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O ACxDC Está Aqui Para Unir os Veganos Straight Edge Satanistas

ACxDC podia ser uma sigla para "All Cows Die Cruelly", "All Children Deserve Cookies" ou "All Cops Deserve Crucifixion", mas faz jus à proposta da banda e significa Antichrist Demoncore mesmo.

O vocalista do ACxDC (abreviação para Antichrist Demoncore), Sergio Amalfitano, entra na loja de discos Vacation Vinyl, em Los Angeles, vestindo uma camiseta do Charles Bronson. Se isso soa como a preparação de uma piada interna de punk rock, Amalfitano certamente poderia finalizá-la. Ele descreve seu grupo de powerviolence, criado no Vale de San Gabriel, como “uma guerra contra todo e qualquer fundamentalismo”. É irônico, considerando que a banda, de integrantes latinos, é famosa na cena underground de Los Angeles por ser vegan, straghtedge e satanista. A ironia, no entanto, parece ser proposital. Com músicas como “Vegangelical”, “Hipler Youth” e “Cheap Punks”, a estreia feroz da banda, um álbum homônimo, tira sarro de todo tipo de imbecis militantes, especialmente aqueles que compartilham dos crenças da banda. Mas o ACxDC tem um lado mais sério e obscuro, conforme evidenciam algumas faixas, como “Dead Cops”, “Filicide” e “Lifeless”. Encurralamos o Amalfitano no almoxarifado da Vacation para saber mais.

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Noisey: ACxDC significa Antichrist Demoncore, mas é obviamente o mesmo acrônimo que o de uma das maiores bandas de rock do mundo. Qual é a de vocês?
Sergio: Antes de a banda ter um nome, sabíamos que queríamos algo como Charles Bronson, algo que é bobinho mas já é famoso. E queríamos um acrônimo. Eu estava vendo MTV um dia, e vi um clipe do Dashboard Confessional em que copiaram o “DC” do logo do AC/DC, com o raio e tudo. Então, pensei: “Por que não copiamos o nome?” Mas, no começo, não significava Antichrist Demoncore (Hardcore Demoníaco Anticristo) - era qualquer coisa que quiséssemos que fosse. All Cows Die Cruelly (Todas as Vacas Morrem Cruelmente) era uma opção. All Cops Deserve Crucifixion (Todos os Policiais Merecem Crucificação) era outra. All Children Deserve Cookies (Todas as Crianças Merecem Biscoitos) era outra. Mas acabamos apenas descrevendo o estilo de música que tocamos: Antichrist Demoncore.

O baterista, Jorge Luis Herrera, também toca no Despise You, uma das maiores bandas de powerviolence de Los Angeles. Mas a música de vocês também tem raízes em bandas como Suicidal Tendencies e Black Flag. Sinto que os adolescentes que vão aos seus shows teriam ido aos shows do Suicidal e do Black Flag nos anos 80. Você se sente parte desse patrimônio?
Musicalmente, sinto que temos um apelo misturado - acho que jovens hardcore, metaleiros e punks podem gostar de nós. Los Angles - e especificamente o local onde começamos, o Vale de San Gabriel - é um foco de bandas de powerviolence desde o início. Los Angeles tinha uma cena de punk mais metida e avant-garde. Mas as áreas do entorno, como o Vale de San Gabriel ou o Vale de San Fernando, onde o Infest nasceu, tinham uma mentalidade mais suburbana. Digo, o Stapled Shut era de West Covina. O Man Is The Bastard era de Claremont. E o powerviolence tem muita influência de hip-hop e da cultura gangueira mexicana (também chamada de cholo). Quando começamos a tocar, foi em quintais de casas cholo. Sempre fomos ligados ao espírito da classe trabalhadora – cholos, skinheads, metaleiros. Crescemos com esses tipos de show. Muitos dos caras mais velhos com quem converso, quarentões que vão a shows desde sempre, dizem que temos o mesmo espírito, a mesma agressividade. Então, eu definitivamente nos vejo nessa linhagem – não necessariamente de Los Angeles, mas do Condado de Los Angeles.

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Você que arquitetou a filosofia do ACxDC?
Em partes. Fui chamado para entrar na banda pelo guitarrista original, que não está mais na banda. O conceito é dele - fazer uma banda meio Spazz, boba, com letras que falam de Tartarugas Ninja e tal. Mas eu nunca conseguiria fazer isso sem o mínimo de seriedade. Então, escondi mensagens nas nossas obras e letras, e comecei a partir daí. Mas agora que posso dizer o que eu quiser, os conceitos são meus.

Suas letras tem um quê de Dead Kennedys. Você está tirando sarro das pessoas, basicamente.
Tiramos sarro de todo mundo, e muita gente não gosta disso. Muitas coisas que as pessoas consideram sagradas não são muito sagradas para nós. No álbum, temos até uma música chamada “Vegangelical”, que xinga os vegans que pensam que são melhores que os outros só porque não fazem algo. Acho que devemos medir quem somos como pessoas com base em coisas que fazemos, em oposição às coisas que não fazemos. Muita gente usa rótulos para se crescer, para se passar por ser superior ou algo assim. Sou vegan, mas não acho que sou melhor que os outros por isso. Sou apenas diferente. Há muitos vegans babacas.

Você não tem a mentalidade do Earth Crisis. Você não dá a mínima para o que os outros fazem.
Exato. Entendo o aspecto político do veganismo. Sou vegan há 15 anos já, e começou com política. Naquela época, eu não estava nem aí para os animais. Para mim, tratava-se de salvar a Terra. Então, minhas crenças partem desse princípio, mas nunca as empurrei para alguém por conta disso. Isso é ladainha fundamentalista, é esquisito.

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É por isso que extremistas sentem a necessidade de bater aviões em prédios.
É. Isso não faz meu gênero. Digo, o Earth Crisis e o Vegan Reich, ou pessoas que batem nos outros por aí porque comeram um hambúrguer ou fumaram um cigarro - aonde querem chegar? Isso só faz os outros odiarem o movimento. A única coisa que ganham com isso é a sensação de serem fodões. Isso não promove as crenças de forma positiva. Na verdade, afasta os outros.

Dizem que a cena straightedge em Salt Lake City era tão violenta, que camisetas estampadas com o slogan “Drug Free” eram consideradas roupas de gangues por escolas e casas de show.
Verdade. A polícia já parou amigos meus por terem decalques straightedge no carro, porque é um item visto como marca de gangues agora. Essa é outra questão: sou straight edge, mas detesto muitos garotos straight edge. Um aspecto da vida deles se transforma em identidade, e eles militam tanto, que o movimento perde qualquer sentido positivo. E daí que você não bebe? Você continua sendo um idiota.

Só há mais um cara straight edge no ACxDC, não?
Isso. Tem um outro cara straightedge, mas ele não é vegan. Os outros bebem, fumam, usam drogas. Não é uma questão. Somos considerados uma banda vegan-straight edge embora eu seja o único vegan-straight edge. Mas os outros caras são tranquilos comigo falando sobre isso nas letras. Não ligam se eu divulgo informações sobre o movimento, desde que eu não diminua ninguém, o que seria hipócrita, claro - porque a maioria da banda não é vegan nem straight edge.

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Certo, então você carrega o aspecto vegan da banda, o aspecto straight edge, e ainda acrescenta satanismo sobre tudo isso. É um ménage estranho, não acha?
Na verdade, fico surpreso por não ter surgido algo assim antes. (Risos) O aspescto satanista é como o vegan, no sentido de que ambos são plataformas de discussão de certas ideias. Nem todo mundo da banda concorda cem por cento com todas elas. Sou o único que se considera vegan-straight edge-satanista. Eu me identifico com muita coisa do satanismo de LaVey [Anton LaVey, fundador da Igreja de Satã] - liberdade de escolha, humanismo, auto-conhecimento, até mesmo não usar drogas. Muitas pessoas não se dão conta de que o LaVey era anti-drogas.

Como você se envolveu com o satanismo?
Em 2003, houve uma espécie de revival do metalcore cristão na nossa região. Temos uma música chamada “We Kill Christians” (“Matamos Cristãos”), e os primeiros dois versos são: “We kill Christians/ We’re Satanic” (“Matamos cristãos/ Somos satanistas”). Estávamos zoando os fãs de black metal, os adolescentes que fazem música no quintal, tentando parecer fodões. Mas a única parte dessa música que declara um ideal mesmo é o verso que diz: “Fuck religion” (“Foda-se a religião”). Também sou contra o satanismo como religião organizada. Se você é mesmo teísta, se acredita no demônio, é esquisito para mim. É o mesmo que acreditar em Deus. Então, o satanismo é meio que uma piada.

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Mas você não está brincando completamente, como o Venom estava. Você chegou a ler a bíblia satânica e adere a algumas filosofias.
Verdade. Não é como o Venom. Não fazemos isso para chocar ou aparecer. O termo correto seria “satanismo ambivalente”. Quando um adolescente desenha uma cruz de ponta-cabeça no caderno da escola, é pelo valor do choque. Entendemos o significado e o valor das imagens e palavras que usamos. Sabemos que podem chocar as pessoas, mas o que queremos de fato é fazê-las pensar e então tomarem suas próprias decisões.

Às vezes, vocês tocam em El Puente, um bairro suburbano de Los Angeles que é bem latino - e católico, presumo. Já tiveram algum problema lá?
É engraçado, porque quando as pessoas de lá descobrem que somos satanistas, sempre perguntam: “Seus avós sabem?” A maior parte da minha família é ateísta, mas todos da banda tiveram uma criação cultural cristã ou católica. Temos muitos amigos religiosos. Mas eles nos conhecem e sabem da onde viemos. Sabem que respeitamos suas crenças. Só achamos que são meio bobos. E eles provavelmente acham que nossas crenças são meio bobas, e tudo bem.

Então não há atritos?
Não onde moramos. Mas, na turnê do ano passado, era para fazermos um show em Oregon, numa cidadezinha extremamente religiosa. Descobriram que o Antichrist Demoncore ia tocar, porque deixaram um flyer com uma cruz de ponta-cabeça no quintal de alguém. Aí já era. O pessoal começou a protestar em frente à casa de shows onde tocaríamos, e os bombeiros foram acionados, porque falaram que se tocássemos mesmo, queimariam a casa.

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Que merda! Parece as histórias do Slayer.
É, foi bem esquisito. Não achei que esse tipo de coisa ainda acontecesse - especialmente em uma casa de shows em Oregon, no meio do nada. Pensei que Oregon fosse bastante liberal, mas aparentemente só Portland e Eugene são. Mas os caras que organizaram o show agendaram em outra cidade, e todo mundo foi até lá nos ver tocar. Isso foi legal. Então, lidar com fanáticos foi desanimador, mas foi legal ver que há um sistema alternativo de pessoas que não se importam com eles e vivem outro estilo de vida.

Ao mesmo tempo, se os cristãos não atacarem vocês ou os fãs, um protesto pode funcionar como publicidade grátis.
É engraçado. Em Riverside, surgiram pessoas com cartazes dizendo “Jesus é o Salvador”, porque descobriram que iríamos tocar. Acho que não entendem a piada. Mas, de novo, quem é muito fundamentalista nunca vai entender as piadas. Há uma enorme lacuna de humor ali.

Seu irmão gêmeo toca guitarra no ACxDC. Você também tem filhas gêmeas. Você se sente cercado?
(Risos) Sim. Minha esposa provavelmente se sente mais cercada ainda. Recentemente, pegamos dois gatos para nossas filhas. Temos duas versões de todos.

O que você e seu irmão gêmeo têm em comum, quanto a veganismo, straightedge e satanismo?
Deixa eu ver… Ele era vegan, mas não é mais. Era straight edge, mas não é mais. E é ateu. (Risos) Sou o Mário, e ele é o Wário. Definitivamente, ele é minha versão maligna.

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J. Bennett não é vegan, straight edge nem satanista. Mas ele é famoso por se dar bem com os três.

Tradução: Stephanie Fernandes

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