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O Novo EP do Dr. Drumah É uma Pedrada de Jazzrap e Afrofuturismo

'Beyond Style vol. 2' traz mais uma seleta fina dos instrumentais desse produtor e baterista baiano que você tem que conhecer.

Todas as fotos por Barbara Falcon

Sob a alcunha de Dr. Drumah, o produtor e baterista Jorge Dubman chega por aqui com seu mais novo EP, Beyond Style vol. 2. Um dos caras mais ativos da música baiana contemporânea, o cara manja como poucos da produção de jazz rap e tem realizado trabalhos com artistas brasileiros e de outras partes do mundo. Segunda parte da trilogia, o novo EP traz mais seis faixas instrumentais ricas, com referências a Sun Ra e outros elementos afrofuturísticos adicionados à atmosfera clássica que já é característica dos seus beats. Dos tambores de lata da infância aos batuques eletrônicos e orgânicos que produz hoje, conheça mais sobre o trabalho do Dr. Drumah e já vai apertando o play nessas pedradas classudas.

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Noisey: Pra começar, apresente esse novo EP que você está lançando.
Dr. Drumah: Esse é o segundo volume do Beyond Style, que é uma trilogia de EPs onde busco essa fusão entre o jazzy e o soulful style, com elementos eletrônicos, synths e levadas “smooth”, criando uma atmosfera um pouco espacial e ao mesmo tempo afrofuturista. Sempre busquei inserir elementos do jazz, ficção científica e um pouco de psicodelia, tanto nos beats, quanto na parte estética desse trabalho.

Como é seu processo de produção?
Escuto muitos discos ao longo do dia, e sempre acho algo interessante para samplear ou me inspirar. Separo algumas dessas músicas e começo o processo de corte de sample, que é onde tudo começa. No meu caso, ele é que me dá toda uma direção pra onde eu devo seguir, se é um som mais “old school”, “boom bap” ou uma coisa mais “future”. Procuro sempre trechos onde tenham o mínimo de instrumento gravado para que eu possa preencher bastante na produção. Depois trabalho em cima desses loops a escrita do beat, porque, como sou baterista, eu mesmo faço minhas batidas e acho que isso facilita porque torno essas batidas um pouco mais orgânicas, entende? Em seguida, vem a parte harmônica, que passa por gravar alguns timbres de teclados como Rhodes, Piano, Synth e a bass line.

Além do jazzrap, quais outras vertentes você identifica que são mais presentes em seu trampo?
Como absorvo muita coisa, fica difícil até citar, mas tem elementos do dub, eletrônica, afrobeat, neo soul, neo jazz e música brasileira. O rap, assim como qualquer outro estilo musical, é livre para que introduza essas vertentes, e assim se tem o “novo”. Se hoje eu faço jazz rap é por conta disso.

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Continua…

Qual foi o primeiro instrumento que você tocou? Como chegou à produção de beats?
Assim como qualquer garoto da periferia de Salvador, comecei tocando lata. Me reunia com os amigos no quintal da casa da minha avó e ficávamos tocando nos galões de tinta tentando reproduzir os sons dos blocos afros (Olodum, Ilê Ayiê, Muzenza). Por volta de 96, 97 tive o primeiro contato com a bateria, daí em diante não parei mais e senti que era isso que eu queria para a minha vida: ser músico. A produção de beats veio em 2008, quando fiz um curso de produção musical pra aprender a mexer em software de produção e tal. Sempre fui pesquisador musical e ficava escutando alguns sons e já imaginando samplear pra produzir um beat. Foi então que dois amigos, o Eduardo Santoz e o Ailton, que já trabalhavam com alguns programas de produção musical, instalaram no meu PC um software de produção e daí em diante não parei mais. Costumo dizer que fui infectado. É como vírus ou droga, sabe? O ouvido sempre atento para o loop.

Você tem trabalhos instrumentais e também em parceria com MCs. Isso é pensado no momento em que você produz ou o processo é o mesmo nos dois casos?
Produzi o EP World Wide Vibes do Mc Marchitect, integrante do grupo The 49ers de Delaware, nos EUA; produzi uma track em cada álbum The Jazzo Street Session Vol. 01 do Mc Glad2Mecha, e o 40 Pounds Of Soul do Mc Melodiq, ambos também dos EUA e de grande importância na cena alternativa de lá. Também produzi uma track no EP Nómada, da espanhola Indee Style; produzi três beats no álbum solo do Mc Gelleia do grupo paulista Primeira Audição; além do EP 2Pra1 em parceria com o Mc Monge, de Belo Horizonte, e tem também uma produção minha no disco do Dialeto Sound Crew de Brasília, entre outros. Esses processos acontecem naturalmente, e quando eu produzo sempre penso em ser uma música instrumental. Como divulgo na internet e o trabalho é exposto ao mundo inteiro então alguns MCs, a maioria de fora do país, entram em contato se interessando pelo trabalho e surgem as parcerias.

E com as baquetas, em quais bandas você trabalha atualmente?
Das bandas atuantes da cena de Salvador hoje, eu acompanho Kalu e a I.F.Á. Afrobeat. Sou um dos fundadores desse projeto que começou em meados de 2012, como um power trio, formado por mim na bateria, Fabricio Mota no baixo e Átila Santtana na guitarra. As primeiras composições foram criadas em encontros semanais num home studio, já tínhamos alguns temas e começamos a ensaiar com o intuito de fazer uma banda mesmo de afrobeat com sopros, percussão, etc. Chamamos o Alexandre Espinheira (percussão) e Prince Áddamo (guitarra). Os outros músicos foram conhecendo o projeto e se interessando em fazer parte, assim hoje somos nove. Este ano ganhamos o Troféu Caymmi de música como banda revelação, e isso foi muito bom porque estamos levantando a bandeira da música instrumental aqui na Bahia, o que para nós é uma grande responsabilidade.

Quais as próximas ações dos projetos em que você está envolvido?
Tenho alguns álbuns e mixtapes para serem lançadas ao longo do ano. A IFÁ este mês vai lançar o EP em parceria com a cantora de Lagos (Nigéria) Okwei V Odili. Trata-se de um projeto em paralelo que nos orgulha muito, pois foi graças à vinda dela pra Salvador em 2013 que juntamos pela primeira vez o núcleo do grupo que existe hoje na banda. E já estamos trabalhando para o início do ano que vem entrar em estúdio pra gravar nosso primeiro disco.

Como você enxerga o momento atual da música baiana? Fala-se em morte da axé music e de um fortalecimento de vertentes mais alternativas, qual sua visão disso?
Sobre a morte da axé music, vejo que esse gênero já vem se arrastando… Acho bem natural em um movimento onde não há uma renovação que aconteça uma crise geral. Com esse “declínio” do axé e sem renovações do mercado, eis que aparece a cena independente com força total, fazendo que esses olhares sejam voltados para esse circuito onde há muito tempo fazemos barulho no “silêncio”. Só agora esse barulho se tornou algo atmosférico. A Bahia tem muito mais que axé music, muito mais! Siga nas redes: Facebook | Bandcamp