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Em Busca de Imagens e Sons Com a Fotógrafa Deborah Feingold

Fazer um retrato de uma pessoa que capture e entregue algo honesto e verdadeiro sobre sua personalidade pode ser difícil. ainda mais se essa pessoa é um artista mundialmente conhecido.
9.10.14

Como fotógrafa sei o quão difícil pode ser fazer um retrato de outra pessoa que capture e entregue algo honesto e verdadeiro sobre sua personalidade. Com alguém que você não conhece pessoalmente, o processo exige atenção à disposição da pessoa e a sua habilidade de se adaptar rapidamente, de forma a fazê-la se sentir o mais confortável possível para que se possa obter a imagem perfeita. Às vezes você tem que tomar as rédeas da situação e direcionar o fotografado, ou, caso tenha sorte, a química entre vocês dois ocorre de forma orgânica. De qualquer forma, seu dever é tirar uma foto que englobe quem é o sujeito em um único quadro.

A fotógrafa Deborah Feingold é mestra nisso. No decorrer das últimas quatro décadas ela vem criando imagens icônicas de políticos renomados, atores e músicos, tendo seu trabalho publicado em impressos como Rolling Stone, The New York Times, e Village Voice, dentre outros. Music, sua primeira antologia de fotos de músicos, conta com retratos intimistas de artistas lendários como Madonna, Prince, Mick Jagger e Brian Eno.

Conversei com Deborah sobre como fazer fotos se assimila a compor músicas, a necessidade de priorizar a fotografia ao invés do sono, e criar belas imagens – independente das condições.

Noisey: Li que seu pai ensinou você a revelar fotos no porão aos 12 anos de idade. Naquela época você já tinha interesse em se tornar uma fotógrafa profissional ou era mais um passatempo?
Deborah: Eu não sabia nem que poderia ser uma profissão! Nasci em 1951 e cresci em Rhode Island. Naquela época, se você tinha um hobby, só curtia ele; não pensava “como posso ganhar dinheiro com isso?”. Você fazia coisas que te dessem prazer e alegria. No meu caso, não vinha de uma família criativa. Era uma família trabalhadora, classe média baixa, então não tive lá muito apoio. Era mais um lance do tipo “faça aulas de digitação e consiga um diploma de licenciatura”. Então cumpri os desejos de meus pais em partes – consegui o diploma – mas nunca aprendi a digitar. Eu sabia que se tivesse aprendido a digitar, não teria nenhuma outra escolha a não ser trabalhar como secretária. Não conhecia muita gente que entrava nessa de artes quando crescia.

Como você saiu da licenciatura pra fotografar músicos regularmente?
Já que eu sempre mexia como fotografia enquanto hobby, trabalhava em uma loja de artigos fotográficos. Em todos os lugares que morei, havia uma câmara escura no meu quarto, e agora acho que não lembro bem das coisas por conta de todos aqueles produtos químicos! [risos]. Levei esse passatempo adiante comigo, nunca consegui imaginar que era algo que poderia ser mesmo uma carreira. Eu sempre estava criando e ensinando às pessoas com oficinas de fotografia, geralmente para quem tinha necessidades especiais. Trabalhei em lares de idosos, acampamentos para jovens, um monte de lugares. Quando ensinava, queria que as pessoas aprendessem a usar a câmera como instrumento para se expressarem. Não era algo lá muito técnico.

Naquela época, ao chegar em casa do trabalho todos os dias, via um homem mexendo em sua caminhonete. Ou ele estava lavando ou consertando-a, mas resumindo: era um jazzista que morava no meu prédio, que tinha uma quedinha por mim e por acaso sempre estava ali às 16h quando eu voltava pra casa. Acabamos nos relacionando, e aquilo meio que deu uma sacudida no meu mundo. Me apaixonei por ele e pelo estilo de vida, a música, eu nunca havia ouvido jazz antes e me encantei com todo o processo de improvisação. Para alguém que cresceu debaixo das asas dos pais, isso era bem diferente. Era algo bem mais colaborativo e me atraía muito. Comecei a fotografar ele e sua banda enquanto tocavam; buscando por fotos da mesma forma que eles buscavam sons ao tocarem. Um romance verdadeiro nasceu ali e acabei me mudando para Nova York com outro músico pelo qual havia me apaixonado. Ele tinha um amigo que estava montando um selo dedicado ao jazz, e pôde excursionar com Chet Baker, e eu pude fazer minha primeira sessão de fotos de verdade com o Chet Baker.

Qual equipamento você usava no início?

A primeira câmera de 35mm que usei foi uma Yashica que meu pai me deu, e então uma Pentax Honeywell. Quando mudei para Nova York, economizei e comprei uma Nikkormat. Pensa numa câmera pesada – era como carregar um carro preso ao pescoço! Era muito pesada mesmo. Por muito tempo só usei uma lente de 50mm e nada de iluminação. Há uma foto do Bono no livro que foi tirada com um refletor prateado e uma lâmpada de 100 watts. Tive que fotografá-lo em meu apartamento e não tinha muita luz lá, mas deu certo! Foi legal aquilo.

Você fotografa em seu apartamento, principalmente?

Sim, a Madonna foi no meu apartamento… Mas tudo que eu tinha em casa era dobrável. Minha cama era dobrável, a mesa da cozinha dobrável, então dava pra deixar tudo bem enroladinho. Ao entrar lá, parecia um estúdio fotográfico pequenininho. Eu meio que me deixei levar – usava o closet como câmara escura – e nunca tive um apartamento só meu até ficar bem mais velha e montar um estúdio separado. A prioridade era fotografar, não importava onde eu dormia.

Em que momento da sua carreira foram feitas estas fotos da Madonna? Você já havia fotografado ela antes?

Era 1982 e eu estava trabalhando para a Musician Magazine. Foi a única vez em que eu tomei a iniciativa para fazer uma sessão de fotos. Perguntei ao pessoal da Musician se poderíamos fazer uma sessão com ela, e eles não deram bola. Então liguei para uma revista chamada Star Hits porque o editor era meu amigo, então perguntei a ele se conseguiria marcar um ensaio com a Madonna e ele respondeu “sim, é claro”.

Ela apareceu com sua assessora, Liz Rosenberg. Não havia maquiadora, nem agente ou estilista. Tinha uma mocinha que me ajudava no estúdio na época. Quando Madonna chegou, demos oi, e fomos logo trabalhar. Usei quatro rolos de filme, e em cada quadro era uma pose diferente. Ambas sabíamos já ter conseguido o que precisávamos, e ela foi embora. Eram duas garotas trabalhando, não teve muita conversa furada: estávamos ali pelo mesmo motivo. Não a dirigi, ela sabia exatamente o que fazer. Se estivéssemos dançando, ela conduziria, mas a acompanhei belamente. Foi muito empolgante. Havia algo de diferente nela – uma aura, um brilho, uma confiança, algo que a diferenciava dos outros. E acho que as pessoas veem isso nas fotos. Como ela era tão confiante àquela altura? Simplesmente é quem ela é, e acho que isso transparece nas imagens, apesar de ser bem no início de sua carreira.

Interessante que você não tenha que ter direcionado ela em nada. Isso é comum com quem você fotografa?

Tento não interferir. O que aprendi é que, ao não dar direcionamento algum, pode-se tornar tudo muito desconfortável, então, às vezes, é um ato de generosidade dizer a alguém o que fazer. Quando a pessoa está ali parada e nada mais, pode ser bem chato. Então vou vendo como vai a situação, tento avaliar qual a necessidade da pessoa.

Al Green.

Você faz um excelente trabalho de captura das personalidades de músicos – por exemplo, o sorriso contagiante de Al Green ou o tom sombrio de Brian Eno. Nestas fotos especificamente, o que você teve que fazer para evocar estas expressões?

Eu nem falei com o Al Green durante aquele ensaio. Foi no decorrer de um ensaio de uma peça da Broadway chamada Your Arm’s Too Short to Box with God em 1982, com a participação de Pattie LaBelle. Eu estava usando uma teleobjetiva, então podia zanzar por aí enquanto eles ensaiavam. A foto em que ele está rindo, nem cheguei perto dele, e na outra, ele parecia olhar direto pra mim.

O que adoro nas fotos do Brian é que, pra mim, ambas refletem sua música. Ele não teve dificuldade nenhuma em só encostar na parede daquele jeito. Não lembro bem, talvez tenha pedido pra ele fazer isso – ou não. De qualquer forma, a foto fazia sentido. Fazia sentido pro tipo de artista que ele era e pra forma que eu gostava de trabalhar. São perfeitas porque são muito musicais pra mim.

Brian Eno.

As fotos de George Clinton me fazem pensar nas do Al Green; elas são tão expressivas, e Clinton está especialmente selvagem ali. Você teve um contato maior com ele do que com Green?

Na época que comecei a fotografar mesmo – final dos anos 1970, começo dos 80 – ninguém pagava fotógrafos pra acompanharem na estrada, então muitas das fotos eram feitas nos escritórios de gravadoras. O desafio que me dei foi dar um jeito de me certificar que ninguém sabia onde eu estava. Muitas vezes levava um backdrop de lona comigo. Muitas destas fotos foram feitas pra Musician Magazine, que era uma revista pequena. Não tínhamos o mesmo acesso que a Rolling Stone, mas claro que isso foi mudando. Meu desafio, e eu sabia bem dele, era “não reclame, garota! Esta é a oportunidade da sua vida. Faça valer” e é como trabalho até hoje. Você pode me largar dentro de um caixote vazio e eu dou um jeito. Não trabalhei com estilistas ou maquiadores durante boa parte da minha carreira. Não há uma equipe afixada junto de minhas sessões, geralmente sou só eu e eles, e, talvez, um repórter.

As fotos com o George [Clinton] destacam-se porque ele tornou tudo tão mais fácil. Tive pouquíssimo trabalho. Estas foram feitas em uma sala de reunião. O local não importa; e sim o que você faz com ele. Sabe como é, limões e limonada. Algo que sempre quis fazer, mas nunca deu muito certo, era tentar fazer uma foto que nunca tinha visto antes.

George Clinton.

Você fotografa há muito tempo e nem consigo imaginar quanto material tem nos seus arquivos. Como foi o processo de edição de seu novo livro, Music?

Foi bem simples, na verdade. As coisas que achei serem impossíveis foram as mais fáceis. A edição foi bem tranquila. Dei uma bela editada e mostrei ao meu querido amigo Matt McGinley, que é umas duas décadas mais novo que eu e me ajuda nas sessões. Ele também é fotógrafo de músicos, trabalhando na maior parte do tempo com rap. Ele editou tudo comigo, junto de outro amigo meu. Matt, aos 30 anos e amante de música, me ajudou bastante retirando as coisas das quais eu não precisava, observando tudo como fotógrafo e entusiasta de música.

Eu temia mesmo era o sequenciamento. De primeira você sequencia as duas imagens que vão juntas, esquerda e direita. Uma mulher que conheço que faz capas de livro e eu juntamos tudo em cinco horas. Algumas semanas depois nós nos reunimos e ordenamos as imagens, o que levou umas três horas. Então entregamos tudo à designer que fez a sua mágica naquilo e ficou perfeito. Eu não podia acreditar que essa seria a parte mais fácil.

Quanto à capa, não teria como ser outra. Não era bem a capa que a editora queria, mas sempre foi essa.

Don Cherry.

Se você é músico, Shriya Samavai talvez queira tirar uma foto sua. Siga-a no Twitter: @shriekeliene

Tradução: Thiago “Índio” Silva