Drogas

Só quando parei de beber é que percebi que o álcool estava a dar cabo de mim

Talvez precisemos mesmo de fotos de fígados com cirrose nas garrafas de gin.

Por James Wilt
29 Janeiro 2018, 7:30am

Foto via Wikipedia Commons | design gráfico por Noel Ransome.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Canadá.

Há duas semanas, muito apropriadamente às 4h20, acabei a minha última garrafa de gin. Espero que para sempre. O consumo exagerado de álcool é, no meu caso, um problema antigo. No ano passado, andava a gastar uma quantia obscena de dinheiro em copos – algo entre sete e 15 dólares por dia [entre cerca de seis e 12 euros], dependendo de onde e do quê estava a beber – e os meus semi-esforços para perder peso estavam a ser seriamente minados pelo número de calorias que ingeria com a bebida. Além disso, acordar com ressaca mais dias do que sem ressaca não era exactamente uma boa sensação.

Uma aplicação no telemóvel diz-me que, neste curto período desde que parei de beber diariamente, já poupei quase 100 dólares [cerca de 80 euros]. Mas, uma série de sintomas de síndrome de abstinência – incluindo pesadelos vívidos, fadiga extrema e oscilação de humor – levaram-me a olhar mais aprofundadamente para os impactos do consumo regular de álcool na saúde de uma pessoa.

Sim, há por aí muitos estudos sobre o assunto: só que nunca dediquei tempo a lê-los. Talvez tivesse medo do que poderia encontrar. E a verdade é que devia mesmo ter.

Poderias pensar que os governos - que regulam e taxam pesadamente a indústria do álcool - informam suficientemente o público sobre os riscos da bebida para saúde. Acontece que, em grande parte, abdicam desse papel, deixando os fabricantes de álcool estabelecerem os seus próprios termos.

“O governo tem mais responsabilidade que a indústria de bebidas em não informar os consumidores”, diz em entrevista à VICE, Timothy Stockwell, director do Instituto de Investigação de Uso de Substâncias do Canadá e professor de psicologia da Universidade de Victoria. E acrescenta: “Um dia vai acontecer o que aconteceu com o tabaco e os cidadãos irão processar o governo canadiano, por este não exigir que sejam informados sobre os riscos provados para a sua saúde e bem-estar”.

Em 2017, os canadianos 22,1 mil milhões de dólares em álcool. A bebida matou 5.082 canadianos em 2015. No total, cerca de 77 mil pessoas foram hospitalizadas por complicações relacionadas com bebidas alcoólicas em 2016 – por cirrose, síndrome de abstinência, transtornos e muitos outros –, mais do que por ataque cardíaco. Há mais de 200 doenças e condições de saúde ligadas à ingestão de bebida, incluindo depressão, derrames cerebrais e doenças cardíacas. Quando se trata de prevenção de cancro, não há um “limite seguro” para o consumo de álcool.

Segundo um estudo de 2010, conduzido pelo lendário neuropsicofarmacologista David Nutt, o abuso de álcool é mais prejudicial para o consumidor e para a sociedade que qualquer outra droga, incluindo a heroína, ou o crack. Esses impactos manifestam-se mais lentamente que com outras substâncias, mas, ainda assim, são resultado directo do abuso crónico de uma droga.

A minha ignorância sobre os danos provocados pela bebida à minha saúde não é particularmente anómala. Stockwell salienta que apenas 25 por cento dos canadianos que bebem estão conscientes da relação do álcool com cancro, por exemplo, ou com directrizes de segurança relacionadas com o consumo (10 doses por semana para mulheres, com menos de três doses por sessão, 15 doses por semana para os homens, com apenas quatro doses por cada vez – e dois dias por semana “de descanso”).

“Muitas vezes, as pessoas não sabem os verdadeiros danos causados pelo álcool. Ouvem uma coisa aqui ou ali, mas não sabem quão concretas sãos as evidências científicas sobre o álcool”, acrescenta em declarações à VICE, Jenna Valleriani, consultora estratégica do Canadian Students For Sensible Drug Policy e especialista em políticas de canábis.

Segundo especialistas, isto deve-se quase inteiramente à falta de decisão política do governo canadiano – incluindo a não exigência de avisos como os dos cigarros em garrafas e latas, ou de não embarcar numa campanha de marketing negativo a nível nacional, ou restringir a forma como a indústria do álcool pode fazer publicidade. Quando se lucra 6,1 mil milhões de dólares por ano com o produto, talvez se esteja menos inclinado a criticá-lo.

Ann Dowsett Johnston, jornalista e autora de Drink: The Intimate Relationship Between Women and Alcohol, diz numa entrevista à VICE, que há três factores principais a influenciarem a maneira como as pessoas bebem: marketing, preço e acessibilidade. Cada política varia muito entre as províncias canadianas. Mas Stockwell explica que, além de implementar algo como um preço mínimo ligado à força do álcool – que mostrou que um aumento de preço de 10 por cento resultaria numa queda de 22 por cento nas vendas de cervejas com alto teor alcoólico, durante um estudo de 2012 – o público tem de ser mais consciencializado sobre os riscos para a sua saúde.

Rótulos com alertas em garrafas e latas, como aqueles que vemos nos maços de tabaco, são um bom começo do ponto de vista da redução de danos; mesmo que não haja uma ligação estabelecida entre aumento de consciencialização e o largar o vício, pode dar início a uma taxa mais alta de “intenção de largar” – um primeiro passo importante do processo.

Esta "solução" é baseada numa investigação sobre o sistema de rótulos de alerta dos EUA, que Stockwell, no entanto, garante ser “bastante discutível, porque os rótulos são muito maus”. Introduzido em 1988, o Decreto de Rotulação de Bebidas Alcoólicas exige que um pequeno rótulo preto e branco informe os consumidores dos riscos que correm ao beber e sobre os transtornos fetais do espectro do álcool; factos que a maioria das pessoas já conhece.

Portanto, pela primeira vez no Mundo, em Novembro de 2017, o Instituto de Stockwell e a Saúde Pública de Ontário colaboraram numa iniciativa para colocar autocolantes informativos coloridos e bem posicionados em todas as garrafas e latas, numa loja de bebidas em Whitehorse, Yukon. Os autocolantes incluíam gráficos que informavam os consumidores da relação provada entre álcool e cancro, além das directrizes de uso seguro mencionadas acima.

Mas, apenas um mês depois, o governo de Yukon suspendeu o estudo por pressão da indústria do álcool, que incluía alegações de difamação.

“Fomos criticados por não consultarmos a indústria”, explica Stockwell. E adianta: “Bem, sabemos que é assim que eles se comportam. O nosso estudo nem teria saído do papel se os tivéssemos consultado. Teriam ido imediatamente aos ministros mais relevantes e receberíamos ameaças imediatas. Nem sequer teriam considerado o projecto”.

Essas mesmas forças ajudam a manter o que os críticos descrevem como regulamentações voluntárias incrivelmente fracas para as campanhas publicitárias de álcool – uma situação muito bem parodiada por um episódio de 2014 de South Park. E Valleriani diz que o marketing e licenciamento de álcool estão cada vez mais relaxados, enquanto o Canadá se prepara para a legalização da canábis, apontando como exemplos os outdoors gigantes nas principais avenidas de Toronto, novas “lojas pop-up” da LCBO e o recente “A Very Mommy Wine Festival”, em Toronto.

“Se alguém tentasse fazer um festival chamado 'Cannabis Mom', haveria um protesto enorme”, especula Valleriani. E realça: “Toda a gente gosta de uma cerveja, ou de um copo de vinho aqui e ali. Por causa disso, não vemos o álcool pelo que ele realmente é. Com a canábis legalizada, podíamos ter uma oportunidade para nos afastarmos um pouco e percebermos como pensamos sobre o álcool. E talvez seja altura de sermos mais severos com o álcool por causa de seus conhecidos danos para a saúde”.

No fim de contas, isso pode exigir o fim do que Johnston chama de cultura “alcoolcêntrica”, em que muita gente não consegue imaginar relaxar, comemorar ou divertir-se sem o “lubrificante social” do álcool. Johnston diz que navegar pela vida social sem álcool é, de facto, uma habilidade que tem de ser aprendida. Mas, tendo em conta a natureza lenta e progressiva do abuso de álcool, ela acha que vale a pena o esforço e que isso pode abrir-nos para um novo mundo de auto-conhecimento e respeito.

“Não acredito em alarmismo e não quero ser vista como proibicionista”, salienta. E conclui: “Mas, acredito que, se nos tornarmos mais abertos ao diálogo sobre o álcool e o papel que ele tem nas nossas vidas, poderíamos beneficiar enquanto sociedade”.

Lembras-te daquele estudo de 2010 que concluiu que o álcool é a droga mais perigosa, quando os danos para o consumidor e para a sociedade são combinados? Bem, acontece que as três drogas menos prejudiciais são cogumelos, LSD e MDMA.

Não somos qualificados para dar conselhos médicos aqui, claro, mas fica só a saber que há por aí drogas comprovadamente muito mais seguras para te ajudar a lidar com as realidades sombrias do aquecimento global, dívidas estudantis e a guerra nuclear que parece que nos espera a qualquer momento.


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