saúde mental

As pessoas passam até quatro horas por dia perdidas nos próprios pensamentos

A condição é conhecida como Transtorno de Devaneio Excessivo.

Por Emma Young
26 Julho 2018, 3:09pm

People Images/Getty Images

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Tonic.

“Estou perdida num devaneio desde que me consigo lembrar… Estes devaneios tendem a ser histórias pelas quais sinto emoções verdadeiras, geralmente felicidade ou tristeza, dotadas da capacidade de me fazer chorar e rir... São parte vital da minha vida como qualquer outra coisa; consigo passar horas com os meus devaneios... Controlo os meus actos em público para que não fique claro que a minha mente está sempre a criar estas histórias e vejo-me constantemente perdida por entre elas”.

A jovem de 20 anos que enviou estes pensamentos por e-mail a Eli Somer, da Universidade de Haifa, em Israel, foi diagnosticada com Transtorno de Devaneio Excessivo, também conhecido como Disfunção de Devaneio Inadaptado. Apesar de os devaneios não estarem incluídos nas directrizes convencionais da saúde mental, há comunidades online dedicadas ao tema e “nos últimos anos, aos poucos, tem-se tornado evidente que tais devaneios podem evoluir a ponto de se tornarem um comportamento excessivo e inadaptado, tornando-se então uma condição significativa do ponto de vista clínico”, escreveram Somer e Nirit Soffer-Dudek da Universidade Ben-Gurion, de Negev, num novo artigo sobre este tipo de transtorno, publicado na revista Frontiers in Psychiatry.


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Este estudo, afirmam os autores, é o primeiro a explorar os factores de saúde mental que acompanham o Devaneio Excessivo ao longo do tempo, fornecendo-nos novas percepções no que toca aos motivos que podem causar estes devaneios intensos, excessivos e vívidos, além de sugerir como preveni-los ou pará-los como um todo. Ao passo que muitos relatam retirarem um bom proveito dos devaneios, a condição pode afectar negativamente as suas relações com terceiros, as suas vidas qotidianas e bem-estar emocional como um todo.

Estudos conduzidos anteriormente levaram os investigadores a acreditarem que o Devaneio Excessivo seria uma espécie de Transtorno Dissociativo, uma perturbação na atenção, um vício comportamental ou um transtorno relacionado com o espectro obsessivo-compulsivo. Para este novo estudo, realizado em ambiente online, Somer e Soffer-Dudek recrutaram 77 pessoas auto-diagnosticadas com o Transtorno, residentes em 26 países diferentes com idades entre os 18 e os 60 anos. Mais de 80 por cento eram mulheres, possivelmente porque o Transtorno afecta mais mulheres que homens, de acordo com os investigadores.

Logo de início, os participantes forneciam dados sobre quaisquer diagnósticos relacionados com a sua saúde mental: 21 deles tinham sido diagnosticados com depressão, 14 com transtorno de associação e cinco com transtorno obsessivo-compulsivo, entre outros problemas. Depois, todas as noites antes de dormirem, ao longo de 14 dias, os participantes preenchiam uma série de questionários relacionados às experiências vividas naquele dia. Estes questionários mediam níveis de desassociação, sintomas obsessivo-compulsivos, depressão, ansiedade em geral, ansiedade social, emoções e também o Transtorno de Devaneio Excessivo. Pedia-se que os participantes relatassem até que ponto se identificavam com frases como “Senti necessidade ou urgência em dar prosseguimento a um devaneio interrompido por um evento do mundo real mais adiante” no contexto do dia.

Os participantes relataram uma média de quatro horas de devaneios diários. Em dias de maior intensidade, foram relatados níveis maiores de sintomas obsessivo-compulsivos, desassociação e emoções negativas, bem como os dois tipos de ansiedade. Mas, somente os sintomas obsessivo-compulsivos previam de forma consistente a intensidade e duração dos devaneios no dia seguinte, independentemente dos índices de sintomas obsessivo-compulsivos ao longo do mesmo dia.

Apesar das descobertas, os autores do estudo destacaram o facto de que apenas cinco participantes tinham sido diagnosticados com TOC: “Esta discrepância sugere que sintomas obsessivo-compulsivos e o transtorno de DI têm mecanismos em comum, que interagem entre si, mas o transtorno de DI não parece ser apenas um subtipo de TOC”. Os investigadores comentaram ainda que, muitos dos portadores do transtorno de DI descrevem sentirem-se consistentemente atraídos pelos seus devaneios de maneira compulsiva. “A descoberta de que um pico em sintomas obsessivo-compulsivos precede o transtorno de DI aponta para um papel essencial destes enquanto mecanismo contribuinte”, argumentam Somer e Soffer-Dudek.

A compulsão pelo devaneio – ou a necessidade de retomar o devaneio depois de passarem algumas horas – pode ser tratada através de abordagens comportamentais cognitivas desenvolvidas para o tratamento de outras compulsões, de acordo com sugestão dos investigadores. Os autores especulam também sobre a possibilidade de que baixos índices de serotonina possam estar associados ao transtorno, como no caso do TOC. Caso estudos futuros o comprovem, drogas que modificam os níveis de serotonina podem ser usadas no tratamento.

O estudo teve, porém, algumas limitações – em especial o facto de que foi baseado em relatos dos próprios pacientes. Mas, como as investigações sobre o tema são escassas e se acredita que esta seja a primeira exploração longitudinal do transtorno, os resultados devem, pelo menos, ajudar a criar as bases para próximos trabalhos na área. Dito isto, é possível também que nem todos os diagnosticados com transtorno de DI procurem algum tipo de tratamento.

Como é dito pela mulher portadora do transtorno que escreveu a Somer: “Fico dividida entre o amor pelos meus devaneios e o desejo de ser normal”.


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