FYI.

This story is over 5 years old.

O Odair José Contou pra Gente Tudo Sobre seu Disco Clássico e Proibidão ‘O Filho de José e Maria’

A obra de 1977 repercutiu de forma tão negativa na Igreja Católica, na imprensa e no país que o homem se tornou persona non grata em programas de rádio e televisão e os LPs empacaram nas prateleiras.
27.8.14

Fotos por Anna Mascarenhas

Quantas músicas você conhece que falam das prostitutas? Se pá “Candy”, do Iggy Pop, com a voz agudinha da Katie Pierson. Mas foi com uma letra sobre um homem apaixonado por uma mulher da vida que levou Odair José à fama, mesmo a contragosto dos mais conservadores. Em 1971, ele assumiu o posto de cantor dos tabus. Amou putas, empregadas domésticas e em 1977 fez uma obra que repercutiu de forma tão negativa na Igreja Católica, na imprensa e no país que o homem se tornou persona non grata em programas de rádio e televisão, não deu muitas entrevistas e os LPs empacaram nas prateleiras. Lembre-se, meninote. Vivíamos um período de ditadura militar. A foto de Odair sem camisa com um neon ao fundo escrito O Filho de José e Maria virou sinônimo de imoralidade. Em Campina Grande, na Paraíba, um padre ameaçou excomungá-lo e o Brasil não entendeu o cantor. “A única pessoa que achou que aquilo não era uma loucura fui eu”, conta Odair. 36 anos depois, ele lança Odair José: O Filho de José e Maria Ao Vivo em CD e DVD gravado no pomposo Theatro Municipal de São Paulo.

Se você não manja o Odair José, se liga que o tio explica. O cara lançou seu primeiro álbum em 1970 e estourou de vender em 1972 com “Eu Vou Tirar Você Desse Lugar”, a música da puta mais famosa do Brasil. No ano seguinte ele chega às lojas com outra bomba, “Uma Vida Só (Pare de Tomar a Pílula)”, em que ele defende o fim do uso do anticoncepcional “porque ela não deixa o nosso filho nascer”. O disco foi vetado pelos militares e criticado até por parte da Igreja Católica, que normalmente é contra o uso de contraceptivos. Doido, né? Seu amor pela igreja não acabou aí. Em 1974 ele lançou numa coletânea a faixa “Jesus Cristo, Quem É Você?”, em que faz duras críticas ao catolicismo depois de uma viagem a Roma. “Eu estou cada vez mais convencido de que as pessoas com esse negócio de querer que Deus ajude numa doença física ou na prestação do carro diminuem muito a importância do Criador”, confessa. Em 1977, ele deixou de vez os beatos e freiras em polvorosa. A ópera-rock – termo que ele nunca usou – O Filho de José e Maria fala, em dez faixas, do nascimento, vida, casamento, viagens psicotrópicas, sexualidade e morte aos 33 anos de um cara que pode ser eu, você ou o filho do “hômi”, o Jesus Cristo mesmo.

Pensa aí. O personagem do disco afirma que José e Maria, os pais do menino Jesus da manjedoura, fizeram a criança antes do casamento e tiveram que se unir em matrimônio às pressas porque a boca pequena ia sair difamando a família. Tá achando loucura isso? Então péra. Na Bíblia, Maria engravida do Espírito Santo e não era casada com o carpinteiro. O cantor continua sua história com o divórcio do casal, aprovado no Brasil naquele ano, passa por outros tabus como uma possível inclinação homossexual, o uso de drogas e a ronda constante da morte. É um clássico da música brasileira e nós destrinchamos ele até o último pedacinho e ainda falamos de outras paradas. Odair, essa galera tava errada. Este disco é do caralho e merece toda honra e toda Glória. Agora e para sempre. Amém.

Noisey: Você é filho de José e Maria?
Odair José: Não, o meu pai se chamava Conceição. Quer dizer, Conceição José de Araújo. Ele é descendente de espanhol e quando nasceu, independente de homem ou mulher, teria que ser Conceição por causa do dia da Santa. Aí me parece que o cara do registro não aceitou por ele ser homem a ideia do Conceição que era um nome feminino. Aí acrescentaram o José. A mãe é Antonia das Dores de Araújo. Eu costumo dizer que o filho de José e Maria sou eu mesmo, mas sem a Maria no nome da mãe.

Quando você começou a tocar?
Desde os sete anos de idade eu comecei a mexer com música e ganhei um instrumento. Eu pedi um violão e ganhei um cavaquinho, que eu tenho até hoje, portanto ele tem 59 anos. Depois veio o violão. Na minha adolescência vieram as guitarras. Lá em Goiânia, com meus 14, 15 anos todo mundo tinha uma banda, toda rua tinha uma banda, todo bairro tinha uma banda, toda escola tinha uma banda. Eu sempre gostei muito de guitarra, sempre gostei muito de instrumentistas. O meu olhar pra música, pra eu aprender alguma coisa, sempre foi pra quem cantava e se acompanhava ou de quem tocava e cantava. Eu sempre via alguém com o instrumento na mão.

Leia o restante da entrevista na VICE.