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Os Zumbis do Espaço estão de volta em uma missão de satanás

A banda de horror rock mais cultuada do Brasil emerge dos quintos dos infernos na precisa data de 6/6/6 para chutar mais uns traseiros outra vez.

Foto por: Bruna Martins

Em vinte anos na ativa, o Zumbis do Espaço se firmou no cenário underground com uma identidade muito particular, capaz de agradar ao público do metal, do punk, do country, do rockabilly e do blues. Mas se até os Ramones tiveram suas diferentes fases em estúdio, também é possível notar os distintos climas nos quais o Zumbis já investiu ao longo de sua discografia, até chegar no harmonioso blend musical que conhecemos. E que fica evidente nesse novo álbum que orgulhosamente soltamos nesta segunda, dia 6/6/2016, Em Uma Missão de Satanás. Nem sempre foi assim. Em seus primeiros discos – A Invasão e os três EPs que vieram a compor o Horror Rock Deluxe – a banda egressa do Vale do Paraíba, interior de São Paulo, ainda exibia forte influência do Misfits original. Já era possível notar nessas gravações, contudo, algumas influências tiradas desses outros gêneros citados, o que deixava claro que não se tratava de mais um expoente clichê do punk rock.

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A identidade mesmo do Zumbis adquiriu contornos em seu terceiro álbum, o Abominável Mundo Monstro, de 1999. Nele, todas as referências foram somadas não como uma colagem de estilos, mas como os ingredientes de uma massa de pão, formando uma sonzeira única e original. Na sequência, os caras gravaram Aberrações que Somos, em 2002, e nesse período ainda conhecemos o primeiro ao vivo, O Mal Nunca Morre. O Zumbis do Espaço estava no auge de sua criatividade e aproveitou o embalo para lançar, em 2004, Aqui Começa O Inferno, bem mais puxado para o country do que os anteriores, com direito à inserção de novos instrumentos como dobro, banjo e altos solos de guitarra.

Depois de um tempo no ostracismo, entre 2004 e 2008, quando a banda se acomodou com a diversão e a bebida na faixa, quase chegando ao fim pela primeira vez, os integrantes decidiram retomar as forças e gravar o álbum mais bem produzido de todos até então, para voltar a chutar umas bundas: Destructus Maximus. “Quando ele foi lançado, muitos fãs torceram o nariz por causa da excelente produção e do peso, mas o que aconteceu é que ninguém contava com o fato de que esse álbum atrairia toda uma nova geração de fãs mais ligados ao metal, o que se comprovou quando saiu o tributo ao Zumbis em 2014, feito só por bandas de metal”, comenta o vocalista Tor. “Nesse tributo foram gravadas mais músicas do Destructus do que de nossos outros álbuns. Nessa época gravamos o terceiro ao vivo e o segundo DVD, e então saiu o Nós Viemos em Paz, em 2012, que eu acho que é um álbum de transição. Foi quando tentamos encontrar um ponto de equilíbrio entre o Destructus e os nossos primeiros álbuns, mas também incorporar alguns novos elementos, soando pesados e lentos e com uma atmosfera mais orgânica”, conclui.

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Daí finalmente chegamos a Em Uma Missão de Satanás, clássico instantâneo com letras perspicazes e melodias contagiantes. Tor, Manialcöol (guitarra), Gargoyle (baixo) e Zumbilly (bateria) demonstram aqui uma pegada muito consistente, revisitando a selvageria de seus melhores feitos – Abominável; Aberrações; e Destructus. Dessa vez, pode-se afirmar que os Zumbis do Espaço conseguiram alcançar o objetivo buscado no “álbum de transição” Nós Viemos em Paz, para usar um termo do próprio Tor. E fizeram isso sem se eximir de uma produção de fina qualidade e sem soar como cover de si mesmos: a cagada de muitos grupos com equivalente tempo de estrada na bagagem. A qualidade do trampo vem coroada com a arte do impagável Ed Repka, que já fez capaz memoráveis para nomes como Circle Jerks, Megadeth, Nofx, Death e Venom, entre várias outros. O álbum está disponível pela Hearts Bleed Blue em vinil, CD e cassete.

É isso. Curve-se perante o capeta e ouça enquanto lê a prosa que tive com o Tor. \,,/

Noisey: Por que a temática do terror, do mal, das aberrações, dos monstros e do capeta são tão inspiradoras para a banda? Existe uma linha tênue entre o senso de humor e o apreço verdadeiro ao satanás, ou o gosto real pela violência, por exemplo?
Tor: Sempre fomos atraídos pelo bizarro, pelo mau gosto e pelo caminho oposto às convenções, o que também inclui o engajamento juvenil raso tão em alta nos dias de hoje. Para mim, rock’n’roll sempre foi sobre quebrar barreiras, incomodar e ser uma música que deixe desconfortável a maioria das pessoas. Se seus pais aceitam a música que você ouve, tem alguma coisa errada. Mas nunca foi sobre satanismo ou violência. Encare como assistir a um filme ultrajante ou ler algum livro estarrecedor, ou simplesmente extravasar por uma hora tudo que você gostaria de colocar para fora, sobre seu trabalho, escola, parceiros, etc. Por isso, músicas como “Espancar e Matar” cumprem sua função. Se você vai a um show, em uma sexta-feira depois de uma semana de trabalho, a última coisa que você vai querer ouvir é um idiota em cima de um palco dizendo o que você deve ou não fazer, ou sobre como salvar o mundo. Foda- se, tudo isso é besteira pretensiosa vindo de caras que não limpam a própria bunda. Então, o que nos propomos a fazer é basicamente: abra uma cerveja, divirta-se e esqueça todas as merdas por uma hora.

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Tem um ou mais sons desse disco novo com alguma história curiosa a respeito de seu processo de composição ou gravação para compartilhar com os leitores?
Tem várias, e são algumas das minhas favoritas. Nossa forma de compor funciona assim: geralmente eu escrevo algumas musicas que já saem completas. Gargoyle faz muitas músicas, mas escreve poucas letras, apesar de que quando faz a letra elas se tornam um clássico. Zumbilly faz muitos riffs e pontes e algumas melodias, apesar de ser baterista. Mas meu jeito preferido de compor é quando pegamos uns dias e eu viajo até a casa do Gargoyle, em Pinda, mostramos o que temos e começamos a compor e beber bem cedo. Quando chega pelas dez da noite, já não sabemos mais nada do que estamos fazendo devido aos nossos hábitos. Mas gravamos tudo, e nesse dia, depois de uma longa sessão de músicas já previamente compostas e mapeadas, quando fomos ouvir as fitas tinha três feitas no final, que nem lembrávamos como gravamos nem de onde vieram, e estão entre as melhores do disco: “O Mal Imortal”, “LSZumbis666” e “Bunga Bunga”. E também teve uma das últimas a serem gravadas no estúdio. O disco já estava praticamente pronto e, como tínhamos mais musicas do que precisávamos e ainda faltavam três letras, e não saia mais nada, eu quase as deixei de lado. Pedi pro Gargoyle me ajudar e também não saia nada muito bom, exceto uma letra que ele mandou de primeira e eu não dei bola. Mas consegui concluir duas delas por mim mesmo durante as gravações, e então só faltava uma, que era justamente a da letra que o Gargoyle mandou e que eu não me importei. Então eu tentei encaixá-la na melodia e na música só porque eu não tinha nada pra fazer, e simplesmente foi mágica, pois se encaixou perfeitamente. Para mim foi a melhor gravação de todas, no final, que é “Inspirado pelo Cão”.

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Qual era a vivência dos integrantes da banda no cenário musical à época de sua formação e o que os motivou a rascunhar um projeto com tal proposta?
Quando formamos a banda, nós já nos conhecíamos há muito tempo, tocávamos em algumas bandas dentro do metal, e do punk/hardcore, mas como todos nós somos do interior, nossa cultura era muito diferente do que aquilo que acontecia aqui em São Paulo. Basicamente no início éramos poucos e todos se conheciam, não existiam divisões, ou facções, as pessoas tinham que aprender a conviver pois todo mundo sabia onde o outro morava. Também não existia público ou lugar pra tocar, então tivemos que inventar isso, alugando salões de festas, espaços comunitários, botecos, piscinas abandonadas, etc. Organizávamos nossos próprios eventos e todo mundo que gostava de som pesado na região costumava aparecer. Olhando para trás parece fantástico o que vivemos, e realmente foi, mas nem sempre era tão divertido quanto parece ter sido. E definitivamente isso não quer dizer que houve uma cena ou que as pessoas eram unidas, nunca existiu isso, era mais uma questão de sobrevivência e conveniência. Sinceramente o que motivou a fazer uma banda como o Zumbis foi quando começamos a vir pra São Paulo no inicio dos anos 1990 as com nossas bandas anteriores, e tivemos contato com o auge daquelas bandas daqui, que adoravam ditar regras de conduta sobre os mais diversos assuntos. E essa agenda politicamente correta e segregacionista não fazia o menor sentido pra mim. Isso me motivou a fazer uma banda que fosse exatamente o oposto de toda essa merda.

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Vocês já haviam trabalhado com o Ed Repka antes, certo? Como funciona o diálogo do Zumbis com ele para a criação das artes? Rola um briefing, ele pega a temática das letras, nome do disco, algo assim, e submete à aprovação de vocês?
É muito fácil trabalhar com o Repka, ele conhece a banda , nosso universo e o que a gente representa. No Nós Viemos em Paz, conversamos sobre isso e ele me apresentou um desenho que ele achava condizente com nossa filosofia, e foi isso. Já nesse novo álbum a ideia e o conceito foram meus, eu falei apenas que o titulo do disco seria uma referencia aos “Blues Brothers”, filme em que eles justificam todos as merdas e acidentes e trambiques deles por estarem “Em uma missão de Deus”. É mais ou menos como a carreira do Zumbis, só que estamos em uma missão de Satanás… eu expliquei isso pra ele e disse que queria um diabo pastor em roupas legais, umas crentes gostosas e uns homens caveiras, e ele me veio com a capa depois de umas semanas.

Muita gente cai no senso comum de dizer que o Zumbis é o Misfits brasileiro. Você acha que essa é uma forma equivocada de se referir à banda?
Sim. Falar que somos o Misfits brasileiro é simplista e superficial, apesar de que eu poderia tomar isso como um elogio. É obvio que fomos muito influenciados e ainda somos pelo Misfits original, eles foram uma das bandas mais incríveis que existiu e gravaram um dos meus discos favoritos que é o Walk Among Us, além de canções antológicas e uma coisa que eu adoro: grandes melodias e letras insanas. Mas ao mesmo tempo temos muito mais que isso no som do Zumbis, temos oito discos de estúdio, três ao vivo, dois DVDs, duas coletâneas, vários EPs, vinte anos ininterruptos de carreira, atingimos um espectro musical que aborda metal, punk, country, blues, rockabilly. E eu reforço uma coisa, qualquer comparação que façam nesse sentido como o Motörhead brasileiro, O Jhonny Cash brasileiro, o Ramones brasileiro, mostra que fizemos o caminho certo, mas continuo achando que quem fala isso não pegou totalmente o espírito da banda, só uma parte.

Certa vez você declarou que "Não existe injustiça na música. Cada um tem o que merece". Olhando em retrospecto, você acha que o Zumbis teve o que mereceu? Ou há objetivos inalcançados nessa caminhada?
Sim, continuo achando isso, se você faz uma banda só pelas recompensas materiais e carnais, ou para ser algum tipo de celebridade, provavelmente você vai se frustrar e definitivamente acho que isso não deva ser a motivação para fazer musica. Consegui uma boa vida e uma carreira com minha banda, continuo fazendo musica que me empolga e me desafia artisticamente, e que continua me levando para inúmeros lugares, e em todos eles tem pessoas que cantam nossas musicas e que em algum momento essas mesmas musicas fizeram parte das vidas delas ou as tocaram de alguma forma, vivo da minha maneira e pelas minhas regras. E meu único objetivo é continuar fazendo o que eu faço e chutando mais algumas bundas por aí, até quando isso não me interessar mais.

Os Zumbis do Espaço seguem espalhando a mensagem da desgraça no Facebook

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