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Galera, Vocês Estão Levando o Ariel Pink a Sério Demais

O Ariel Pink disse que a Madonna estava velha demais pra fazer algo inovador, aí a galera xingou muito no Twitter.
21.10.14

Desde que desenvolvemos uma tecnologia que permite que nos comuniquemos com qualquer um, em qualquer lugar, a qualquer hora – enquanto ficamos de olho em todas as outras pessoas, e elas fazem o mesmo –, o exibicionismo nas conversas chegou a um ponto em que a maior parte de nossos diálogos acontece online, à vista de todo o público. A tecnologia mudou a maneira de interagirmos no dia a dia, mas quase não existe diferença entre uma carta, um telefonema e um e-mail. A diferença é que as nossas conversas estão lá, para todo mundo ver. Soltar indiretas pelo Twitter nunca é um ato tão pessoal quanto você talvez imagine; está mais para Joan Rivers se apresentando no Hollywood Bowl do que para um bilhetinho sarcástico passado na sala de aula.

Outra coisa da internet é que os famosos amam essa porra igualzinho àqueles de nós que passam o dia inteiro sentados diante de uma tela, vestindo calças cada vez mais sujas, sem nada melhor para fazer. Oferecemos informações a respeito de algo besta, como um sujeito fazendo esquisitices no ônibus, e eles deixam que seus bate-bocas aconteçam diante dos olhos do público. Como resultado disso, grande parte das nossas conversas tende a ser sobre conversas online entre pessoas que a maioria de nós jamais conheceu pessoalmente. Quer seja Mark Kozelek descendo a marreta na Guerra Contra as Drogas ou Azealia Banks e seu circo de desprezo infinito no Twitter, não há nada que amemos mais do que ver gente famosa metida em briguinhas com hashtags, e foi exatamente por isso que a internet explodiu quando a babaquice "disse me disse" da semana passada girou em torno de uma verdadeira tríade de monolitos da cultura pop: Ariel Pink, Madonna e Grimes.

Caso você não esteja atualizado, aqui vai um resumo. Ariel Pink deu uma entrevista para a Faster Louder, na qual foi bastante Ariel Pink. A entrevista completa ainda está para ser publicada, mas, na prévia, ele afirmou ter sido contatado pela Interscope para escrever músicas para o novo disco de Madonna porque "eles precisam de uma coisa inovadora. Precisam de alguém que saiba compor. Não dá para ela simplesmente pedir ao Avicii, aos produtores dela ou sei lá quem, que inventem um techno para ela ficar girando e fingindo que tem vinte anos".

"Não é por causa da idade dela", ele esclareceu. "É por causa das coisas que ela acredita ter que fazer para continuar dominando o mundo narcisisticamente. O que é totalmente direito dela. Mas a questão é não ser otimista demais. Tenho certeza de que a Interscope assinou com ela pensando: 'certo, o último disco não teve tanto sucesso assim. A gente precisa resolver isso. Vamos juntar todo mundo que escreve música e tentar fazer com que saia alguma coisa. Porque ela precisa de uma ajuda nisso aqui.'"

Foi só uma conversa entre artista e entrevistador, mas daí os voyeurs chegaram arrombando. Grimes o acusou de disseminar uma baboseira misógina e delirante – opinião apoiada por James Brooks (Default Genders), que disse: "UGHHHH ariel pink é o PIOR", e Katie Crutchfield (Waxahatchee), que perguntou: "que porra de mundo é esse em que uma pessoa como essa pode ser tão venerada?" – talvez também fazendo referência a uma questionável entrevista na Pitchfork, em que ele afirmou ter "tomado uma sprayzada de pimenta de uma feminista". Então vieram as manchetes de NME, The Guardian, Spin, Billboard, etc. Pouco depois disso, os fãs de cada facção começaram os ataques furiosos em defesa de seus escolhidos. Daí, apareceu Ariel Pink dando retweet em absolutamente todos os comentários sobre si mesmo que conseguiu encontrar. E, por fim, o empresário de Madonna entrou de sola e pôs ponto final no assunto ao confirmar que Madge não faz ideia de quem caralhos era Ariel Pink, e que "não tem interesse em trabalhar com sereias" (essa doeu).

O problema mais óbvio na avaliação crítica de Ariel Pink a respeito de Madonna é o ranço da ideia de que, por trás de cada artista mulher, está um homem mexendo as cordinhas; que é uma opinião demasiado comum e incrivelmente enfurecedora, sobre a qual a indústria da música parece ser baseada, e que foi abordada com brilhantismo por Grimes num post em seu blog ano passado. Não deixar passar em branco as merdas que as pessoas dizem é importante – quer dizer que podemos ver gente como Robin Thicke desfrutar de uma espiral descendente até a irrelevância. Mas, por mais que eu aprecie ver pessoas que vivem sob os holofotes tendo que responder pelas imbecilidades que dizem a um público global de milhões de pessoas, fica a pergunta: e se as merdas que elas dizem forem insignificantes?

Não é preciso ouvir mais do que alguns segundos de uma música de Ariel Pink para entender que este não é um cara que se leva muito a sério. Tipo, ele escreve músicas sobre comer schnitzel, chamou um de seus discos de Ku Klux Glam, e concordou em aparecer em um programa satírico na Fox. Não estou dizendo que não devam criticá-lo por falar pura abobrinha, mas realmente temo que estejamos ficando tão desesperados para retificar a falta de moralidade que vemos refletida em tudo à nossa volta que exigimos razões e valores de declarações que são totalmente vazias. E por vazias, quero dizer em termos de convicção, e não de peso moral. É como tomar satisfações de Harmony Korine por ter dito que vai escrever a continuação de Titanic, ambientada num barco a remo. É um disparate tão ardidamente óbvio que não deveria requerer explicações.

Considerando que Diplo é um dos principais produtores do próximo disco de Madonna, não é insanidade sugerir que ela talvez trabalhe com artistas comparavelmente ainda menores, mas Ariel Pink chegou aonde está sendo um brincalhão, não um imbecil. Ninguém menospreza toda a obra recente da pessoa com a qual está prestes a colaborar, usando gracejos vagos como "as pessoas precisam de mais sustância em seus pratos de macarrão com queijo. Estão precisando de mais açúcar ou coisa assim", especialmente se a pessoa com que está prestes a colaborar é Madonna. Numa entrevista recente à Spin, Pink disse que seu talento era "deixar as pessoas incomodadas". Ele sabe o que está fazendo.

O tipo de pessoa que leva Ariel Pink a sério é exatamente o mesmo tipo que fica empolgado com um pôster de turnê obviamente falso, e depois se volta contra a banda assim que a ficha cai. A cultura difusa da "trollagem" é exatamente o motivo do Facebook ter decidido que é necessário incluir uma tag de "sátira" para artigos de publicações como The Onion, de modo que o leitor possa se preparar para o fato de que está prestes a ver uma piada, e não confundir alguma coisa do estilo "Cachorro Arqueólogo Descobre Raça Ancestral de Povo Esqueleto" com uma notícia de verdade. Ela elimina por completo todo o trabalho de pensar, e isso é tanto perigoso quanto triste.

No momento, declarações "ultrajantes" são chamarizes de cliques muito procurados; uma espécie de moeda. As pessoas amam o bizarro, o improvável, e qualquer coisa que vá resultar em uma situação do tipo "minha cabeça explodiu". Mas, de modo a produzir isso com uma assiduidade diária, é preciso extrair alguma coisa do nada. O nada, nesse caso, é uma piada com base numa artista culturalmente consagrada, e é tão sincera quanto Adam Green cantando "não existe jeito errado de foder uma mina sem pernas".

O verdadeiro problema por trás disso tudo é que passamos a esperar que nossos artistas sejam máquinas de Relações Públicas bem azeitadas. Não conseguimos lidar com figuras como Tyler, The Creator, Donald Glover e Ariel Pink fazendo piadas complexas e com a cara séria, porque eles mandam bem demais. Nos acostumamos a acreditar que, cedo ou tarde, descobriremos tudo a respeito de todo mundo. Se pudermos coletar todos os fatos sobre eles, poderemos de fato afirmar que os compreendemos, os "conhecemos" de verdade. Quando nossos pop stars começam a zoar imperialmente com nossas caras, essa capacidade de conhecê-los fica cada vez mais distante, transformando-se em algo mais fantasioso do que já é.

Se todos fossem máquinas bem azeitadas, acabaríamos com milhares de Ellie Gouldings, e a situação atual é praticamente essa. De Beyoncé a Little Mix, nossos pop stars são como políticos: falam sem de fato dizer coisa alguma. Será que faz diferença se estão falando de como se sentem "abençoados" de estar aqui, ou sobre como Madonna lançar um disco chamado MDNA foi provavelmente o início do fim? Ambas as declarações são igualmente insípidas, mas ao menos Ariel Pink tem a decência de ser engraçado, e decidir dizer coisas que inevitavelmente resultarão em conversas sobre feminismo, a presença das mulheres na indústria da música e a relevância de Madonna. Ariel Pink obviamente gosta de ser o instigador destas conversas, e se isso é prejudicial à sua imagem, ele está pouco se fodendo – o que é uma qualidade cada vez mais difícil de se encontrar na indústria da música. Espera-se dos pop stars que nos entretenham e, tanto faz se você o considera engraçado ou não, Ariel Pink ao menos nos entretém.

Você pode seguir a Emma no Twitter, em @emmaggarland.

Tradução: Marcio Stockler