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Obituary: Há 30 Anos Apodrecendo Lentamente

Com 30 anos de carreira e nove discos lançados, a banda desviou pouquíssimo da abordagem visceral do death metal que cimentou seu status na cena com o lançamento de Slowly We Rot de 1989.

Caso existisse, o curso introdutório ao death metal provavelmente dedicaria boa parte de seu foco pedagógico ao Obituary, de Tampa, na Flórida. Com 30 anos de carreira e nove discos lançados – contando com o que sairá no próximo mês, Inked in Blood – a banda desviou pouquíssimo da abordagem visceral do death metal que cimentou seu status na cena com o lançamento de Slowly We Rot de 1989. Num reino de críticas ao metal que geralmente premia cegamente barulhos feitos de qualquer jeito à guisas de “inovação”, o Obituary simplesmente ateve-se à noção de que se o riff não está quebrado, não tente consertá-lo. Passado algum tempo do lançamento de Slowly We Rot, a banda saiu de cena graciosamente após perder o interesse em tocar por conta de suas turnês incessantes.

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Voltando com tudo em 2005 com o álbum Frozen in Time, o assumidíssimo death metal burro praticado pela banda foi recebido de braços possivelmente decompostos mas um tanto quanto abertos de seus leais fãs e daqueles que recentemente haviam descoberto a importância da banda nos anais da história do death metal, tão vital quanto outros nomes prontamente citados quando o assunto entra em pauta. O lançamento Inked in Blood possivelmente oferecerá a mesma estupidez na forma de riffs e letras de death metal, e o vocalista da banda, John Tardy, parece ainda mais chocado com o desenrolar da história da banda. Fica claro logo de cara, porém, com aquele sotaque típico da Flórida que se ouve do outro lado da linha, que John agiria da mesma forma, independentemente de reconhecimentos e honrarias. Para Tardy, o death metal é mesmo um estilo de vida, um que felizmente nos leva às boas novas de um novo disco do Obituary.

Foto: Loudwire

Noisey: Ao observar a carreira da banda desde Slowly We Rot, de 1989, ao vindouro disco Inked in Blood, você crê que os álbuns são abordados da mesma forma ou há uma estratégia diferente para cada um deles?
John Tardy: Não sei se estratégia é bem a palavra. É difícil comparar sua mentalidade aos 20 anos, época em que fizemos o Slowly We Rot, com a de agora. Claro que aconteceu um monte de coisas e compomos muitas músicas nesse meio tempo. As diferenças só existem por conta do tempo entre um álbum e outro. Não acho que a forma como o abordamos tenha sido realmente diferente. Sempre fomos tranquilões com isso. Não nos esforçamos muito ou pensamos demais no que estamos fazendo. Só nos juntamos, curtimos, fazemos umas jams e o que der, deu. Nossas vidas ficaram bem mais fáceis há uns discos atrás, temos nosso próprio estúdio agora. Ter seu próprio estúdio pra gravar quando bem entender, seja dez da manhã ou da noite, poder gravar por cinco minutos ou três ou quatro horas, estamos nos familiarizando com isso e trabalhando em cima disso. Tem sido foda. Não tivemos pressa pra fazer esse disco, provavelmente trabalhamos em cima dele há quase três anos. Começamos a trabalhar nele em 2011 e compomos um punhado de músicas, daí fizemos alguns shows e isso e aquilo, e quando voltamos a trabalhar no disco, já tinha se passado quase dois anos. Entramos no estúdio mais uma vez e compomos mais tantas músicas. Acho que talvez o processo tenha ajudado, creio que o álbum tem faixas bem diferentes umas das outras. Não é como se você estivesse ouvindo a mesma música dez vezes no disco, acho que isso ajudou um pouco e nos deu tempo pra trabalhar mesmo em cima das músicas. Tocamos algumas ao vivo antes mesmo de gravá-las, e sempre que podemos fazer isso, creio que ajuda de alguma forma, te faz relaxar e pensar bem nas composições. Tem várias coisinhas que influenciaram esse disco a ficar como ficou.

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E por falar em facilidades, o processo em si ficou mais fácil com o passar do tempo? Vocês ainda conseguem entrar em contato com aquela natureza primitiva de quando tinham 19 anos?
Em termos de composição, é fácil. Não é nenhuma dificuldade compormos, nunca compomos nada que não tenhamos gravado. Estamos juntos há tanto tempo, né? Se o Trevor aparece com um ritmo, ele quase sempre para antes que eu ou Don possamos falar “ei, não é bem por aí”; aquilo se vai tão fácil. O que complica mesmo é o lance de gravar você mesmo. Exige muito foco ali no estúdio. Já ao vivo – qualquer um consegue ficar diante de 30.000 pessoas – você tem tanta adrenalina rolando, é bem mais tranquilo. Chego no estúdio e vejo meu irmão e um microfone ali – tentar encontrar aquela emoção, especialmente nesse tipo de música, botar essa energia no estúdio, pra mim, é o maior desafio. Compor é bem massa, nós deixamos que o tempo nos ajude a fazer a coisa funcionar, a parte de composição tem ido muito bem.

No papel de uma banda considerada amplamente como pioneira no death metal, gostaria de saber: como vocês veem a evolução do gênero do começo do Obituary em 1984 até os dias hoje?
Você está falando de 30 anos de mudanças. Uma das maiores foi a internet. Quando estávamos trabalhando em cima do Slowly We Rot, não falávamos com ninguém. Gravávamos umas fitas e era isso aí. O mundo mudou muito nesse sentido. Em termos de música, nós demos sorte. Estávamos no lugar certo e na hora certa. Conhecemos os caras do Savatage e do Nasty Savage que moravam por aqui muito cedo, nos inspirávamos muito no que essas duas bandas pesadaças faziam. E assim que ouvimos os primeiros trampos do Venom e do [Celtic] Frost, aquilo abriu mesmo nossos olhos para o que curtíamos fazer, que era tentar ser o mais pesado possível. Estamos falando de uma banda que não mudou muito ao longo dos anos. Nós meio que estamos presos nessa mesmo, e gostamos de mudar alguma coisinha aqui e ali de um disco para o outro, mas nos mantendo firmes à sonoridade do Obituary com a qual estamos à vontade.

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Vocês se prenderam a uma fórmula e ao gênero ao longo dos anos, bem antes deste ganhar a aclamação crítica e apelo dos últimos tempos. Qual a sua visão sobre a popularidade que a música extrema ganhou nesse período?
Lembro de nossa primeira turnê europeia em 1990, 91, fomos até lá por conta do Cause of Death. Foi foda, as pessoas piravam. Quando ouviam o Slowly We Rot pela primeira vez, abrindo com “Internal Bleeding”, surtavam. Hoje em dia, essa molecada é toda tão rápida e doida e técnica e atirando pra tudo que é lado, são tão diferentes do que nós somos – de um jeito bom também. Nós somos meio neandertais na forma como fazemos as coisas. Aquela primeira turnê foi ótima, e ao longo dos anos tudo deu uma paradinha, mas acho que isso rola em qualquer tipo de música, todos os gêneros passam por isso – o country fica popular, daí aparece outra coisa, é um sobe e desce eterno. Parece que nos últimos tempos a música extrema vem entrando em evidência de novo, especialmente pra nós, os shows têm sido animais, a atenção que temos recebido é bem bacana, é meio que isso que faz a gente seguir em frente. A última coisa que farei é tentar fazer uma turnê e se ninguém quiser nos ver, dá pra entender a mensagem bem rápido. Só tivemos sorte até agora. Não somos o tipo de banda que acha que tem que lançar um disco todo o ano ou a cada tantos anos, como um reloginho. Lançamos o World Demise e demorou um tempo pra sair o Back From the Dead, e mais ainda até sair o Frozen in Time. Mais uma vez, nesse último disco nos demos bem, fizemos um monte de shows, mas rolou a mesma situação de terem passado quatro anos e nada de álbum novo. Esse agora parece estar saindo com um ano de atraso, mas tudo bem, deu certo. Acho que isso é bom de se fazer, tirar uma folguinha e não se esforçar demais, não se sobrecarregar.

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Hoje em dia as pessoas não descobrem mais músicas ao trocar fitas como nós fazíamos no underground, onde você suava a camisa pra encontrar as bandas.
Sim, pode crer! Tinha que convencer a sua mãe a te levar na loja de discos, tinha que caçar o tal disco, aí você chegava e não tava lá. E tinha que convencer sua mãe a voltar no outro final de semana. Você abre o pacote no carro e fica olhando pro disco e quando chega em casa tá morrendo pra ouvir aquilo! Agora você só baixa um álbum de graça, não vê a capa nem o nome das músicas nem nada. É bem diferente.

Como que rolou isso pra você? Quando você para pra pensar no passado e quando começou a curtir música, não só música pesada, mas quando esta arte incrível dialogou com você e te levou a um ponto em que era algo você simplesmente tinha que fazer, quando foi esse momento?
Eu tinha um irmão mais velho que sempre ficava no quarto fumando maconha e curtindo, então eu sempre chegava de mansinho pra ver o que ele estava fazendo. Logo cedo, nós adorávamos ouvir música. Ao ponto de pegar vassouras e brincar de air guitar pulando pra cima e pra baixo. Acho que nunca me liguei que aquilo era algo que eu queria fazer de verdade. Quanto à banda, Donald começou a tocar caixa na banda da escola e aí a gente ouvia Nasty Savage e Savatage em suas garagens enquanto descíamos a rua de bicicleta. E aquilo ali meio que despertou nossa curiosidade. Donald, na época, estava se coçando pra chegar perto de uma bateria e ele não tinha uma, então ia na casa de um amigo pra tocar, o que fez Trevor começar a tocar guitarra. Aliás, ele comprou uma sem saber tocar. Eles começaram a fazer jams e eu ficava ali cantando junto. A gente se divertia demais ao chegar em casa da escola e ir direto pra garagem fazer uns sons, mas nunca pensamos muito em gravar ou lançar um disco ou qualquer coisa além de curtir aquele lance ali. Quando decidimos gravar umas coisinhas em estúdio, duas faixas acabaram saído naquela coletânea lá e aí a Roadrunner ouviu e veio falar com a gente e disseram que queriam lançar um disco nosso e precisavam de mais músicas. Disso aí surgiu o Slowly We Rot e meio que a coisa começou ali mesmo e eu não acredito que ainda estamos tocando. Tem sido uma loucura.

A longevidade de vocês é rara em qualquer gênero, aparentemente. A que vocês atribuem isso?
Cara, é como uma receita básica daquelas, tipo macarrão com almôndega. Não é como se você estivesse tentando reproduzir um puta prato chique. Uma banda é meio que uma receita, você pode gastar toda a grana do mundo pra criá-la e pensar que ela irá ser boa. Não é assim que funciona. É mais um lance do tipo que eu, Donald e Trevor estamos juntos há tanto tempo que somos semelhantes e diferentes o suficiente para continuar mantendo tudo interessante. Ainda nos divertimos fazendo isso. Somos próximos o bastante pra brigar e discutir sobre algo e no outro dia estamos bem de novo e vamos continuar com o que estávamos fazendo. Com certeza ajuda ter um irmão tocando comigo. Ele vem aqui em casa quase todo dia, seis ou sete dias por semana mesmo, sempre estamos zoando e fazendo algo, foi meio assim que rolou o disco dos Tardy Brothers, a gente aqui zoando no estúdio novo, sentamos e tocamos e tocamos e tocamos. É só uma receita daquelas que nem sempre funciona pra gente, mas continua com um gosto bom.

O que o futuro reserva pra vocês após o lançamento daquele que será o nono disco de estúdio do Obituary?
A coisa toda já tá rolando; eu estou bem empolgado e sempre estive desde que começamos a fazer esse disco. Muitas das músicas são muito bacanas, não é só death metal retão. “Visions in my Head” tem tantas partes – tantos altos e baixos que fica animal. Me animo só de ouvir agora. Passamos oito semanas na Europa tocando nesses grandes festivais de verão de lá, é inacreditável de se ver. Temos montado uns sets clássicos – com muita coisa dos três primeiros discos, mas estamos tão animadões com os sons novos que estamos colocando eles no meio também. A galera tem ouvido as músicas novas antes do disco sair. A gente vai lá e toca os sons novos e vemos umas pessoas cantando junto, já ouviram os sons no YouTube ou fizeram seus próprios vídeos. A coisa toda tem ficado bastante forte e inspiradora, isso de ver que o pessoal já conhece as músicas novas. Estamos bem animados mesmo. Temos uma turnê com o Carcass pra rolar nos EUA assim que o disco sair, e depois rola a turnê Death to All e depois uma série de festivais em que iremos tocar, Nicarágua, Pensilvânia, México, mais um monte de lugares, e depois uma turnê europeia nossa mesmo no começo de 2015. Tudo isso pra bombar o novo disco. Depois vamos fazer uma pausa e ver o que acontece.

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Tradução: Thiago “Índio” Silva