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Há um mar de lixo nas nossas praias

O problema do lixo marinho é de tal forma grave que se prevê que, em 2050, haja mais plástico do que peixe nos oceanos.

Por Maria Anabela Silva
09 Novembro 2018, 11:40am

Lixo recolhido pela Associação Brigada do Mar numa praia portuguesa. Foto cortesia Jornal de Leiria/DR

Este artigo foi originalmente publicado no JORNAL DE LEIRIA e a sua partilha resulta de uma parceria com a VICE Portugal.

Tens por hábito abandonar a beata do cigarro na praia ou atirá-la sarjeta adentro? Deitas a cotonete na sanita depois de utilizada? Usas esfoliante ou pasta dentífrica com microesferas de plástico? Se sim, fica a saber que estás a contribuir para um dos maiores problemas do nosso tempo: o lixo marinho.

Segundo a Agência Europeia do Ambiente, a cada ano que passa, aproximadamente 10 milhões de toneladas de lixo acabam nos mares e oceanos do Planeta, com predomínio para o plástico. Um estudo divulgado em Junho último pela World Wide Fund for Nature (WWF), uma organização ambientalista internacional, revelava que “95 por cento dos resíduos que flutuam no Mediterrâneo são compostos por plásticos”. No caso de Portugal, de acordo com a Agência Lusa, o estudo referia que “os microplásticos predominam nas areias das praias, representando 72 por cento do lixo” encontrado nas nossas zonas balneares.


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O cenário é de tal forma negro que alguns especialistas prevêem que, ao ritmo actual, em 2050 haverá mais plástico do que peixe no mar. Um verdadeiro “Armagedão dos oceanos”, como descreveu Erik Solheim, director executivo do Programa das Nações Unidas para o Ambiente, numa cimeira realizada no ano passado em Nairobi, capital do Quénia.

No seu último relatório sobre o programa de monitorização do lixo marinho em praias, referente a 2017, a Agência Portuguesa do Ambiente(APA) aponta dados que indicam que, já em 2025, “haverá no oceano uma tonelada de plástico para cada três toneladas de peixe” e que na viragem deste século “o peso do plástico ultrapassará o do peixe”.

“As nossas roupas e as microfibras de plástico são, em grande parte, a causa para este cenário. Sem qualquer intervenção, a quantidade de fibras libertadas através dos esgotos para o meio hídrico aumentará significativamente no futuro próximo”, adverte a APA naquele documento, que dá conta dos resultados de 2017 do referido programa de monitorização, que abrange 11 praias portuguesas, entre as quais Osso da Baleia (Pombal), Paredes de Vitória (Alcobaça) e Baleal (Peniche).

Ainda de acordo com o documento, os fragmentos de plástico/poliestireno (usado, por exemplo, para fazer esferovite), as beatas de cigarro, as cápsulas e tampas de plástico, redes de pesca e cordas, sacos de batatas fritas e guloseimas, garrafas de plástico e cotonetes foram os resíduos encontrados em maior quantidade nas praias monitorizadas.

Mais de 500 quilómetros limpos em 10 anos

Segundo o relatório da APA, os resultados obtidos em 2017 “não diferem substancialmente dos apurados em anos anteriores”. E também não são muito diferentes daqueles que a Associação Brigada do Mar tem obtido em 10 anos de acções de limpeza na costa portuguesa. Criada em 2009, a organização já recolheu mais de 450 toneladas de lixo e limpou, com a ajuda de cerca de seis mil voluntários, aproximadamente 500 quilómetros lineares de costa.

O próximo alvo da Brigada do Mar será o troço entre as praias de Vieira de Leiria e Pedrógão, com uma acção de limpeza a realizar nos próximos dias 17 e 18 (encontras toda a informação aqui). Já em Outubro último a Associação levou a cabo uma iniciativa semelhante na zona entre São Pedro de Moel e Pedrógão, que permitiu a recolha de cerca de três toneladas de lixo marinho, composto sobretudo por plástico.

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Voluntários da Brigada do Mar em acção. Foto cortesia Jornal de Leiria/DR

“É urgente uma revolução com o lixo”, defende Simão Accioioli, voluntário e um dos fundadores da Brigada do Mar, que defende que “o Mundo tem de acabar com o conceito de lixo”, passando para um paradigma em que “tudo tem valor e serve de moeda”. O ambientalista vê, por isso, com bons olhos a aplicação de tara às embalagens de bebidas descartáveis. A medida está a ser estudada pelo Governo português, que a quer pôr em vigor já a partir de 2022, quando terminam as actuais licenças das entidades gestoras destes resíduos, permitindo ao consumidor que devolva a embalagem receber aquilo que pagou por ela, como forma de aumentar o volume de resíduos reciclados.

No final de Outubro foi também aprovada em Conselho de Ministros uma resolução que proíbe na Administração Pública o uso de copos para café, para água ou outras bebidas, pratos, taças, talheres e palhinhas de plástico de utilização única ou descartável. Esta decisão vem em linha com a proposta aprovada a 24 do mesmo mês pelo Parlamento Europeus, que prevê a proibição da venda de produtos de plástico de utilização única na União Europeia a partir de 2021. Já em 2015, os sacos de plástico passaram a ser pagos em Portugal.


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Estas são, no entender da bióloga Paula Sobral, que preside à Associação Portuguesa do Lixo Marinho (APLM), medidas bem-vindas, mas que “pecam por tardias”. “O uso de plástico descartável não é sustentável. É preciso apostar mais na investigação de materiais de substituição para reduzir e eliminar esse tipo de materiais”, defende a especialista, que aponta o “fim dos descartáveis” com uma das medidas de fundo para encarar de frente o problema do lixo marinho. “Não precisamos disso. Não vivemos tanto tempo sem palhinhas? E porquê usar cotonetes de plástico? Já há soluções em papel”, exemplifica a bióloga, frisando que o destino final de muitos desses resíduos acaba por ser o fundo dos oceanos.

Para Paula Sobral, a questão do lixo marinho é, acima de tudo, “um problema comportamental” e, em certos casos, até “uma espécie de licença social” para algum tipo de lixo que é abandonado e que se transforma em detritos marinhos, com consequências “incalculáveis”, quer para os ecossistemas e biodiversidade, quer para a actividade económica, havendo também já investigação que admite a existência de riscos para a saúde humana resultantes da ingestão de peixes e de bivalves com contaminação associada ao plástico.

Mais de 700 espécies com plástico no aparelho digestivo

Quando se olha para os impactos do lixo marinho, o primeiro que salta à vista é o visual, mas, mesmo em praias aparentemente limpas, é possível encontrar detritos com frequência, “como pequenos fragmentos que resultam da degradação lenta do plástico”, frisa a bióloga Paula Sobral. A presidente da APLM sublinha também os “prejuízos económicos” deste tipo de poluição em actividades como o turismo, a pesca ou o transporte marítimo, provocados, por exemplo, pelos estragos nas embarcações gerados pelo lixo e pelos custos associados à limpeza das praias.

Há, depois, os danos ao nível da ecologia e da vida marinha, com um grande número de espécies a serem afectadas pelo lixo que anda no mar, quer através do aprisionamento em redes abandonadas “deliberadamente” ou perdidas “acidentalmente” - a chamada 'pesca fantasma' – quer através da ingestão acidental de detritos. “Temos mais de 700 espécies nas quais foi detectado plástico no seu tubo digestivo”, realça Paula Sobral, explicando que essa ingestão de lixo pode ocorrer acidentalmente ou por ser parecido com as presas.

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Nas praias portuguesas encontra-se todo o tipo de lixo. Foto cortesia Jornal de Leiria/DR

É, por exemplo, o caso das tartarugas que comem sacos de plástico porque os confundem com alforrecas, ou de aves que ingerem ou alimentam as suas crias com pellets (pequenos discos com aproximadamente cinco milímetros de diâmetro, que são matéria-prima usada para produzir os plásticos que conhecemos e usamos diariamente.

Para os humanos, que estão no topo da cadeia alimentar, as consequências são ainda desconhecidas. “Haverá algum impacto na saúde humana. O plástico está em todo o lado, através de pequenas partículas. Está nos oceanos e no ar que respiramos. Comemos alimentos com microplásticos, partículas microscópicas, que não se vêem”, alega a bióloga.

Plástico do mar usado como matéria-prima

As sucessivas campanhas de recolha de lixo marinho realizadas nas praias portuguesas têm contribuído para a retirar da costa largas centenas de plástico, um dos grandes vilões quando se fala deste problema ambiental. Esses resíduos são depois depositados em ecopontos e encaminhados para a reciclagem, acabando, contudo, por “perder algum valor”.

Ora, para aproveitar “ao máximo” a potencialidade do plástico do mar, a Sirplaste, empresa de reciclagem deste tipo de material, sediada em Porto de Mós, e a Revalor – Recuperação e Valorização de Resíduos, de Alcobaça, juntaram-se ao CEIIA - Centro de Engenharia e Desenvolvimento de Produto, de Matosinhos. O objectivo desta parceria é “desenvolver tecnologia que permita utilizar o plástico de mar como matéria-prima”, explica João Vasconcelos, ex-secretário de Estado da Indústria e um dos mentores deste projecto, que incorpora os princípios da economia circular.

A parceria começou a dar frutos há cerca de oito meses, com o desenvolvimento do projecto, que está já na fase de teste e de certificação. Para já, não é revelado o tipo de produtos que virá a ser produzido por aquelas empresas utilizando “exclusivamente” plástico de mar recolhido nas praias portuguesas. João Vasconcelos adianta apenas que o projecto envolverá também “várias marcas internacionais”, sem, contudo especificar quais.

“É um dos melhores projectos relacionados com a economia circular que está a ser desenvolvido no País”, assegura o empreendedor, natural de Leiria, que não esconde o orgulho por ver a sua região já envolvida na “segunda geração de plástico”, agora assente em princípios de sustentabilidade. “Leiria, cidade do plástico, afirmou-se como um grande pólo desta indústria. Agora, vai estar também à frente nesta nova geração de plástico”, afirma João Vasconcelos.


Maria Anabela Silva é jornalista do JORNAL DE LEIRIA.

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