Por dentro dos jogos de Guantánamo, a prisão mais controversa dos EUA
Ilustração: Sunless Design
Games

Por dentro dos jogos de Guantánamo, a prisão mais controversa dos EUA

Jogos do Harry Potter e clássicos do PlayStation 3 ajudam no dia a dia de detentos que passam a vida atrás das grades.
1.8.17

Esta matéria foi originalmente publicada no Waypoint.

Em 2002, o governo americano deteve um homem da Mauritânia, Mohamedou Ould Slahi, e o mandou para Guantánamo (popularmente conhecida como Gitmo). Enquanto Slahi esperava pela acusação formal (que nunca recebeu), ele escreveu um livro de memórias de 446 páginas detalhando as muitas estratégias empregadas para suportar seus anos de confinamento.

No livro, ele fala muito sobre sua fascinação com jogos, um interesse que ele desenvolveu só depois de sua chegada na instalação.

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"Antes da prisão, eu não sabia a diferença entre um peão e a bunda de um cavalo, nem era um grande jogador. Mas achei o xadrez um jogo muito interessante, especialmente o fato de que um detento tem total controle de suas peças, o que devolve um pouco de sua auto-confiança."

Slahi é um dos aproximadamente 780 detentos que passaram pela instalação de detenção de Guantánamo; até o fim de julho de 2017, 41 continuam lá. Nos últimos 15 anos, muitos detentos requisitaram e leram livros da Biblioteca de Detentos. Os jornalistas documentam há anos que títulos aparecem nessas prateleiras, e nos últimos anos, o inventário passou a contar não apenas com DVDs, mas também jogos para PlayStation 3.

Mas a biblioteca continua um labirinto, uma instalação cheia de perguntas espinhosas. Este verão, a VICE me mandou pra Biblioteca de Detentos de Guantánamo para saber o que aconteceu com os jogos de lá. Tirando informação da viagem e das minhas pesquisas anteriores, aqui está tudo que sei sobre a Biblioteca dos Detentos.

Biblioteca dos Detentos de Guantánamo. Todas as fotos: Muira McCammon

Há uma biblioteca para detentos em Guantánamo

No dia 13 de setembro de 2013, Michael Morisy fez uma requisição através da Lei de Acesso a Informação pedindo "uma cópia das diretrizes para aceitar doações de livros para detentos de Guantánamo". Em 2017, depois de uma certa espera, ele recebeu o JDG Procedure #40. Esse documento tem uma frase que li várias vezes, porque na superfície parece uma declaração muito simples:

"A Biblioteca de Detentos fornece livros, revistas, jornais, DVDs/CDs, jogos de tabuleiro e jogos eletrônicos."

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O comandante John Robinson, diretor de Questões Públicas da Força Tarefa Conjunta de Guantánamo, me disse por carta que esses "jogos eletrônicos" eram jogos de PS3, que foram acrescentados à biblioteca no meio de 2011.

'Final Fantasy XIII-2' é um dos jogos disponíveis pros detentos.

Os detentos nunca vão à biblioteca

Levanto minha mão na Biblioteca dos Detentos. O prédio em que estou – uma construção que abriga todos os jogos de PS3 para os detentos – parece um pouco com o trailer na Carolina do Sul onde fiz meu curso de etiqueta quando era criança. Sendo assim, cercada por homens em uniformes militares, me sinto um pouco como uma estudante. Essa sensação só aumenta considerando que escrevi minha tese de mestrado neste mesmo prédio – a Biblioteca de Detentos da Baía de Guantánamo. Mas ainda há muitas coisas que não sei.

Me viro pro soldado comandando a excursão, um cara de vinte e poucos anos que se chama Oficial de Programas para Detentos. Pergunto sobre os videogames.

"Eles requisitam os jogos como requisitam livros", diz o oficial. "Eles podem ter até dez com eles para compartilhar no bloco comunitário. Quando eles querem devolver um jogo, eles podem trocar por outro."

Membros da Força Tarefa Conjunta participando da excursão na Biblioteca dos Detentos.

O Oficial de Programas para Detentos chegou a Guantánamo há pouco mais de um mês, e passei mais de 2 anos e meio estudando os protocolos, políticas e práticas da biblioteca. Passamos 34 minutos nesse espaço que me manteve alerta por mais de 30 meses. A terra onde estamos está sob o controle do governo americano desde 1903.

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A biblioteca não está aceitando doações de jogos de tabuleiro

Parada na biblioteca, pergunto ao oficial se jogos de tabuleiro estão sendo acrescentados à coleção.

"Estamos sempre tentando aumentar nossa coleção de jogos", ele me diz, lembrando que "Alguns jogos precisam passar por um processo de verificação, por causa do material de que são feitos. Mas se são aprovados, estamos constantemente tentando aumentar nosso inventário de jogos."

Ainda assim a biblioteca não oferece jogos de tabuleiro – nem xadrez ou damas, quanto mais jogos mais complexos. E quando insisto nisso, o oficial me diz que os únicos jogos que a biblioteca armazena são jogos para PS3.

"Isso foi progredindo, assim como o nosso sistema", diz outro soldado. "Começou com Nintendo. Eles tinham um Nintendo 64 aqui; foi o primeiro que recebemos, e a coisa progrediu conforme os consoles ficavam datados. Agora é de conhecimento comum que eles estão lançando o PS4, a próxima migração, porque esses jogos já estão ficando obsoletos. Então as coisas progridem."

Pergunto diretamente se eles planejam trocar pro PS4, mas a dupla reitera que por enquanto, a Biblioteca de Detentos vai continuar operando com jogos de PS3.

Mais jogos de PS3 da Biblioteca de Detentos.

Apesar de não ter visto nenhum, jogos de tabuleiro são parte da instalação há anos

Mas em seu livro de memórias, Known and Unknown, o ex-secretário de Defesa Donald Rumsfeld aponta que "os detentos tinham acesso a uma quadra de basquete e vôlei, mesas de pingue-pongue e jogos de tabuleiro". Kyndra Miller Rotunda, ex-oficial da JAG Corps, disse o mesmo em seu próprio livro, Honor Bound: Inside de Guantanamo Trials, criticando advogados que exageravam sobre as condições dos clientes. "Se eles acreditavam mesmo que as condições eram deploráveis", ela pergunta, "por que citam questões menores, como acelerar a entrega de correspondências ou adquirir jogos de damas pros detentos?"

Os jogos fizeram várias aparições na Revisão do Departamento de Cumprimento da Ordem Executiva do Presidente sobre as Condições dos Detentos em Confinamento, um documento preparado em 2009 para um briefing com o presidente Obama sobre Guantánamo. A Revisão – geralmente chamada de Relatório Walsh, o nome de um dos principais compiladores de informações, o Almirante Walsh – diz: "Sob o RDCO 2310.01E, os detentos são tratados humanamente e respeitados como seres humanos. Material adicional referente pode ser encontrado no GPW (Art. 38, 98), GCC (Art. 94, 125), e AR 190-8 (6-7), que estabelece que os detentos são encorajados a participar em buscas intelectuais, educacionais e recreativas, além de esportes e jogos."

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A pesar do hyperlink pras notas de rodapé do Relatório Walsh não funcionar há muito tempo atrás, a Wayback Machine tem arquivada uma série de imagens rotuladas como "itens dos detentos", que mostra alguns dos jogos de tabuleiro fornecidos aos detentos em 2009: damas, gamão e xadrez entre eles.

Mas se há jogos de tabuleiro em Guantánamo, por que eles não estão guardados junto com os jogos de PS3 na biblioteca?

Mandei essa pergunta por e-mail para a Força Tarefa Conjunta. Primeiro, não recebi resposta. Depois, o Comandante Robinson escreveu:

"O Grupo de Detenção Conjunta começou a fornecer jogos eletrônicos pros detentos em 2008, para fornecer estímulo mental como parte da nossa missão em fornecer tratamento humano. Com a evolução da tecnologia, os sistemas foram atualizados de Nintendo para PS3 em 2011 e 2012. Atualmente, tanto o Programa de Detentos do governo e advogados de detentos fornecem jogos para serem usados nos consoles fornecidos pelo governo. Jogos de tabuleiro não são fornecidos pelos Programas de Detentos desde 2007 ou 2008. Os detentos não estão usando jogos de tabuleiro agora por falta de interesse. Os jogos estão armazenados."

Quando perguntei como esse interesse era determinado e o que acontecerá com os jogos guardados se o centro de detenção fechar, Robinson se referiu de novo a sua resposta inicial.

Talvez os jogos estejam mesmo guardados

Quando perguntei a Wells Dixon, advogado sênior do Centro de Direitos Constitucionais, o que ele achava que tinha acontecido com os jogos de tabuleiro na instalação, ele especulou que a Força Tarefa Conjunta poderia estar dizendo a verdade.

"Acho pouco provável que o a FTC-Guantánamo tenha tirado jogos de tabuleiro ou livros, DVDs ou qualquer coisa para piorar a vida dos homens detidos lá", ele disse por telefone. "Minha suspeita é que os detentos não estão pedindo mais por jogos de tabuleiro porque quando o presidente Obama assumiu, eles tiveram a oportunidade de conseguir DVDs e videogames. Então isso era algo novo."

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Dixon enfatizou que a novidade tem muito valor pros detentos. "Uma das coisas que ouvimos de nossos clientes na história de Guantánamo é que eles ficam entediados de usar o mesmo material de novo e de novo. Não conheço um único detento que queira ler alguma coisa do Harry Potter agora, claro. Porque todos eles já leram Harry Potter várias vezes nos últimos 15 anos. Não que eles não gostem de Harry Potter. Eles adoram Harry Potter. Harry Potter salvou muitos homens da loucura, particularmente entre 2005 e 2006. Então J.K. Rowling pode se orgulhar disso."

"Suspeito que o mesmo aconteceu com os jogos de tabuleiro? Você só pode jogar Monopoly e War um punhado de vezes antes de enjoar. Suspeito que é esse o caso."

Muitos advogados representando ex-detentos continuam em contato com seus clientes por Facebook, Twitter ou até mensagem de texto. Alguns minutos depois de ligar pra VICE comentando sobre o que ele achava que tinha acontecido com os jogos de tabuleiro em Guantánamo, Dixor recebeu uma atualização de um ex-detento:

"Falei com um cliente, que esteve detido e não jogava esses jogos, mas ele disse que eles tinham damas e xadrez, além de pôquer e dominós, mas no final de 2010 esses jogos tinham sido retirados da biblioteca ou os detentos não os estavam pedindo mais, mas isso não está totalmente claro. Perguntei se esses jogos eram populares com os outros detentos. Ele lembra que as pessoas costumavam jogar dominó no bloco dele."

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[Nota: Guantánamo consiste de uma série de acampamentos, e alguns deles têm blocos de celas que incluem um espaço comunitário central, onde detentos com "bom comportamento" podem se reunir e conversar. Mas também há o Acampamento 7, e ninguém da Força Tarefa Conjunta de Questões Públicas quis descrever o que está disponível lá oficialmente. Alguns não sabem – já que a instalação é comandada pela CIA.]

O futuro da biblioteca dos detentos é incerto

Dixon enfatizou que começar qualquer jogo agora é muito difícil, já que há poucos detentos lá. "Uma das coisas que eu apontariam em respeito aos jogos de tabuleiro é que em 2006, 2007, até 2008 ou 2009, há apenas 41 detentos, que continuam, 15 deles detentos de alto valor, que são mantidos separados de todo mundo, e então você tem os 25, 26 espalhados pelos blocos, então seria difícil…"

"Considerando onde estamos com a administração e considerando que nenhum detento saiu desde o fim da administração Obama", ele acrescentou, "a situação é ruim agora. Está tudo quieto, mas você não deve considerar isso um sinal de abandono."

A última coisa que sei sobre a Biblioteca de Detentos é…

Mesmo indo muito a fundo, eu nunca descobriria todas as histórias e escândalos, as políticas e práticas da Biblioteca dos Detentos de Guantánamo.

Tudo que posso fazer agora é registrar minhas próprias questões não respondidas:

- O que pode acontecer com todos esses jogos no evento improvável de Donald Trump assinar uma Ordem Executiva fechando as operações em Guantánamo?

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- Como a cultura de jogos em Guantánamo pode mudar se o governo americano começar a mandar mulheres ou combatente capturados do ISIS para lá?

- Se xadrez e damas já foram considerados apropriados, seria possível a FTC aceitar jogos de tabuleiro de estratégia/guerra?

- Quanto o governo americano e a Cruz Vermelha gastaram comprando videogames e jogos de tabuleiro para a Biblioteca dos Detentos entre janeiro de 2002 e junho de 2017?

- Nas próximas décadas, veremos mais bibliotecas de detentos no modelo de Guantánamo?

- Que jogos as famílias dos detentos jogavam, enquanto esperam o retorno de seus entes queridos?

E tenho mais dezenas além dessas. Mas deixo aqui outra pergunta pros leitores: que tipo de biblioteca de jogos você construiria pros 41 detentos em Guantánamo?

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