análise

Cheira mal, cheira a Bloco Central

Há muito que diversos elementos do PSD e PS têm, alegadamente, prejudicado o Estado. A “Operação Tutti Frutti”, que incluiu setenta buscas, abre uma nova Caixa de Pandora a juntar a tantas outras que assolam os dois partidos.
28.6.18
Por estes dias, o melhor é ouvir Carmen Miranda e esquecer outras frutas suculentas no capítulo judicial. Foto via Wikimedia Commons.

A “Operação Tutti Frutti” despoletada na quarta-feira, 27 de Junho, tem todos os ingredientes para abrir outra fenda na pouquíssima credibilidade da classe política. Nas setenta buscas efectuadas pela Polícia Judiciária e pelo Ministério Público, houve passagens por autarquias (como a liderada por Fernando Medina), sedes partidárias (como as do PSD e PS na capital), casas particulares ou a sociedades de advogados.

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No comunicado da Procuradoria-Geral Distrital de Lisboa, lê-se que estão a ser investigados “crimes de corrupção passiva, tráfico de influência, participação económica em negócio e financiamento proibido”. Acrescenta ainda que foram recolhidos “fortes indícios” de que “um grupo de indivíduos ligados às estruturas de partido político, desenvolveram entre si influências destinadas a alcançar a celebração de contratos públicos, incluindo avenças com pessoas singulares e outras posições estratégicas”.

Sobre este inquérito que envolveu mais de duzentos agentes (entre os quais três juízes de instrução, peritos financeiros e informáticos) e que passou como um vendaval em Portugal Continental e nos Açores, o site Observador avança a possibilidade de existirem financiamentos ilícitos a estruturas social-democratas e socialistas, enquanto a revista Sábado escreve que, além de presumíveis actos de corrupção através de ajustes directos, procuram-se rastos de nomeações de boys (a capa do Correio da Manhã desta quinta-feira, 28 de Junho, diz que o ex-vice da bancada do PSD, Sérgio Azevedo, chefiava hipoteticamente a rede de distribuição de tachos nos dois maiores partidos). O termo “jobs for the boys” é uma nódoa tão impregnada no sistema estatal e em diversos concursos públicos da léria, que mais valia ser legalizada em Diário da República - uma piada, claro.

O Jornal da Hora do Almoço, na CMTV (no início de tarde desta quinta), fala de uma suposta negociação entre Fernando Medina e Sérgio Azevedo no que diz respeito a cargos em organismos públicos. O presidente da Câmara Municipal de Lisboa distribuiria boys do PS por Juntas de Freguesia laranjas e, em contrapartida, “elementos social-democratas teriam trabalho em Juntas ganhas pelos socialistas”. O cargo previsto seria o de assessor que, pelos vistos, em muitos casos, era fictício e com um salário mensal a rondar entre os dois e os três mil euros. Parte desse dinheiro seria encaminhado para um pretenso saco azul.

Por este andar, mais máscaras de senhores da Lapa e do Rato ameaçam cair e a não resistir à ideia que se algo cheira mal na política, cheira invariavelmente a Bloco Central.

Caciquismos e os péssimos exemplos que vêm de cima

Com o desgaste de ter o poder nas mãos desde que a democracia começou a ser consolidada há trinta e tal anos, o Bloco Central tornou-se uma máquina oleada para o bem e, na opinião dos mais desconfiados, sobretudo, para o mal. As jogadas de bastidores, entre membros do PS e PSD, foram sendo de tal forma arrasadoras que manietaram tudo o que eram centros decisores em benefício dos seus próprios interesses.

Não temos uma monarquia medieval em que se distribuem oficialmente terras por parentes e todo o tipo de amigalhaços do regime, mas praticamente passa-se o mesmo. Basta viver ou falar com pessoas que residem no interior e nas ilhas, ou ver o degradante espectáculo caquicista nos grandes centros, para saber que “há já muito tempo que nesta latrina o ar se tornou irrespirável”, como diriam os brilhantes Mão Morta.

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Da mais insignificante Junta de Freguesia, terminando no maior palácio camarário do país, há demasiadas instituições públicas tatuadas com cunhas bafientas, paletes de chico-espertismo e muitos esqueletos escondidos no armário. Quando se olha para a história recente relativa às negociatas que dizem respeito aos bancos - que são salvos em qualquer circunstância, com ou sem razões sólidas; as nocivas parcerias público-privadas; os contratos perversos como o do SIRESP; ou os estranhos acordos que os sucessivos governos fizeram com a EDP (e que em nada beneficiam o “zé contribuinte”), vem ao de cima a génese de que Portugal é uma coutada dividida por dois. Ao adicionarmos os badalados megaprocessos que levam de arrasto políticos, empresários e banqueiros que outrora eram os intocáveis da sociedade, a fotografia sobre quem tem tido as rédeas do destino deste cantinho europeu é imunda e um anátema que está longe de ser apagado.

É extenuante a lista de maus exemplos que envolvem elementos do PS e PSD e até os casos aparentemente menos graves são difíceis de aceitar. Deste modo, é inconcebível que o Ministro Siza Vieira (um reputadíssimo advogado), devido a um caso que o envolve, tenha afirmado que desconhecia a lei da incompatibilidade; a lista de deputados constituídos arguidos, por terem beneficiado com as viagens ao Euro francês, aumentou com a inclusão de três sociais-democratas; para receber uns “valentes trocos”, há parlamentares de diversas “cores” que evidenciam pouca ética moral ao declararem uma morada de residência à Assembleia da República e outra ao Tribunal Constitucional; e, recuperando o mal resolvido Caso Centeno, se o Gabinete do Ministro das Finanças não deu nenhum jeito ao filho do presidente do Benfica, relativamente a uma isenção fiscal, quem dentro do Estado deu o presumível "empurrão” e em troca de quê? Que a resposta não fique para as calendas gregas.

Com tantas Operações em curso, queres ver que (infelizmente) o lema “Contra a Joana Marchar, Marchar” chega depois das férias?

A política à portuguesa assemelha-se à discussão entre os três grandes do futebol português, em debates televisivos. Quando aparecem suspeitas a envolver um dos lados, é trágico e cómico ver a disputa de argumentos, entre comentadores, de que “os meus não são tão maus como os teus” ou “ao menos não fizemos isto e aquilo”. É, de facto, uma fantochada equivalente a uma discussão entre os irmãos Metralha, uma palhaçada que causa uma tristeza (e revolta) a todos os espectadores que têm cérebro suficiente para não se deixarem condicionar a serem uma caixa de ressonância de qualquer uma das partes. Também o trocar de acusações entre os seguidores das instituições em tempos comandadas por Mário Soares e Sá Carneiro, é um fartote. Como arma de arremesso, uns trazem à baila a "Operação Marquês", outros lembram o caos do BPN.

É pena sermos um País pequeno e sem outros dez milhões que pudessem mudar a face de um cinzentismo que paira no arco do poder há uma eternidade - com o CDS no mesmo saco. É pena que as linhas editoriais dos órgãos de comunicação social apostem no mais do mesmo e achem que politiqueiros como Santana (que fez nova birra com os seus) ou Carlos César, tenham algo interessante a revelar - mais valia pôr em confronto Pedro Nuno Santos e Margarida Balseiro Lopes para ver se socialistas e sociais-democratas conseguem libertar o futuro dos vícios e os excessos dos loucos anos 90….

É pena que a qualidade de vida da maior parte da população dependa de ordenados miseráveis e, ao mesmo tempo, muitos serviços e bens essenciais sejam pagos como se fôssemos europeus de primeira, só porque uns quantos manganões levaram o País ao descalabro financeiro. É pena que no dia em que arrebenta o processo “Tutti Frutti”, haja canais que façam o enésimo programa à volta do Sporting (Questão para três queijinhos: Anda a SIC Notícias tão desesperada com as audiências que há uns meses a esta parte tem andado a reboque do que faz a CMTV?)

E sabes mesmo, mesmo, mesmo o que pode meter pena? Que as personagens do “parque jurássico” made in Bloco Central ao regressarem dos banhos deixem para trás, num areal todo pintarola, a decência e a respeitabilidade em servirem como deve ser os portugueses. Se por causa deles - e não pelo presidente Marcelo ou pela vontade da própria em abandonar o posto -, a actual Procuradora-Geral da República, Joana Marques Vidal, for substituída, é porque frases como “À Política o que é da Política e à Justiça o que é da Justiça” são uma lengalenga maliciosa e completamente falsa no dicionário “laranja-rosa”.


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