Fotos inéditas de Dalí provam que a sua mulher era mais que uma musa

Gala Dalí não falava publicamente sobre a relação com o artista, mas estas imagens raríssimas falam por si.

Por Beckett Mufson
28 Maio 2018, 6:00am

Este artigo foi originalmente publicado na VICE USA.

No começo do ano, uma exposição no Castelo da Fundació Gala-Salvador Dalí, em Púbol, Catalunha, revelou uma versão do icónico mestre surrealista vista através dos olhos de fotógrafas. As fotos da exposição Women Photograph Dalí são fascinantes. As curadoras, Bea Crespo e Rosa M. Maurell, seleccionaram fotos na posse de particulares que não era suposto serem vistas pelo público.

Imagens da surrealista Denise Bellon e da colaboradora da Vogue, Karen Radkai, estavam penduradas ao lado de retratos de Dalí tirados quando filmava In Voluptate Mors pela esposa do co-realizador Philippe Halsman, Yvonne. Mas, as jóias da colecção são as fotos raras de Gala Dalí, a esposa do artista, tiradas no começo dos seus 53 anos de relacionamento.

Gala Dalí, direitos reservados da Fundació Gala-Salvador Dalí, Figueres, 2018.

Gala nasceu Elena Ivanovna Diakonova, na Rússia, em 1894. Conheceu Dalí em 1929, quando era casada com o poeta francês Paul Éluard e tinha um caso com o dadaísta alemão Max Ernst. No final daquele ano, ela e Dalí já estavam a viver juntos e embarcaram num casamento aberto em 1934. As fotos na exposição foram captadas durante os primeiros anos juntos deles, nas praias da cidade catalã de Port Lligat.

Tiradas entre 1930 e 1932, as fotos de Gala da sua frenética relação com Dalí nunca antes tinham sido mostradas ao público e acrescentam uma visão diferente de uma das relações mais misteriosas entre artista e musa da história recente. Cimentam o lugar de Gala como mais do que um objecto da atenção de um artista famoso, imortalizada em pinturas como A Madona de Port Lligat e Retrato de Galarina.

O biógrafo de Dalí, Ian Gibson, explica à VICE que Gala nunca falou com a imprensa sobre a relação entre ambos, portanto o seu impacto na arte de Dalí tem de ser descodificado através do seu incrível memoir performático, aparições públicas e calhandrices daqueles que passaram pelas suas famosas festas e orgias. Mas, em Women Photograph Dalí, o olhar dela voltado para ele está em exibição.

Gala Dalí, direitos reservados da Fundació Gala-Salvador Dalí, Figueres, 2018

“Apesar do forte laço emocional entre Dalí e Gala, a relação não era madura”, escreve Zoltan Kovary sobre o casal numa conversa com a VICE por e-mail. Psicólogo, investigador criativo e professor da Universidade Eötvös Loránd de Budapeste, Kovary estudou o casal quando começou a escrever a sua análise psicológica da obra de Dalí, intitulada The Enigma of Desire: Salvador Dalí and the conquest of the irrational.

Há muito eros nas fotos de Gala do jovem Dalí, especialmente nas imagens dele a tomar banhos de sol na sua casa de praia em Espanha. Mas, Kovary diz que o amor entre eles “era algo mais de mãe e filho; por vezes, Gala tratava de Dalí por 'Meu filhinho'. Nunca tiveram um relacionamento sexual 'real'. Apesar de Gala lhe despertar desejos profundos, Dalí tinha medo do contacto físico”.

Gala Dalí, direitos reservados da Fundació Gala-Salvador Dalí, Figueres, 2018.

Mesmo assim, estas fotos estão cheias da excitação de um romance no seu começo. Dalí está à frente de uma loja estranha que encontraram, ou deitado, quase sem olhar para a câmara. As suas poses são casuais e despretensiosas. Vemos Dalí como ele queria que Gala o visse, anos antes de se tornar um artista famoso pelos golpes publicitários como passear com o seu papa-formigas de estimação pelas ruas e fazer declarações enigmáticas em programas de televisão.

Ninguém sabe melhor como é difícil separar factos de ficção e exageros na vida de Dalí que Gibson. Por e-mail, o biógrafo por detrás de The Shameful Life of Salvador Dalí diz: “Ele é um pesadelo para qualquer biógrafo. O que é que fazes com um indivíduo que estava sempre a actuar, sempre a interpretar um papel?”. As fotos de Gala criam uma empatia pela mulher que se casou com um homem tão desconcertante.

Anna Laetitia Pecci-Blunt, direitos reservados da Fundació Gala-Salvador Dalí, Figueres, 2018.
Denise Bellon, direitos reservados da Fundació Gala-Salvador Dalí, Figueres, 2018.

O conselho de Gibson para aqueles que ainda continuam fascinados pelo homem que pintou a visão fantástica Os Elefantes e a ansiedade transcendental de A Persistência da Memória é directo. “A principal pista para Dalí, acho eu, é que ele era patologicamente tímido e construiu a sua persona exibicionista como uma protecção”, sublinha. E conclui: “A tragédia é que não temos o lado de Gala desta história”.

E Women Photograph Dalí coloca-nos mais perto desse lado que alguma vez antes.


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