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Duas Décadas de Hardcore em Washington DC nas Fotos do Livro 'Dance of Days'

Mark Andersen, um dos autores, comenta alguns lendários cliques que mostram a evolução do chamado harDCore.
19.6.15

Um livro capaz de desenterrar do fundo da sua alma o credo naquelas utopias soterradas pelo cinismo e as convenções da vida cotidiana. É muito provável que o Dance of Days – Duas Décadas de Punk na Capital dos EUA, que ganha neste mês sua versão em português pela Edições Ideal, tenha esse efeito. O livro é mais do que um mero conteúdo histórico-informativo sobre a cena de Washington DC, subcultura que os documentários em vídeo pouco se deram o trabalho de abordar. É como quando você tira o pó daquele disco ao vivo do Bikini Kill, coloca pra tocar e escuta a Kathleen Hanna bradando “We’re Bikini Kill, and we want revolution!”. Ou, como quando você pega o VHS do Instrument, do Fugazi, assiste de cabo a rabo sem piscar e pensa no quanto aqueles caras foram capazes de dar forma estética e discursiva ao espírito de uma geração.

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Os autores Mark Andersen e Mark Jenkins traçaram um apurado balanço que acompanha a substancial cena punk de Washington DC desde a formação de suas primeiras bandas e movimentos até sua explosão e desdobramento em diversas células políticas e criativas, ao longo dos anos 1980-90. Bad Brains, Minor Threat, Fugazi, Bikini Kill, Government Issue, Jawbox, Dischord Records, riot grrrl, emo, straight edge, Positive Force, Rites of Spring, PMA, Revolution Summer… Está tudo aqui.

É bem verdade que um monte de coisa deu ruim no hardcore, que várias ideias poderosas foram convertidas em peçonhentas deturpações, servindo de bandeira auto-afirmativa esvaziada de essência para uma gama de babacas. Mas até nisso Dance of Days… se faz uma leitura altamente recomendável, porque além de seu caráter documental, o livro resgata a inocência, a paixão e o descontentamento que estimularam uma molecada esperta a reinventar a contracultura, mostrando que o faça você mesmo pode ir muito além da customização de roupas.

As imagens a seguir capturam muito bem a alma do período que o texto se dedica a cobrir. Por isso, ao invés de uma entrevista tradicional, pedi para o Mark Andersen comentar o que viesse à sua memória olhando para cada uma delas.

1. Flyer do lendário protesto de 1991, em frente à Casa Branca.
“Este é um flyer que eu fiz para o protesto do Fugazi em parceria com a Positive Force em janeiro de 1991, usando uma poderosa fotografia do Jim Hubbard tirada no Capital City Inn, um motel transformado em abrigo de sem-tetos. Aquilo era um lugar horrível para as famílias viverem – era mais uma espécie de acampamento de refugiados do que um lar – e a foto capturou um pouco do perigo e do desespero daquela atmosfera. A ideia do Ian Mackaye era fazer um show de protesto do lado de fora em pleno inverno. Com isso, ele pretendia atrair a atenção para a quantidade de gente que vivia nas ruas de Washington DC. Os acontecimentos transfiguraram nossos planos originais, e terminamos fazendo uma manifestação contra a guerra, com o argumento de que a verba gasta com armamentos seria melhor empregada no atendimento às necessidades das pessoas carentes. Foi um enorme protesto percussivo e o show do Fugazi em frente à Casa Branca rolou apenas horas antes que as bombas do exército estadunidense começassem a cair sobre Bagdá.”

2. Lista “A Revolução começa aqui e agora, dentro de cada um de nós”, extraída da terceira edição do zine Riot Grrrl. Texto da Kathleen Hanna.
“A Kathleen Hanna, do Bikini Kill, fez essa lista para o número #3 do fanzine Riot Grrrl, lançado no verão de 1991. Os tópicos condensam a tônica profundamente pessoal e ao mesmo tempo radical de um posicionamento que mais tarde viria a ser a base do movimento Riot Grrrl, e isso foi uma grande influência para mim. A Kathleen era uma figura tremendamente carismática, extremamente afiada, apaixonada e corajosa. Ela colocou o mandamento “seja vulnerável ao máximo que conseguir” dessa lista em prática no palco, verdadeiramente colocando-se na linha de frente… suas performances eram imensamente contagiantes e inspiradoras. O slogan da Positive Force, “A Revolução Começa com Você Agora”, está no cerne do pensamento de Kathleen aqui.”

3. Ian MacKaye, Brian Baker, Jeff Nelson e Lyle Preslar – O Minor Threat na Van do Inferno. (Foto: Al Flipside)
“Os integrantes da formação original do Minor Threat na ‘van do inferno’. Um extraordinário rolo compressor ao vivo, a banda frequentemente passava por situações turbulentas fora do palco, o que tornava suas viagens de van a longas distâncias durante as turnês numa claustrofobia fatigante. Uma das maiores bandas punks do mundo de todos os tempos, eles involuntariamente acenderam a fagulha do movimento straight edge, que acabou virando um impressionante fenômeno global.”

4. Ian MacKaye, do Minor Threat, no 9:30 Club, em 1983. (Foto: Jim Saah)
“Enquanto o Minor Threat se desmantelava por causa de conflitos internos a respeito do direcionamento e ambição da banda, talvez tenha sido ainda mais doloroso para o vocalista Ian Mackaye a distância que ele começou a sentir de certas partes do público. Ainda que a distância física nunca tenha sido tamanha – como vemos nesta foto –, Ian começou a sentir que o mais importante não existia mais, e que o harDCore havia se tornado um negócio feio, ritualístico e finalmente vazio em sua essência. Sua angústia é evidente em boa parte da fase que pega o álbum Out Of Step e o single final, “Salad Days”. A banda seguinte do Ian, o Embrace, expressaria a mesma angústia, mas ofereceria uma solução, transformando-se na força motriz para o Verão Revolução, que foi a reinvenção do punk de DC.”

5. Logotipo da Positive Force
“O logo da Positive Force foi desenhado por mim e pelo meu amigo Jim Miller no começo dos anos 1990. Foi usada uma bonita arte que tomamos emprestada do artista e ativista radical nova-iorquino Seth Tobocman, que estava intensamente envolvido com o movimento de ocupação na região do Tompkins Square Park. Conhecemos o trabalho do Seth no zine World War III, e achamos que sua justaposição dos símbolos do amor e da raiva capturavam a essência daquilo que a Positive Force desejava promover politicamente. A primeiro vez que eu usei a imagem de seu coração/punho foi para divulgar um show anti-gentrificação que o Fugazi, o Shudder To Think e o Jawbox fizeram em setembro de 1989 na igreja All Souls.”

6. HR, do Bad Brains, em Nova York, no começo de 1982. (Foto: Glen E. Friedman©. Esta imagem faz parte do livro Fuck You Heroes, da Burning Flags Press)
“Ao vivo, jamais existiu uma banda como o Bad Brains, especialmente durante essa fase. Esta belíssima foto de Glen Friedman foi clicada não muito tempo depois que o Bad Brains se mudou de DC para o extremo leste de Nova York. Ela captura toda a ferocidade febril do vocalista HR… Se tem uma banda que foi capaz de te convencer que a revolução não só era possível, como estava acontecendo AGORA, essa era o Bad Brains. Infelizmente, esta foto também foi tirada pouco tempo antes da desastrosa primeira turnê dos caras pelos Estados Unidos, uma desventura a qual o Bad Brains nunca superou completamente.”

7. Ian MacKaye e Amy Farina, do The Evens.
“Quando o Fuigazi entrou em hiato em 2003, o Ian MacKaye já estava colaborando com Amy Farina – ex-integrante do The Warmers – em uma nova banda, o The Evens. Embora a dupla tenha o mesmo espírito do Fugazi, com os mesmos posicionamentos politizados das letras e uma postura ética indefectível, a música opera num volume bem mais de boa. Como resultado, isso pode ser mais acessível para todas as gerações, incluindo o filho de Ian e Amy, assim como os filhos do pessoal da cena harDCore que hoje está na meia idade. Isso prova que é possível para os punks amadurecer com graça, crescendo, mas sem jogar a toalha.”

8. A Positive Force DC reunida, em 2000. Mark Andersen é o primeiro à esquerda.
“Essa foto foi tirada em junho de 2000, apenas alguns meses antes da venda da casa da Positive Force pelo seu proprietário para dar lugar a uma pavorosa McMansão. A essa altura, a PF estava em seu décimo quinto ano de militância, e toda uma nova geração de ativistas, a grande maioria com raízes na cena anarco-punk, conduzia o coletivo para novas direções. Ao mesmo tempo em que esse mix era conflituoso – levando a uma séria divisão em 2005 – o grupo viveu indiscutivelmente sua fase mais vibrante nesse período, pelo que se pode afirmar diante do número de pessoas que participavam das reuniões.”

9. Dave Grohl, do Mission Impossible, no Centro Comunitário Lake Braddock, em 25 de julho de 1985. (Foto: Amanda MacKaye)
“Essa foto é da época do Verão Revolução, quando Dave era um adolescente sem barba na cara com uma infecciosa, contagiante atitude e já demonstrando uma formidável habilidade na bateria. O Mission Impossible foi uma das mais importantes bandas jovens desse momento de renovação na história do punk de DC. Por mais que o Mission Impossible tenha durado pouco, eles – como muitas bandas de DC daquele período – fizeram cada segundo valer a pena. Seus shows exploravam todas as possibilidades, nada parecia impossível de se fazer… O espírito do punk encarnado.”

10. Kathleen Hanna, do Bikini Kill, no Sanctuary Theater, em abril de 1991. (Foto: Shawn Scallen)
“Essa é de um dos melhores shows do Bikini Kill, uma apresentação no Rock For Choice que Kristin Thomson, da Positive Force, organizou no Sanctuary Theater. Kathleen começou o show vestindo uma camiseta com o escrito Riot Grrrl recém-pintado e tocando baixo. No fundo da imagem, dá pra ver a baixista Kathi Wilcox e o Billy Karren, guitarrista – de vestido. No meio do show, a Kathi assumiu a guitarra para que Billy pudesse berrar uma feroz versão de 'George Bush Is a Pig', um dos momentos inesquecíveis daquela noite.”

11. HR, do Bad Brains, no Rock Against Racism, em setembro de 1979. (Foto: Lucian Perkins)
“Inspirado pelo The Clash, que tocou no Rock Against Racism, no Victoria Park, em Londres, o Bad Brains decidiu organizar um show gratuito em Valley Green, um dos mais destacados picos de DC. O evento atraiu uma pequena multidão de punks adolescentes brancos – incluso aí o Ian MacKaye – se posicionando contra a divisão racial, bem na região de DC onde frequentemente circulava uma enfezada maioria negra. A justaposição de ambas as comunidades poderia ter sido um desastre, mas o impacto daquele dia reverberou nas aventuras póstumas de Ian com o Fugazi. De certo modo, dá pra afirmar que a semente do protesto anti-guerra do Fugazi em 1991 em frente à Casa Branca foi plantada nessa ocasião.”

12. Kathi Wilcox e Kathleen Hanna, do Bikini Kill. Na primeira fila, Laura Solitaire e Erika Reinstein (Riot Grrrl DC). Outubro de 1991. (Foto: Brad Sigal)
“Esta foto do Brad Sigal é linda pela maneira como retrata tanto a banda como o público. O clique realmente captura a energia 'girl power' daquele momento. Jovens meninas e mulheres foram empoderadas pela experiência de assistir ao Bikini Kill ao vivo, não só exigindo seu espaço na frente do palco e enxotando os machos mosheiros dali, mas também assumindo o comando do palco e de todo o resto em suas vidas. Esse foi apenas o segundo show do Bikini Kill em DC, mas elas já contavam com seguidoras fervorosas, e tamuitos homens e moleques. Vale dizer que o 'riot', de 'Riot Grrrl', foi a referência para as revoltas de maio de 1991 que eclodiram a apenas algumas quadras de onde esse show aconteceu, no porão da igreja St. Stephen’s.”

13. Brendan Canty e Guy Picciotto, do Fugazi, durante o show no Monumento de Washington, em agosto de 1993. (Foto: Pat Graham)
“Não há fotografia do Fugazi que tenha melhor capturado o espírito de enfrentamento radical ao status quo melhor do que este clique de Pat Graham. Amo o jeito como a banda parece estar se levantando contra o monumento de Washington. Eu me lembro do Guy cantando com insana intensidade o seguinte trecho de ‘Smallpox Champion’: ‘Enterre seu coração Estados Unidos da América / A história toma distância para cuspir na sua cara / Você viu o que queria / Você pegou o que viu / Nós sabemos como você fez isso / O seu método se iguala ao aniquilamento.' Os Estados Unidos são soberanos na história do genocídio de seu povo nativo – é um verdadeiro flagelo global – mas a distância entre o idealismo da nossa nação e sua frequentemente feia realidade pode ser ainda mais dilacerante.”

14. Ian MacKaye, do Fugazi, na igreja St. Stephen’s, em 1992. (Foto: Pat Graham)
“Ian MacKaye foi batizado e criado na igreja St. Stephen’s, o que revela o motivo pelo qual a Positive Force fez tantos shows naquele espaço, e por que o nosso escritório era lá. Este show foi um evento beneficente para a Washington Free Clinic, a qual funcionou na igreja por muitos anos. A popularidade do Fugazi era tamanha que nessa época que o show mal foi divulgado e mesmo assim apareceram umas 600 pessoas na porta. A banda de abertura era o Haymaker, que tinha a Jen Smith à frente, uma das figuras chave na criação do Riot Grrrl.”

15. Henry Rollins e Wendel Blow, do State of Alert, no Wilson Center, em 4 de abril de 1981. (Foto: Susie Josephson)
“Em abril de 1981, não muito antes da mudança do Bad Brains para Nova York, o HR organizou um festival com 14 bandas num pico novo, o porão de uma igreja que virou abrigo para a comunidade imigrante conhecido como Wilson Center. Essa foto do SOA exibe o vocalista Henry Garfield (mais tarde Rollins) ao lado do baixista Wendel Blow e foi tirada por Malcolm Riviera nesse primeiro festival que aconteceu lá. A realidade das ruas era tensa para os punks de DC na época; note a corrente que o Henry usa como cinto, era um artefato de autodefesa. Malcolm logo se mudaria para DC e começaria a agilizar vários shows clássicos no Wilson Center, inclusive um em que o Black Flag era a banda principal, a banda para a qual Henry entraria dois meses depois que essa foto foi batida. A saída de Henry do SOA e da cena de DC fez o Wendel se sentir abandonado, o que o empurrou subsequentemente em direção ao lado barra pesada do punk de DC.”

16. Henry fazendo alôka com o Rollins Band. (Foto: Pat Graham)
“O Henry Rollins sempre colava em DC, a cidade que ele nunca deixou de ter como o seu lar. Aqui ele está de volta ao palco no 9:30 Club com a Rollins Band. Lembro que eles mandaram uma apimentada versão de “Obscene” nessa noite. Nela, Henry criticava o debate sobre o uso de letras ofensivas nas músicas, traçando um paralelo entre a verdadeira obscenidade da guerra, ao terrível custo do sofrimento humano. À ocasião, Henry emergiu como um artista e performer, já que no Black Flag ele era mais óbvio e sem noção.”

17. Fugazi - Ian MacKaye, Brendan Canty, e um pedaço do baixo de Joe Lally. (Foto: Jim Saah)
“O Fugazi era uma banda extraordinária ao vivo, tocando sem setlist, mais parecendo que estava ali para confrontar sua audiência, e ao mesmo tempo com seus integrantes mergulhando de corpo e alma nas canções, noite após noite. A primeira vez que vi essa foto do Jim Saah foi na capa do jornal Washington City, com matéria assinada pelo meu co-autor Mark Jenkins, com o título de 'O Fugazi Vende Discos Sem Se Vender'. Mark acertou na mosca com aquele texto, e o Fugazi nunca se rendeu às políticas de mercado.”

18. Capa da terceira edição do zine Riot Grrrl.
“Esse foi o primeiro zine Riot Grrrl com o qual eu tive contato, e o que encontrei em suas páginas era realmente impressionante. Não muito tempo depois disso, entrevistei Kathleen Hanna, Allison Wolfe e Molly Neuman ao final da segunda reunião RG na sede da PF, uma troca de ideias que foi muito enriquecedora para mim. Aquele verão de 1991 foi, de certa forma, uma extensão do verão de 1985; como saiu em outro zine Riot Grrrl: Revolution (Summer) Girl Style Now. Para mim isso resumia tudo, apesar da curta, porém selvagem Guerra do Golfo e das implicações das revoltas de Mount Pleasant e da carnificina do combate às drogas em DC.”

19. A banda Faith no palco do Wilson Center. 17 de setembro de 1982. (Foto: Rebecca Hammel)
“Embora o Bad Brains e o Minor Threat fossem mais populares, o coração da cena harDCore na real era o Faith. A cena ficou um pouco desnorteada quando a banda acabou, no verão de 1983. A desilusão do Faith se refletiu na angústia que explodiria na criação do Verão Revolução, dois anos depois. A banda Rites of Spring, de certo modo, assumiu a bandeira que o Faith deixara cair naquele momento, e ofereceu uma igualitária dose de abandono, emoção e propósito em torno da qual um novo cenário foi reinventado. Não à toa, Chris Bald – retratado aqui com a palavra ‘poser’ rabiscada no peito – foi um dos maiores apoiadores da banda. Foi inclusive por uma dica dele que eu fui assistir um show do Rites of Spring em 14 de junho de 1985, uma noite que revolucionou a minha vida.”

20. Um incógnito Jeff Nelson com a primeira versão do cartaz “Meese is a Pig”. (Foto: Theodore Nelson)
“Os consideráveis talentos de Jeff Nelson eram algumas vezes abafados pela imensa paixão, habilidade e visão do Ian MacKaye. No entanto, foi o Jeff quem assumiu o centro do palco durante a representação do drama ‘Meese Is a Pig’. Aqui ele satiriza a proposta clandestina da empreitada, enrolando fita adesiva na cara enquanto segura um dos pôsteres. Essa foto mostra bem como os cartazes eram grandes. Imagina só esses cartazes sendo vistos pelas autoridades, espalhados por todos os muros da cidade – não é de se admirar que depois disso a polícia começou a perseguir a gente! Infelizmente, Meese continua em atividade, como uma das mentes guiadoras do ‘Tea Party’, um movimento de extrema direita radical.”

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