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Stoned Jesus: "Não seja um idiota"

Um papo sobre Led, Sabbath, Cheech & Chong e fanáticos religiosos com a banda ucraniana que toca no Rio, em São Paulo e Floripa neste fim de semana.

Foto: divulgação

Nesta semana, o Stoned Jesus entra para a história como a primeira banda da Ucrânia a fazer uma turnê pela América Latina. O trio de rock pesadão egresso de Kiev, capital do país, vivencia as alegrias e infortúnios de trafegar por distâncias tão longínquas para promover o recente álbum, The Harvest. A etapa brasileira da trip que inclui Argentina e Chile passa pelo Rio nesta sexta (13), por São Paulo, no sábado (14), e termina em Florianópolis, no domingo (15). O grupo, trazido pela iniciativa da produtora Abraxas, é o mais destacado expoente de um cenário atualmente em ebulição.

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Embora possa ser preguiçosamente definido como stoner, o som passa por variantes que vão de músicas rápidas e curtas até guitarras massudas, tempos quebrados e composições complexas, longas e arrastadas. Em The Harvest, especificamente, o metal alternativo moderno encontra o Black Sabbath e o Led Zepellin. A fusão de referências inclui o doom e o prog metal, além do rock setentista. Igor (vocais e guitarra), Viktor (bateria) e Sergii (baixo) chegam ainda quentes da recente turnê europeia com os franceses do Mars Red Sky, que também já passaram pelo Brasil.

Troquei uma ideia com o Igor sobre o disco atual, a cena ucraniana, influências, clichês de maconheiro, vida na estrada e fanatismo religioso. Chega aê:

Quão relevante vocês consideram o The Harvest na discografia da banda?
Igor: Ah, sim, The Harvest é definitivamente o nosso melhor álbum, em termos de sonoridade e execução, até hoje. Todo mundo dedicou 100% de si, o que dá pra notar pelo resultado. As músicas podem soar mais densas, especialmente para aqueles que esperavam por um Seven Thunders Roar Volume II da nossa parte. Quero dizer, eu amo o conteúdo de The Harvest, mas elas levam mais tempo para as pessoas que estão acostumadas com o nosso usual stoner rock digerirem e se acostumarem — provavelmente, porque essas canções nem são stoner rock, pra começo de conversa.

Os fãs antigos do Stoned Jesus andam curtindo a fase atual, mais trampadona?
Esse é o problema que meio que temos tido com alguns ouvintes. Eles têm essa ideia pré-concebida do que o Stoned Jesus é, e constantemente somos pegos por esse lance de atender às suas expectativas. Isso rola porque a nossa proposta não é ficar engessado musicalmente no stoner. É natural pra gente mudar e experimentar de um disco para o outro, então não faz sentido a galera ficar contando com a mesma sonoridade a cada dois ou três anos. Sobre os cortes de The Harvest, nós ensaiamos as faixas por cerca de dois anos antes de registrá-las em fita, então com certeza já estamos mais do que familiarizados com elas, enquanto uma parte do público, não. Mas há várias coisas que o pessoal vai curtir, até os fãs de First Communion — sim, estou me referindo a "Rituals of the Sun" aqui!

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Podecrê. E eu tenho ouvido falar que a cena de música pesada em Kiev está em seu melhor momento. É isso mesmo?
As coisas estão em chamas, na real. Houve um massivo revival há cinco ou sete anos, com uma nova geração de jovens músicos vindos do underground lançando demos e EPs de modo independente, fazendo shows para plateias pequenas, mas fieis, e até saindo em turnês DIY. É claro que ¾ dessas bandas agora já acabaram ou seguem adiante meio devagar, mas essa explosão deu início a toda a nova onda ucraniana da música independente. Eu citaria algumas delas — Ethereal Riffian, 5R6, Somali Yacht Club, My Personal Murderer, City Of Me, Cold Comfort, Sectorial, Septa —, mas há uma dezena de outras ótimas bandas da Ucrânia para se descobrir.

Por que o Led Zeppelin e o Black Sabbath sempre reverberam nas composições das bandas novas que se propõem a levar adiante o heavy metal?
Porque eles foram muito grandes nas antigas, eles podiam fazer o que quisessem, e, geralmente, isso resultava em músicas muito foda. Eles tinham grana, turnês massivas, eram verdadeiras estrelas, mas eles também foram caras simples e trabalharam que nem loucos nesse objetivo. E isso é algo que a maioria das pessoas não está ligada, elas julgam pelas fotos do Ozzy ou do Page cercados de groupies cheirando pó.
Hoje nós não temos mais estrelas pop como essas porque a música deixou de ser sobre arte, é mais a respeito de vender as suas merdas. Não são mais indivíduos que fazem música hoje em dia, são as corporações, os conglomerados. E eles precisam vender coisas, muitas coisas. Admiro o fato de que há pessoas que conseguem fazer as coisas que querem e ainda assim serem populares (alguém pensou no Kendrick Lamar?), mas a maioria dessa galera é 100% das antigas, do King Crimson ao Tool, passando pela Bjork e o Paul McCartney. E nós estamos perdendo essa geração com certa rapidez, Bowie, Lemmy, Emerson, Prince, entre outros. Quem sabe o que será da música em 2026?
É por isso que o pessoal que está por aí espalhando informação é crucial, é por isso que entendo os caras de calça boca-de-sino que se vestem igual seus avós se vestiam no passado. E quando eles não apenas tiram inspiração (e às vezes riffs) dos grandes, mas também acrescentam um pouco de identidade, é aí que temos o melhor desses dois mundos.

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Que outras coisas influenciam o som e as letras do Stoned Jesus, fora a música?
Essa é a vida, tudo o que nos cerca pode virar música, quer intencionalmente ou não. Eu, particularmente, encontro paz caminhando num parque. Moro perto de um em Kyiv que é enorme e muito bonito. Eu também sempre amei ler sobre os meus músicos favoritos – ou, de vez em quando, ler alguma coisa acerca de algum músico que não é tão familiar, mas de quem posso virar fã. Então, eu acho que isso ajuda, também. No momento, estou no meio daquele Bowie In Berlin, então não vá achar estranho se o próximo trabalho do Stoned Jesus soar um pouco mais na manha [risos].

Eu li em algum lugar uma frase em que vocês dizem "Nós não somos o Cheech & Chong". Em que contexto essa declaração surgiu?
Isso parece uma ideia tão automática na cabeça de muita gente. Eles se deparam com o nome e pensam que já sacaram tudo. Eu devo confessar que certa vez vi uma banda no Bandcamp chamada "Stonerider", e quase deixei passar por causa do nome bobo. Por sorte, eles não eram aquela típica banda genérica de stoner rock, eles têm muito estilo para entrarem nessa. Isso faz parte do motivo pelo qual nós usamos essa frase, também. Veja bem, a nossa banda foi nomeada com o intuito de tirar um barato dos clichês do gênero, mas tem gente que entende isso literalmente. Essas pessoas logo imaginam que se trata de um projeto que exalta a maconha, as bongadas, os baseadões, aqueles dois riffs alternados, e não uma abordagem sobre a estranheza dos nossos tempos, letras aprofundadas e melodias bem concebidas que temos buscado criar desde o primeiro dia. Beleza, vai, talvez desde o segundo álbum. Mas você entende o que quero dizer, né? Então, sim, nós somos definitivamente mais do que o título sugere, e corta meu coração topar com alguns comentários no YouTube dizendo coisas como "vim por causa do nome, fiquei por causa da música". Não entrem nessa, pessoal, botamos fé em vocês.

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Quando você montou a banda, imaginou que um dia o rock te levaria a conhecer culturas diferentes?
Eu me lembro de quando os primeiros músicos pularam fora e eu pensei algo como, "beleza, acho que é isso, talvez seja melhor eu voltar a me concentrar no meu trampo de escritório". Mas uma ou duas semanas depois eu já estava praticando com outros dois caras, e o resto é história. Sair em turnê sempre foi a minha maior fantasia, então eu passei cerca de seis meses agilizando os preparativos, disparando e-mails (500 mensagens para cinco shows realizados – muito louco, né?), marcando as datas, descolando van e motorista, acertando as acomodações e tudo mais. Perdemos muita grana naquela turnê, enquanto um sujeito comum provavelmente estaria concentrado no trabalho da firma.
Só que não tinha mais volta depois que perdi o emprego em 2014 (nunca mais arranjei um desde então), e aqui estamos nós agora – nada de sofisticados esquemas promocionais, nada de pagar pra tocar nos lugares durante as turnês, nada de grandes gravadoras (ainda!), apenas amor e dedicação. E, claro, eu posso dizer o mesmo sobre os nossos fãs, são eles que nos fazem chegar nos lugares. Do contrário, nunca tocaríamos em qualquer pico!

O que você leva como aprendizado de vida das experiências em turnê?
A coisa principal que aprendi nas turnês é simples – não seja um idiota. Há pessoas em volta de você que estão trampando, e você precisa demonstrar gratidão por isso. É claro que você passou um tempão na estrada, não toma banho desde o dia anterior, não faz sexo há duas ou três semanas, não conversa com ninguém a não ser os convivas de quem você já está enjoado, mas, qual é. Estamos nessa pela música, não estamos? Então é bom que você vá até lá, meu mano, e dê o seu melhor!

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Vocês já tiveram problemas com os fanáticos religiosos por causa do nome da banda?
Parece que esporadicamente, a cada um ou dois anos, sempre vai aparecer alguém pra encher o saco, mas só enquanto não formos grandes o suficiente para ser percebidos por esses comédias, daí piora. Mas sabe que rolou um negócio na Rússia faz pouco tempo – eles cancelaram Belphegor, Batyushka, Behemoth, e até shows do Marylin Manson por causa dos fanáticos religiosos. Espero que não aconteça nada disso conosco na América do Sul, senão corremos o risco de ser jogados lá de cima da estátua do Cristo, no Rio [risos].

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STONES JESUS NO RIO DE JANEIRO (13/5, sexta)
Teatro Odisseia
Avenida Mem de Sá, 66, Lapa
Line-up: Stoned Jesus e Saturndust
Horário de abertura da casa: 18h (Saturndust, às 19h, e Stoned Jesus, às 20h)
Ingressos: R$ 60 (antecipado), R$ 80 (meia, na hora) e R$ 160 (inteira, na hora. Clique aqui para comprar

STONED JESUS EM SÃO PAULO (14/5, sábado)
Inferno Club
Rua Augusta, 501, Consolação
Line-up: Hierofante, Saturndust e Stoned Jesus
Horário da abertura da casa: 18h (Hierofante, às 19h, Stardust, às 20h, e Stoned Jesus, às 21h)
Ingressos: R$ 60 (antecipado), R$ 80 (meia, na hora) e R$ 160 (inteira, na hora). Clique aqui para comprar

STONED JESUS EM FLORIANÓPOLIS, SC (15/5, domingo)
Célula Showcase
Rodovia João Paulo, 75
Line-up: Cobalt Blue e Stoned Jesus
Horário de abertura da casa: 18h
Ingressos: R$ 40 (promocional/meia entrada do 1 º lote), R$ 80 (inteira do 1º lote). Clique aqui para comprar

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