Quem curte filmes de terror está lidando melhor com a pandemia, diz estudo

Pesquisadores estão examinando se “sentimentos extremos” desencadeados por filmes de terror podem beneficiar nossa saúde mental, agora que todo dia é assustador.
22.9.20
28 days later woman screaming
Screenshot via YouTube

Em seu livro Dreadful Pleasures, o autor de cultura pop que ocasionalmente comete plágio James B. Twitchell observou as origens do gênero de terror e o apelo contínuo de ficar assustado pacas. “Trabalhos modernos de terror artificial originados no final do século 18 descobriram que induzindo sentimentos extremos de prazeres horríveis, tanto prosa como ilustração poderiam gerar e explorar sentimentos poderosos dentro do espírito humano”, ele escreveu.

Séculos depois, um grupo de pesquisadores dos EUA e Dinamarca estão questionando se “sentimentos extremos” desencadeados por filmes de terror podem ser benéficos para nossa saúde mental, agora que todo dia é literalmente assustador. Para o estudo — que foi publicado recentemente no jornal Personality and Individual Differences e financiado pelo Programa de Pesquisa para a Mídia, Comunicação e Sociedade da Escola de Comunicação e Cultura da Universidade Aarhus — eles recrutaram 310 participantes que responderam uma série de perguntas sobre os tipos de filmes e programas de TV que gostavam, se eles assistiam filmes relacionados com a pandemia; e quanto eles concordavam ou discordavam com 13 questões sobre seu estado emocional (“Estou mais deprimido que o normal”) e mentalidade (“Tenho sentimentos positivos sobre o futuro”) durante os primeiros dias desta crise.

“Embora a maioria das pessoas procure filmes de terror com a intenção de ter entretenimento em vez de aprender alguma coisa, histórias assustadoras apresentam amplas oportunidades de aprendizado”, eles escreveram. “Ficção permite ao público explorar uma versão imaginária do mundo sem grandes custos. Através da ficção, as pessoas podem aprender como escapar de predadores perigosos, navegar novas situações sociais, e praticar suas habilidades de ler pensamentos e regular emoções.”

O que eles descobriram foi que pessoas que indicaram que gostam de filmes de terror e que “se engajam com mais frequência com fenômenos fictícios assustadores”, estavam experimentando níveis mais baixos de angústia psicológica durante a pandemia do que aquelas que preferiam outros gêneros.

“Uma razão para o terror poder estar relacionado com menos angústia psicológica é que ficção de terror permite que seu público pratique lidar com emoções negativas em um cenário seguro”, eles concluíram. “Experimentar emoções negativas num cenário seguro, como durante um filme de terror, pode ajudar os indivíduos a criar estratégias para lidar com o medo e lidar de maneira mais calma com situações que induzem medo na vida real.”

Além do foco nos filmes de terror, os pesquisadores combinaram quatro tipos de filmes (invasão alienígena, apocalipse, pós-apocalipse e zumbis) numa categoria que eles chamaram de gênero “de preparação”. Os participantes que indicaram que gostavam desses filmes estavam — surpresa! —  melhor preparados mentalmente para a pandemia e experimentavam “menos interrupções negativas” em suas vidas.

Finalmente, os participantes também deviam se posicionar na Escala de Curiosidade Mórbida, uma escala de 24 itens que determina o interesse das pessoas em “coisas desagradáveis”, incluindo morte. (Algumas das declarações da escala incluem “Se eu vivesse na Europa Medieval, eu estaria interessado em assistir uma execução pública” e “Eu estaria interessado em participar ou assistir um vídeo de um exorcismo”). Aqueles com mais curiosidade mórbida relataram ter experiências mais positivas, e também tinham mais chances de assistir Contágio ou outros filmes relacionados com pandemia enquanto vivem uma pandemia de verdade.

O autor líder da pesquisa, Coltan Scrivner, candidato a PhD no Departamento de Desenvolvimento Comparativo Humano da Universidade de Chicago, disse a VICE que aqueles com maior curiosidade mórbida podem considerar esta época de maneira positiva, porque estão aprendendo sobre pandemias, por exemplo, ou como elas afetam o mundo. “Isso, claro, não significa que essas pessoas gostam da pandemia, simplesmente que elas conseguem encontrar algo interessante nela, mesmo sendo algo horrível”, ele disse.

A pesquisa original foi conduzida em abril, e os participantes responderam as mesmas perguntas um mês depois, com resultados similares. Óbvio, as coisas ficaram piores (milhões de casos e dezenas de milhares de mortes piores) desde então, e pode ser preciso mais que filmes de terror para nos fazer sentir psicologicamente mais resistentes enquanto a pandemia continua. “Seria interessante ver quanto tempo esse efeito tipo buffering dura”, Scrivner disse. “Acredito que seria algo bem similar [ao estudo original]. Claro, seis meses depois podem trazer novos desafios que se relacionam mais com o impacto social do vírus, como solidão ou insegurança financeira.”

O que Scrivner não tem certeza, pelo menos por enquanto, é se, digamos, se obrigar a assistir todos os filmes da Annabelle hoje à noite pode ajudar a se sentir melhor daqui para frente. “Supor que a causa flui de assistir filmes de terror para se tornar mais resistente, isso pode depender do mecanismo como isso acontece. Por exemplo, se o mecanismo principal é praticar regulação de emoções e aprender como lidar com medo e ansiedade, é possível que isso possa ajudar”, ele disse.

“Claro, se alguém odeia filmes de terror, isso pode simplesmente piorar as coisas. Se habilidades de regulação de emoções são o que está sendo melhorado e ajudando as pessoas a lidar com a pandemia, talvez seja melhor assistir filmes que são assustadores pra você, não filmes considerados assustadores no geral. Se é assim que isso funciona, o ponto pode ser você aprender a aceitar sentir medo e ansiedade, e aprender como superar esses sentimentos.”

Então, por um lado, você só tem que aceitar sentir medo. Por outro, você só tem que aceitar sentir medo. Legal.

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