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Justin Broadrick Fala Sobre a História Secreta do Godflesh

Conversando sobre a formação da dupla na extensa escrotidão de Birmingham, Inglaterra, nos anos 80, Broadrick acabou nos revelando uma incrível história familiar que envolve bruxaria, nazistas e fitas piratas do Stranglers.
16.7.14

O vocalista e guitarrista do Godflesh, Justin Broadrick, está se recuperando de um vírus estomacal particularmente forte. Ele e o baixista e co-fundador da banda, Ben Green, o contraíram quando os mestres ingleses do industrial tocaram no Hellfest, em Clisson, na França, mês passado. “Voltamos do Hellfest e uns três dias depois Ben e eu estávamos mijando pela bunda, tínhamos calafrios sincronizados, essa merda toda”, disse Broadrick via Skype. “Literalmente uma merda. Faz uma semana e meia. Pareceram anos e ainda não me sinto 100% bem.”

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Enquanto nos falamos, Broadrick se prepara para sair da Inglaterra de novo – dessa vez para tocar no Japão com sua aclamada banda de post-rock, Jesu. Originalmente, havíamos planejado conversar com ele sobre o EP de volta do Godflesh, Decline & Fall, e seu vindouro álbum, A World Lit Only By Fire – o primeiro desde que a banda acabou em 2002. Mas então decidimos falar sobre a formação da dupla na extensa escrotidão de Birmingham, Inglaterra, nos anos 80. Broadrick acabou nos revelando uma incrível história familiar que envolve bruxaria, nazistas e fitas piratas do Stranglers.

Quando você e Ben se conheceram?
Justin Broadrick: Nos conhecemos na merda de conjunto habitacional de onde ambos viemos em East Birmingham. Tem uma diferença de mais ou menos cinco anos entre nós, mas esbarrei com o Ben pela primeira vez porque eu era um cara do punk rock – estava usando aquele visual típico e ele me viu. Quando começamos a andar juntos, eu tinha 14 anos e ele 19. Seus outros dois melhores amigos eram Paul Neville, que depois entrou no Godflesh, e Diarmuid Dalton, baixista do Jesu. Todos somos amigões há uns 31 anos – bem, todos menos o Paul, mas isso é outra história. É um tempão, né? Doideira.

Você lembra como vocês começaram a andar juntos?
No conjunto habitacional, eu e este outro moleque ficávamos sentado nas escadas na porta dos flats – o termo norte-americano seria “apartamentos”, mas isso sugeriria que eles eram bastante luxuosos. Não eram. Eram moradias de bosta do Estado, montadas sobre um monte de lojas de bosta. Ficava nos degraus ali com meu amigo e agíamos… Bem, como punk rockers de 14 anos. Eu usava uma camiseta do Stranglers, e Ben passava por perto e sacava que curtíamos as mesmas músicas que ele. Eu o percebi também, porque ele se vestia meio como o Robert Smith, do The Cure, com aquele cabelo – uma imagem meio pós-punk, gótica. E ali na nossa região só existiam hooligans, que obviamente faziam cara feia pra caras como nós e frequentemente tentavam nos encher de porrada. Então quando você via alguém como o Ben, era uma tremenda exceção. Ele disse o mesmo sobre nós – pensava que nós devíamos ser os caras legais, mesmo sendo bem mais novos.

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De alguma forma ficamos conversando na rua um dia. Acho que estava tentando vender uma fita pirata do Stranglers pra ele. Eu tinha uma coleção bem grande de fitas naquela época que eu havia, hm… libertado, digamos assim. [Risos] Fitas piratas. Eu tinha esse deck duplo , então gravava as fitas e tentava vender pros outros moleques pra tirar um troquinho. Parece que isso quebrou o gelo com o Ben: tentei vender uma fita do Stranglers, ao vivo de 77 ou algo assim – que acho que ele comprou. Foi a ponte para a nossa amizade. Acho que ele comprou a fita por educação e pra dar um jeito de conhecer “os caras legais”. Enquanto eu pensava que ele era o cara legal, porque era mais velho e parecia o Robert Smith. Ben me apresentou ao Paul e ao Diarmuid, e assim foi, basicamente.

A primeira banda em que vocês tocaram juntos foi o Fall Of Because, certo?

Sim, que era essencialmente a banda que Ben e Paul Neville criaram com uma bateria eletrônica. Meio que tomei a banda deles, por assim dizer. Acho que os convenci de que deveria tocar bateria pra eles. Começamos então a andar juntos depois daquele primeiro encontro na rua. Comecei a ir nas casas deles, depois que os pais dormiam. Nos trancávamos no quarto ou nos metíamos na sala e ouvíamos discos. Frequentemente alguém descolava um pouco de maconha, daí fumávamos e ficávamos ouvindo um som. Coisas clássicas da formação de uma pessoa, sabe? Tive algumas bandas bem primitivas nessa época, incluindo aí o Final, e então Ben e Paul me falaram de sua banda.

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No dia que abandonei a escola, aos 15 anos de idade, organizei um show no Mermaid Pub, em Birmingham. Tinha alguns conhecidos da escola que tocavam em bandas, uma delas era o Napalm Death. Também botei o Fall of Because e o Final pra tocar. Foi um evento gratuito, mas havia só umas 25 pessoas lá – o pessoal das bandas, e talvez um cara e seu cachorro. Foi uma merda, mas eu estava desesperado pra fazer shows e agitar as coisas. Havia visto o Fall of Because ensaiando no quarto do pai do Ben, e eles eram obviamente influenciados pelo The Cure – o que explicava o visual. Eles pareciam uma mistura de discos do The Faith com Seventeen Seconds, mas com bateria eletrônica – uma bem simples, a mais barata que se podia comprar. Eles curtiam Dead Kennedys e Buzzcocks, mas também eram grandes fãs de Black Sabbath. Ben cantava, mas era tipo um murmúrio, um monólogo. O ano era 1984, então eles estavam um pouco à frente de seu tempo, mesmo. Em questão de meses, entrei no Napalm Death e tomei conta do Fall of Because ao lhes mostrar um monte de discos de hardcore, coisas como Discharge, e outras como Swans e Sonic Youth. Daí em diante rolou meio que um efeito bola de neve.

O nome da banda veio de uma música do Killing Joke, certo?
Era uma combinação de coisas, porque o nome Fall of Because também era o título de um capítulo em um livro do Aleister Crowley. Conheci Crowley através do Killing Joke porque lia suas entrevistas no começo dos anos 80, quando tinha 11 ou 12 anos. Eu era fascinado com a obsessão deles pelo oculto. E minha mãe e avó mexiam com ocultismo. Vovó era uma bruxa branca, na verdade, então essas coisas realmente prendiam minha atenção de qualquer jeito.

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Pensando bem, não tenho certeza se o nome Fall of Because veio antes de eu ter entrado na banda. Estou bem perdido nessa, agora que você mencionou, porque fui eu quem mostrou o Killing Joke a eles. Logo, não tenho certeza de como eles chegaram ao nome. Sei que quando os conheci, o nome da banda era OPD, sigla para Officially Pronounced Dead (Declarados Oficialmente Mortos). E talvez tenha sido eu quem tenha os convencido de mudarem para Fall of Because? Não lembro mesmo.

Espera um pouco, a sua avó era bruxa?
Sim, sim – achei que já tínhamos falado sobre isso antes. Mas pelo visto não. [Risos] Minha mãe também praticou bruxaria por um tempo, antes de usar drogas e acabar se envolvendo com religião. Ela nasceu na Alemanha, de onde veio a vovó. Infelizmente, ela foi obrigada a trabalhar pros camisas marrons na Alemanha nazista. Ela estava lá no fim de tudo, quando Berlim ruiu. Meu avô era um soldado britânico durante a guerra e foi assim que eles se conheceram. Moraram na Alemanha por um tempo em uma cidade chamada Bielefeld, onde minha mãe nasceu, antes de meu pai trazê-las para a Inglaterra. Mas vovó praticou bruxaria durante a maior parte dos anos 30, na Alemanha, e minha tataravó também. Essa coisa corre por todo o lado alemão da minha família – todas são bruxas brancas, basicamente. Mas vovó fazia parte de um clã e não era raro encontrá-la dançando nua na floresta.

Você tá brincando.
Eu sei, isso tudo é bem zoado. [Risos] Minha avó trabalhava para um jornal quando os nazistas tomaram o país. Ela não era jornalista – era digitadora. Os camisas marrons invadiram todos os jornais quando dominaram a imprensa, mas eles precisavam das pessoas que trabalhavam nesses lugares, então fizeram com que [os funcionários dos jornais] jurassem fidelidade a Hitler. Uma de suas táticas foi empregada com minha avó – seguraram-na pelos pés e balançaram de ponta-cabeça em uma janela do último andar até ela falar que trabalharia pra porra do Hitler. E ela teve que digitar um monte de propaganda da Juventude Hitlerista. Foi uma merda.

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Uma baita história, porém…
Sim, cresci ouvindo elas. As ouvia quando mamãe e meu padrasto iam até a casa dos meus avós. Eles tinham essas sessões de bebedeira até tarde quando falavam explicitamente sobre suas experiências com bruxaria. Minha tataravó morreu na guerra, mas vovó ainda falava sobre como ela vinha “visitá-la” à noite. Então pude ouvir relatos bem detalhados, minha avó mencionando espadas rituais e todas essas coisas, enquanto eu crescia. Achava tudo aterrorizante, mesmo levando em conta que eram bruxas brancas.

Sua avó falava diretamente sobre as práticas com você?
Mal e mal. Ela era uma mulher alemã muito estranha, muito fria. Ela viveu tantos horrores durante a guerra, especialmente no final, quando a jogaram em um campo de concentração durante dois meses. Ela literalmente viu gente ser enfileirada e fuzilada. Então, na minha infância, minha avó era uma pessoa bem distante. Quando ela ficava responsável por mim, eu só meio que ficava sentado lá quieto desenhando porque tinha medo dela e do meu avô. Era uma atmosfera muito intimidante. Vovó chegou da Alemanha em 1953, quando minha mãe tinha seis anos de idade, e nunca perdeu seu sotaque alemão. Nunca falou muito comigo, mas ouvia essas histórias ali no outro cômodo, sabe? Até hoje, não sei exatamente em que campo de concentração ela foi colocada. Mas sei que forçavam todos os prisioneiros alemães a ficarem de frente para a pilha de mortos – uma pilha de 10 metros de corpos. Um horror incomensurável. Ela também estava em Berlim quando os russos chegaram, outro ato de horror muito bem documentado. Os russos literalmente despedaçaram os civis alemães, além de estuprar mulheres e crianças. Minha avó passou por isso também. Então ela era uma mulher totalmente distante quando eu apareci.

Ouvir essas coisas deve ter te dado um cagaço quando você era pequeno.
Acho que teve um impacto enorme na minha infância e um impacto bastante dramático em minha vida. Como foram os olhos e ouvidos de uma criança que passaram por isso sem poder falar com meus avós mais a frente, quando já era mais velho – eles já tinham morrido – fiquei com todas essas memórias esquisitas. Não é surpresa nenhuma ter ido fazer a música que faço.

Traduzido por: Thiago “Índio” Silva