancouver, Colúmbia Britânica. Ele suspeitava que uma instalação de processamento de salmão próxima, a Brown's Bay Packing, tinha instalado um cano – de um sistema de água residual comum na indústria piscicultura – nas águas do canal, por onde salmões-vermelhos selvagens passam.

sockeye salmon

Photo courtesy Tavish Campbell

O que ele achou não era nada normal. O cano está jogando um fluxo de sangue e escamas na água. Quando ele mandou uma amostra para ser analisada na Atlantic Veterinary College de Prince Edward Island, cientistas no laboratório lá descobriram que o sangue continha vermes intestinais conhecidos como Piscine Reovirus.

Depois que Campbell fez e publicou seus vídeos iniciais em 2017, Dominic LeBlanc, Ministro da Pesca do Canadá na época, disse que o Ministério da Pesca e Oceanos “precisava fazer mais” para proteger os salmões selvagens, incluindo fazer companhias de piscicultura passarem por exames obrigatórios de detecção de PRV, segundo a CTV News. Então parecia que as coisas iam mudar.

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Aí, quando Campbell mergulhou no mesmo local mais um ano depois, quatro vezes entre outubro e novembro, ver o cano ainda soltando sangue depois de todo esse tempo foi um soco no estômago – e nojento.

“Senti como se estivesse afundando vendo o sangue ainda saindo do cano”, Campbell disse ao Motherboard. “A decepção logo foi substituída por medo pela saúde dos salmões selvagens, e de toda a costa da Colúmbia Britânica.”

Este ano teve o pior retorno de salmões-vermelhos registrado na Colúmbia Britânica, segundo um relatório do começo do ano de especialistas federais em pesca. Projeções anteriores para o retorno de 2019 eram de cerca de cinco milhões – mas o relatório atualizado mostrou um pouco mais de 600 mil peixes.

O Ministro da Pesca atual Jonathan Wilkinson disse numa entrevista coletiva em agosto que “sem dúvida” a culpa do declínio era das mudanças climáticas, que têm impacto não só no meio ambiente como na economia. Mas casos como o desse cano, que está vomitando litros e litros de sangue de peixe infectado por águas onde salmões selvagens passam, com certeza não ajudam também. Alguns estudos mostram que esse vírus é altamente contagioso, e prejudica as populações selvagens de peixe.

Um sócio da Brown's Bay Packing, David Stover, disse a CTV News que a empresa está nos estágios finais de autorizar a construção de um sistema de tratamento de água de US$ 1.5 milhão. “O componente de desinfecção do sistema, que é o estágio final do processo, é pensado para desinfectar o encanamento”, ele disse. “Mesmo não fazendo exames para a detecção de PRV, estamos confiantes que o processo de desinfecção vai matar bactérias e vírus.”

Campbell diz que, considerando que a instalação de processamento opera continuamente, e com base em suas observações, o cano cospe sangue pelo menos enquanto os funcionários estão limpando os peixes.

“2019 foi o pior ano de retorno de salmões da história canadense”, Campbell disse. “Isso é uma extinção, e está acontecendo bem embaixo do nosso nariz.”

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