Sexo

CEO de produtora pornô acredita que fetiches podem unir as pessoas

Falamos com a CEO do Kink.com, Alison Boden, sobre privacidade de dados, atender fetiches e porque as operadoras de cartão de crédito ainda mandam no conteúdo do site.
Foto por Kelsey Lannin.

Depois de duas décadas sob a liderança do fundador Peter Acworth, o site pornô de fetiches Kink.com nomeou Alison Boden como sua nova CEO em maio. Com a mudança, o Kink se junta a um número pequeno mais crescente de operações comandadas por mulheres na indústria de entretenimento adulto. As origens de Boden – que antes liderava a equipe de tecnologia da empresa – são mais importantes para a companhia que seu gênero, diz o diretor pornô Ex Libris. “O Kink sempre foi comandado por diretoras e funcionárias fortes… Não sei se a percepção das pessoas vai mudar tanto porque o Kink tem uma CEO mulher quanto pela empresa agora ter uma CEO focada em tecnologia.”

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E de fato, a ascensão de Boden pontua uma reestruturação de um ano no Kink, durante a qual a empresa cortou filmagens internas e vendeu sua fortaleza do pornô, o Armory, onde mais de 8 mil filmes foram feitos na última década. Boden foi a arquiteta da nova plataforma do site que agora conta com mais de 30 canais, incluindo Butt Machine Boys, Hogtied e um canal de realidade virtual, tudo sob o mesmo teto subversivo. “Se tem alguém que pode reinventar o Kink.com para a nova internet cheia de conteúdo gratuito, é ela”, Acworth disse numa declaração.

Diferente de Acworth, que estrelou nos primeiros filmes Hogtied como o mascarado Peter Rogers, Boden nunca trabalhou na frente das câmeras, preferindo manter sua vida sexual privada. O que não quer dizer que a mulher de 34 anos experiente em BDSM não trouxe suas próprias ferramentas quando se juntou ao Kink em 2010. Aqui, Boden discute como começou na indústria e seus planos para o império de pornô alternativo.

'Sex and Submission' por Ramon Nomar. Na foto: Astrid Star. Foto cortesia do Kink.

VICE: Você teve um negócio de brinquedos eróticos antes, como isso começou?

Alison Boden: Começamos no aniversário de 30 anos do Roe v. Wade – em janeiro de 2003. Cresci em Pittsburgh, Pensilvânia, e não tínhamos uma Good Vibrations ou Babeland. Uma amiga da faculdade e eu sempre falávamos sobre como queríamos que Pittsburgh tivesse uma sex shop mais voltada para mulheres, e quando eu estava para me formar, pensamos “Bom, por que não fazemos nós mesmas?” E mesmo não conseguindo achar um lugar para fazer a loja, organizamos algumas festas em casas.

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O que acontecia nas festas?

Começávamos com uma apresentação sobre saúde sexual feminina. Os eventos eram voltados para qualquer pessoa entre, digamos, uma fã de masturbação experiente até alguém que não sabia onde ficava seu clitóris. As pessoas meio que nos guiavam para onde queriam ir. Aí passávamos por um conjunto de brinquedos e dizíamos “OK, se você gostou disso, esse pode funcionar”, e respondíamos todas as perguntas sobre isso. As pessoas têm naturalmente um monte de dúvidas quando você abre uma caixa de brinquedos eróticos na frente delas.

Como vocês se preparavam para responder todas essas perguntas?

Estudei para ser uma educadora sexual e fiz muito trabalho voluntário com o Planned Parenthood. Era basicamente meu principal interesse… Sei lá por qual razão, sempre fui a garota que, tipo, ia para a biblioteca, achava um lugar tranquilo e lia livros sobre sexo.

Como dizem por aí, se você está recebendo um serviço de graça, o produto é você. Tem alguma vantagem em usar sites por assinatura como o seu porque sua empresa não tem que responder aos anunciantes?

Tenho pensamentos sérios sobre mineração de dados… Como ex-chefe do departamento de tecnologia e uma pessoa politizada, sou muito a favor de liberdade e privacidade – sou membro do EFF [Electronic Frontier Foundation]. Tentamos respeitar a privacidade dos nossos usuários o máximo possível. Mesmo quando você nos paga, não pegamos seu nome e sobrenome ou seu endereço. Há consequências reais neste mundo, infelizmente, se certas pessoas descobrirem que tipo de entretenimento adulto você gosta.

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Verificamos IPs para reduzir fraudes. Se você tem uma conta logada em 30 IPs diferentes, provavelmente tem algo fraudulento acontecendo. Queremos proteger as contas dos nossos membros, mas não, não nos importamos realmente com quem eles são na vida real, e não estamos tentando saber os interesses deles pelo Facebook.

E isso é algo que acontece em outros sites?

Não tenho certeza. Sei com certeza que eles coletam mais dados que nós. Especialmente com as novas regulamentações GDPR, sempre examinamos, tipo, “OK, tem alguma coisa que estamos guardando que não deveríamos?” E cortamos e descartamos dados. Deletamos tudo. Por que colocar a nós mesmos e nossos membros nessa posição? Digamos, se fôssemos o Ashley Madison e fôssemos hackeados. Não nos colocamos numa posição que pode expôr nossos usuários assim.

O que você vê no futuro da produção pornô já que a pirataria de sites como Pornhub e Redtube consomem tanto da base de clientes em potencial?

Pirataria é uma bosta mesmo. Acho que se você me perguntasse dez anos atrás, quando esses sites eram totalmente sem lei e estavam só começando, eu diria que as coisas seriam bem piores. Como indústria, quem conseguiu chegar até aqui encontrou maneiras de trabalhar com eles ou contornar a pirataria.

Quais são algumas dessas maneiras?

Eles têm todo o tráfego. Então quando você anuncia neles ou quando vê algo do seu conteúdo no Pornhub, não é o conteúdo inteiro, mas as pessoas podem ter uma ideia: “Isso é ótimo, quero ver mais”, e onde você consegue conteúdo assim? Clicando no Kink. É assim que você trabalha com eles.

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Acho que uma das razões para o Kink ter durado tanto e continuado forte é porque atendemos nichos. Se você só está fazendo uma cena de anal com uma loira num hotel, você tem muita competição.

Agora que a empresa fez a transição de produção para distribuição e não filma mais seus próprios pornôs, como vocês mantiveram a vibe do Kink?

No Kink, acho que temos a oportunidade de ser o lugar do conteúdo de fetiche e BDSM, independente de ter filmado isso ou não. Podemos destacar novos talentos e pensamos, no futuro, em apoiar as pessoas fazendo o conteúdo, não só as pessoas mostradas nele. Acho que um jeito óbvio seria treinar pessoas em bondage e como fazer isso de maneira segura. É uma habilidade real que você precisa aprender e treinar.

Os diretores que dirigem para nós são nossos fornecedores favoritos. Pensamos assim “Olha, vamos continuar trabalhando com você e te contratando enquanto você estiver produzindo coisas incríveis”. Temos uma equipe de cinco editores trabalhando em tempo integral editando vídeos… e conseguir essas filmagens cruas realmente nos ajuda a controlar nossa qualidade e monitorar o que está acontecendo.

Que tipo de coisas vocês estão procurando?

Não queremos nada que não gostaríamos de ver num set. Ou qualquer coisa tipo o que aconteceu no set com Leigh Raven. Se uma modelo não está sendo tratada direito ou está claramente incomodada, vamos fazer ligações e dizer ao diretor “Olha, isso está errado, não pode acontecer de novo”. E claro, tem sempre as coisas que você procura no pornô. Tipo, você não pode ter nenhum tipo de sangue ou algo assim – se alguém fica com o nariz sangrando, temos que cortar a cena.

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É uma coisa de regulamento ou só seus próprios padrões?

A maior parte da regulamentação de conteúdo não vem do governo, vem das empresas de cartão de crédito. A Visa não processa cartões de créditos se não gosta do conteúdo, o que pode ser superarbitrário às vezes, porque eles não publicam uma lista do que pode ou não acontecer; é muito subjetivo. Eles vão dizer “Ei, não gostamos disso, vocês têm que tirar do ar”. É bem mais comum receber reclamação de uma palavra na descrição do que de uma coisa no vídeo. Reclamações sobre o conteúdo são mais raras. Mas sim, quem é essa pessoa que é… o regulador de pornô?

Fetiches podem entrar em territórios que algumas pessoas consideram problemáticos, como raça e idade. Como vocês equilibram isso com o objetivo de desestigmatizar?

É uma linha tênue. Acho que nossa abordagem é dar um passo para trás e dizer “OK, estamos fazendo isso porque é algo desrespeitoso ou porque atende uma fantasia?” E no geral isso é basicamente pensar a frente do seu tempo. Se alguém quer um fetiche envolvendo raça, por exemplo, ótimo, é a fantasia da pessoa. Vamos fazer acontecer. Um grande amigo meu é negro e a esposa dele é branca. Ele namorou principalmente garotas brancas e, pensando em pornô, ele disse que queria poder se ver na fantasia, então tenho que usar “interracial” como palavra-chave porque esse é o único jeito de achar o conteúdo.

Para algumas pessoas, a sensação de algo ser proibido ou subversivo está no cerne do interesse. Normalizando esses desejos excêntricos, vocês estão matando um condutor para o seu mercado em certo sentido? Tornando isso menos atraente?

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Você está basicamente fazendo todas as perguntas em que tive que pensar nos últimos meses – desestigmatização significa que algo não é mais sexy? O que percebi é que não queremos dizer “X, Y ou Z são sujos ou não são”. Essa é sua decisão. O que queremos dizer é que as pessoas devem ser livres para gostar de qualquer fetiche que quiserem, desde que isso não prejudique outra pessoa, claro. Não devemos punir as pessoas por ter interesses que não são compartilhados por seus vizinhos ou seu chefe. Mas nem sempre é algo que podemos fazer. Tipo, fetiche de fralda – não atendemos isso porque não podemos.

A Visa ligaria para vocês.

Sim. Lembro de ler Dan Savage, ler cartas de caras que tinham fetiche com fraldas e ver quanto as pessoas querem se sentir conectadas e normais vendo seu interesse refletido na sociedade. E dessa maneira, acho que não temos o poder de tornar algo não sexy, acho que temos principalmente o poder de fazer as pessoas se sentirem menos sozinhas.

Matéria originalmente publicada na VICE US.

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