Feminisme

Actores e actrizes contam o que pensam sobre trabalhar com Woody Allen

Algumas estrelas de filmes do icónico cineasta norte-americano expressam o seu sincero arrependimento, depois das denúncias de Dylan Farrow, filha adoptiva de Allen, que afirma ter sido abusada por ele. Outras nem por isso.
17 January 2018, 1:49pm
Colagem por Callie Beusman.

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Broadly.

Em Dezembro de 2017, Dylan Farrow fez uma pergunta simples a Hollywood: “Porque é que a revolução #MeToo poupou Woody Allen?”. Num artigo de opinião no Los Angeles Times, Dylan reiterou as acusações de que o seu pai adoptivo teria abusado sexualmente dela quando era criança - e realçou que actrizes como Kate Winslet, Blake Lively e Greta Gerwing tinham trabalhado com Allen e manifestado publicamente o seu apoio ao realizador.

As alegações contra Allen emergiram em 1992, mas Farrow só falou publicamente sobre o assunto em 2014, depois de Allen aceitar o Prémio Cecil B. DeMille nos Golden Globes. “Quando eu tinha sete anos, Woody Allen levou-me pela mão para um sótão escuro no segundo andar da nossa casa”, escreveu numa carta aberta publicada pelo New York Times. E continuou: “Disse-me para eu me deitar de barriga para baixo e brincar com o comboio do meu irmão. Depois, atacou-me sexualmente”.

No artigo mais recente para o LA Times, Farrow questionou porque é que Allen continua a trabalhar, enquanto Harvey Weinstein e outras celebridades acusadas foram “banidas por Hollywood”. “Não é só o poder que permite que homens acusados de abuso sexual mantenham as suas carreiras e segredos”, escreveu Farrow. E justificou: “São também as nossas escolhas colectivas para ver situações simples como complicadas e conclusões óbvias como uma questão de 'quem é que vai saber?'. O sistema funcionou para Harvey Weinstein durante décadas. E ainda funciona para Woody Allen”.

Allen sempre negou veementemente as acusações de Farrow e recusou-se a comentar o caso ao LA Times quando confrontado com o artigo da sua filha adoptiva. Frank S. Maco, o promotor estadual norte-americano que investigou as alegações criminais na época, recusou-se a levar o caso adiante, porque Dylan parecia demasiado “frágil” para testemunhar em tribunal.

Mas, as alegações contra Allen tornaram-se tão presentes e difundidas que, agora, actores e actrizes sentem a necessidade de justificar porque é que continuam a envolver-se em projectos com o cineasta - especialmente depois dos movimentos #MeToo e #TimesUp. Reunimos abaixo o que 15 estrelas de Hollywood disseram sobre trabalhar com Allen.

Mira Sorvino (Mighty Aphrodite, 1995)

A actriz de Romy e Michele, Mira Sorvino, ganhou um Oscar pelo seu papel na comédia de Woody Allen Poderosa Afrodite. Quando pressionada pelo Guardian, em 2014, a falar sobre o que achava das acusações de abuso sexual, disse: “Não posso comentar sobre esse assunto. Tudo o que posso dizer é que, a nível de trabalho, ele é um homem maravilhoso”. Sorvino disse ainda que se tornou uma “acólita instantânea” de Allen, depois de ler o seu livro Without Feathers, quando tinha 12 anos.

Ainda assim, numa carta aberta a Dylan Farrow, publicada pelo Huffington Post a 10 de Janeiro último, Sorvino admitiu que estava errada. “Confesso que, na época em que trabalhei com Woody Allen, eu era uma jovem actriz ingénua”, escreve. E acrescenta: “Engoli o retrato da comunicação social da tua acusação de abuso contra o teu pai, como um problema de uma batalha complicada de custódia entre Mia Farrow e ele e não voltei a pensar na situação. Por isso peço desculpas. Por isso devo também desculpas a Mia”.

Em Dezembro, Sorvino partilhou com Ronan Farrow [filho de Mia e Allen e jornalista do NYT que despoletou o caso de Harvey Weinstein] a sua experiência enquanto vítima de assédio sexual por parte de Weinstein e disse que isso a levou a perguntar-lhe sobre as acusações contra Allen. “Ele contou-me detalhes públicos sobre o caso, que eu, infelizmente, nunca tinha ouvido, o que me fez sentir que as provas apoiam a sua história”, diz ainda, na carta aberta dirigida a Dylan. E acrescenta: “Que sempre estiveste a dizer a verdade. Este tipo de abuso não pode ter permissão para continuar. Se isso significa derrubar todos os velhos deuses, que seja”.


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Greta Gerwig (To Rome With Love, 2012)

Greta Gerwing interpretava uma estudante norte-americana num intercâmbio e envolvida num triângulo amoroso, no filme de 2012 de Allen, Para Roma, Com Amor. Nos Globos de Ouro deste ano, a realizadora de Lady Bird esquivou-se à pergunta de um jornalista sobre as acusações. “É algo em que penso muito e com que me importo muito”, disse Gerwing. E acrescentou: “Ainda não tive, no entanto, oportunidade de ter uma discussão profunda, que me posicione de um lado ou do outro".

Gerwing tinha já contornado uma pergunta semelhante de Terry Gross durante uma entrevista à NPR, ao dizer: “Sabes, é muito difícil falar sobre isso... Acho que estou a viver num espaço de medo, de me preocupar sobre como falar sobre isso e o que dizer”.

Soon-Yi Previn e Woody Allen, no Festival de Cinema de Tribeca em 2009, na estreia de "Tudo Pode Dar Certo". Foto por David Shankbone, via Wikimedia Commons

Ainda assim, no dia 9 de Janeiro, Gerwing disse numa mesa redonda de cinema organizada pelo New York Times, que não voltaria a trabalhar com Allen. “Só posso falar por mim própria e cheguei a essa conclusão: se soubesse na época o que sei agora, não teria entrado no filme. Não trabalhei com ele desde então e não vou voltar a trabalhar”.

A actriz e realizadora referiu os dois artigos que Dylan escreveu sobre as alegações - incluindo aquele em que ela mencionou Gerwing por apoiar Allen - e disse que foram eles que a fizeram mudar de ideias. “Os dois textos de Dylan Farrow fizeram-me perceber que eu tinha aumentado a dor de outra mulher e fiquei de coração partido com isso”, afirma Gerwing. E realça: “Cresci com os filmes dele e foram eles que me formaram como artista; não posso mudar esse facto agora, mas posso tomar decisões diferentes daqui para a frente”.

Blake Lively (Cafe Society, 2016)

Enquanto promovia o filme de Allen, Café Society, em 2016, Blake Lively disse que não prestava atenção à cobertura da imprensa sobre as alegações contra o cineasta. “É muito perigoso fazer julgamentos sem se saber nada sobre o caso”, referiu ao LA Times. E acrescentou: “Só posso falar da minha experiência. E a minha experiência com Woody é a de que ele empodera as mulheres”.

No Festival de Cannes daquele ano, Lively também falou sobre a suposta piada que o comediante francês Laurent Lafitte fez sobre as alegações de abuso sexual contra Allen. “Acho que qualquer piada sobre violação, homofobia ou Hitler não tem piada”, afirmou à Variety. Mais tarde, Lafitte esclareceu que a piada se referia a Roman Polanski.

Alec Baldwin (To Rome With Love, 2012; Blue Jasmine, 2013)

Alec Baldwin apareceu em dois filmes de Allen, incluindo o vencedor do Oscar, Blue Jasmine. Quando um utilizador do Twitter lhe perguntou se ele devia desculpas a Dylan Farrow, depois de o New York Times publicar a sua carta em que detalha o suposto abuso de Allen, ele respondeu: “O que é que há de errado contigo para achares que toda a gente tem de comentar a luta pessoal dessa família?”.

A outro utilizador disse: “Sabes quem é culpado? Quem está a mentir? Tu, pessoalmente, sabes isso?”. E acrescentou: “Estás enganado se achas que há lugar para mim, ou qualquer um de fora, nesse problema de família” (Baldwin parece ter entretanto apagado estas publicações, mas, na altura, foram amplamente divulgados pelos media).

Ellen Page (Para Roma, Com Amor, 2012)

Ellen Page protagonizou Para Roma, Com Amor ao lado de Baldwin e Gerwing e, desde então, já afirmou que se arrepende de ter aceite o papel. “Fiz um filme de Woody Allen e esse é o grande arrependimento que tenho na minha carreira”, sublinha Page num longo post no Facebook, que também discutia as alegações contra Roman Polanski, Bill Cosby e Harvey Weinstein. “Tenho vergonha de o ter feito. Ainda estava a tentar encontrar a minha voz, não era quem sou hoje e senti-me pressionada, porque, 'claro, tens que dizer sim a um filme de Woody Allen'. Mas, no fim de contas, é a minha escolha decidir que filmes faço e fiz a escolha errada. Cometi um erro terrível”.

“Quero ver esses homens enfrentarem o que fizeram”, acrescenta Page. E justifica: “Quero que eles deixem de ter poder. Quero que eles se sentem e pensem em quem são, sem advogados, sem os seus milhões, os seus carros de luxo, as suas muitas casas, os seus estatutos de 'playboy' e swag. Mas, o que mais quero é que isso resulte numa cura para as vítimas. Que Hollywood acorde e comece a responsabilizar-se por como todos tivemos um papel nisto”.

Cate Blanchett na Comic Con de San Diego, em 2017. Foto por Skidmore via Wikimedia Commons

Cate Blanchett (Blue Jasmine, 2013)

Cate Blanchet ganhou o Oscar de Melhor Actriz pelo seu papel de socialite neurótica em Blue Jasmine. Quando um jornalista lhe pediu um comentário sobre a carta de Farrow, respondeu: “Obviamente é uma situação longa e dolorosa para a família e espero que eles encontrem conclusão e paz”.

Kristen Stewart (Cafe Society, 2016)

A actriz de Twilight, Kristen Stewart, foi protagonista ao lado de Jesse Eisenberg em Café Society, o filme de 2016 de Allen. À Variety afirmou que tinha consciência das alegações contra o realizador e discutiu-as com Eisenberg antes da rodagem, mas os dois escolheram seguir em frente e trabalhar com Allen.

“Eu disse 'O que achas? Não conhecemos as pessoas envolvidas. Posso personalizar situações, o que seria muito errado'”, revela Stewart sobre a conversa com o colega. “Jesse e eu falámos sobre o assunto. Se ligássemos à quantidade de merda que é dita sobre nós e que não é verdade, a nossa vida acabaria. A minha experiência a fazer o filme foi muito fora disso, foi produtivo para ambos continuarmos”.

Jesse Eisenberg (Café Society, 2016)

O actor de Café Society disse ao Huffington Post em 2016 que era tão “obcecado” com Allen que escreveu um roteiro sobre a vida do diretor quando tinha 17 anos. Ele disse que as alegações contra seu ídolo de infância “não influenciaram minha opinião”.

Ele acrescentou: “Não acho que é apropriado julgar pessoas na imprensa. Já fui julgado pela imprensa por coisas pequenas que disse ou porque fui sarcástico ou algo assim, então entendo como é porque estou na mira do público, e é muito doloroso”.

Kate Winslet (Wonder Wheel, 2017)

A actriz de Titanic, Kate Winslet, protagoniza Roda Gigante, a par de Justin Timberlake. “Acho que, a um certo nível Woody é uma mulher”, brincou Winslet em Novembro de 2017 em declarações ao Sydney Morning Herald, quando questionada sobre as mulheres nos seus filmes. E acrescentou: “Acho que está em contacto muito próximo com esse seu lado. Entende excepcionalmente bem as personagens que cria”.

Em Setembro, o New York Times confrontou Winslet com as alegações contra Allen. “Claro que uma pessoa pensa sobre isso”, respondeu. E salientou: “Mas, ao mesmo tempo, não conhecia Woody Allen e não sei nada sobre a sua família. E, enquanto actriz num filme dele, tens que te se afastar e dizer 'não sei nada', não sei se é verdade ou mentira. Quando pensas sobre tudo isto, colocas a questão de lado e trabalhas com a pessoa. Woody Allen é um realizador incrível. Como Roman Polanski. Tive experiências extraordinárias a trabalhar com os dois e essa é a verdade”.

Em Dezembro, continuou a elogiar Allen numa mesa redonda em que se sentou com as actrizes Margot Robbie, Saoirse Ronan e Jessica Chastain, que mantiveram os seus rostos fechados (Em Outubro, Chastain tuitou que nunca trabalhou com Allen e, em Janeiro, partilhou um artigo do Washington Post intitulado “Li décadas das anotações privadas de Woody Allen. Ele é obcecado por raparigas adolescentes”: “Ugh. Crime disfarçado de arte”).

“Woody Allen é um guionista extraordinário”, disse Winslet na mesa redonda. E sublinhou: “Ele é obviamente conhecido por criar papéis extraordinários, muito, muito poderosos e complicados para mulheres ao longo de muitos, muitos anos”.

David Krumholtz (Wonder Wheel, 2017)

O actor de The Deuce e The Good Wife diz que “se arrepende profundamente” de ter trabalhado com Woody Allen em Roda Gigante. “É um dos meus erros mais sentidos”, escreveu no Twitter. E acrescentou: “Não podemos continuar a deixar que estes homens nos representem na política do entretenimento, ou em qualquer outra coisa. Eles estão abaixo de homens de verdade”.

Quando o executivo de Curb Your Enthusiasm, Bob Weid, lhe respondeu e lhe disse para “relaxar”, Krumholtz não recuou (Weide produziu e realizou o especial da PBS Woody Allen: A Documentary e escreveu em defesa de Allen para o Daily Beast).

Na resposta a Weide, Krumholtz disse sobre Allen: “Ele era um herói. Portanto, eu estava fascinado e não acreditava. Desculpa, Bob. Mas, escolhi dar prioridade à versão de Dylan. Juntamente com o artigo do @washingtonpost e da tua ânsia em produzir outro filme insensível”.

Scarlett Johansson, numa conferência de imprensa. Foto via utilizadordo Flickr Gage Skidmore

Scarlett Johansson (Match Point, 2005; Scoop, 2006 e Vicky Cristina Barcelona, 2008)

Scarlett Johansson protagonizou três filmes de Woody Allen e foi mencionada por Dylan Farrow na sua carta aberta de 2014 por trabalhar com o cineasta. Quando pressionada sobre a questão pelo Guardian, nesse mesmo ano a actriz respondeu: “Acho irresponsável ter um monte de actores que estão nos alertas permanentes do Google e, de repente, atirar-se os seus nomes para uma situação que nenhum de nós poderia comentar. Parece-me irresponsável”.

E acrescentou: “Não é como se alguém tivesse sido julgado e condenado por alguma coisa e dizeres 'Não apoio o seu estilo de vida' ou algo do género. Quer dizer, isto é tudo adivinhação”. Quando lhe perguntaram se o assunto a tinha afectado em relação ao que achava sobre o cineasta, disse: “Não sei nada sobre isso. Seria ridículo para mim fazer qualquer suposição de uma forma ou de outra”.

Griffin Newman (A Rainy Day in New York, 2018)

O actor de The Tick, Griffin Newman entra no filme de Allen que estreia em breve, A Rainy Day in New York, com Selena Gomez e a estrela de Call Me By Your Name, Timothée Chalamet. Em Outubro de 2017, numa série de publicações no Twitter, Newman expressou o seu arrependimento por ter trabalhado com o realizador. “Preciso de tirar este peso do do meu peito”, escreveu. E acrescentou: “Trabalhei no próximo filme de Woody Allen. Acredito que ele é culpado. Doei o meu salário ao RAINN na totalidade”.

Disse ainda que sua participação é apenas de uma cena e que passou um mês a debater se deveria sair do projecto. “Arrependo-me profundamente da minha decisão final”, afirma no Twitter. E salienta: “Foi uma experiência educativa por todas as razões erradas. Aprendi de maneira conclusiva que nunca mais posso colocar a minha carreira à frente da minha moral".

“Passei a última década a lutar para continuar a trabalhar e aprendi a colocar as minhas visões de lado, porque pensava que fechar qualquer porta era aterrorizador”, diz ainda. E conclui: “Não posso continuar a operar profissionalmente a partir de um lugar de medo. É hora de mostrar coragem nas minhas acções, espelhando isso nas minhas palavras sem concessões”. Newman também postou um link da doação ao RAINN.

Timothée Chalamet (A Rainy Day in New York, 2018)

Em Novembro de 2017, o LA Times perguntou a Timothée Chalamet como se sentia a trabalhar com Allen, perante das alegações de assédio e abuso em Hollywood. “Entendo a pergunta, claramente; não vai ser apenas importante, como imperativo falar sobre isso”, respondeu. E acrescentou: “Estou hesitante em falar sobre isso agora, porque estou aqui por Call Me by Your Name”. Ainda não voltou a comentar sobre o assunto.

Selena Gomez (A Rainy Day in New York, 2018)

Gomez, que protagoniza A Rainy Day in New York ao lado de Chalamet e Newman, disse à Billboard que não sabe como responder às críticas que lhe são dirigidas por entrar num filme de Allen. “Para vos ser honesta, não sei como responder — não porque esteja a tentar afastar-me disso. [As alegações contra Harvey Weinstein] surgiram logo depois de começarmos a filmar. Apareceram no meio de tudo isto”, referiu Selena. E acrescentou: “MAs sim, isto é algo que tenho que encarar e discutir. Dei um passo atrás e pensei 'Uau, o universo trabalha de formas interessantes'”.


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