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A Importância da Música em ‘Gilmore Girls’

Como em muitas das maiores obras do cinema, a música e a presença de música na série são cruciais para a trama e para o desenvolvimento das personagens.
12.1.15

Levando em conta que 2014 foi um ano em que muitas novas séries de TV se tornaram assuntos avidamente comentados no grande bebedouro da firma que é a internet (True Detective, The Leftovers), enquanto séries antigas continuaram tendo uma audiência estelar, você pode ficar surpreso com a recente nostalgia em torno de Gilmore Girls na cultura pop. No ano passado, a verdadeira dádiva de Deus aos falantes da língua inglesa com acesso à internet chegou dividida em sete temporadas incríveis, uma cortesia do Netflix. Louvado seja, e adeus produtividade.

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Você acha que eu estou zoando? Não estou mesmo. Quero deixar claro que acho que Gilmore Girls é a melhor série a agraciar a minha televisão, e isso quer dizer que ela bate VÁRIAS. Enquanto os nerds se perdiam pela Terra Média com Bilbo, Bifur, Bofur, Balin e trolls devoradores de homens, eu fugia para Stars Hollow com Lorelai e sua filha Rory Gilmore. Terminando de assistir pela segunda vez a todas as suas aventuras guiadas por hormônios e cheias de referências à cultura pop, não sinto um pingo da vergonha que às vezes me batia quando assistia à série na adolescência.

Como reza a lenda, Lorelai Gilmore veio de uma “boa” família com uma caralhada de dinheiro, focada em status social. Para o desgosto de seus pais, aos 16 anos ela se vê grávida e eventualmente decide abandonar a vida luxuosa dos Gilmore para criar sozinha a sua filha no que é basicamente o galpão de uma pousada. Depois de conseguir emprego como camareira, Lorelai cria a sua filha ali, se mudando eventualmente para uma casa maior depois de ser promovida algumas vezes.

Embora essa fase da vida das garotas seja frequentemente discutida, ela só foi mostrada em uma ocasião, quando Rory mostra o casebre onde cresceu à sua avó Emily, levando-a às lagrimas ao perceber o quão desesperadamente Lorelai queria fugir. No entanto, o público percebe que Lorelai construiu um ambiente incrivelmente estável e cheio de amor para sua filha, evitando o tipo de criação que vemos em 16 and Pregnant. Lorelai preencheu a vida de Rory com referências culturais de um bom gosto incrível, de filmes à comida e de música a livros. A dupla cita diversos artistas e inspirações ao longo da série, uma característica tão essencial que os roteiristas começaram a escrever um livreto para explicar os “Gilmorismos”.

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Quando Rory se forma no colégio, ela agradece à mãe por sua imensa sabedoria:

“Minha mãe nunca me levou a crer que eu não conseguiria fazer qualquer coisa que quisesse ou ser quem eu quisesse ser. Ela encheu nossa casa de amor, diversão, livros e música; incansável em seus esforços em me mostrar exemplos de mulher, de Jane Austen à Eudora Welty, passando por Patti Smith. Não sei se, nesses incríveis 18 anos em que ela tem me acompanhado, ocorreu à ela em algum momento que a pessoa que eu mais queria ser era ela”.

Rory curtindo música ao vivo e angústia ao mesmo tempo. Olhando para trás, ninguém gosta dessa jaqueta de retalhos de couro e jeans com capuz, mas bem, era o início dos anos 2000.

O sensacional de Gilmore Girls é que, de certa forma, tudo é invenção da Lorelai. É claro que, na verdade, as coisas surgiram da mente da criadora e roteirista do programa, Amy Sherman-Palladino, mas me acompanhe aqui: quando Lorelai decide escapar de uma vida repleta de bailes de debutante e opulência excessiva, acaba inventando um mundo totalmente novo para ela em Stars Hollow. Lá, ela e sua filha fazem amigos, formam uma família e constroem vidas aparentemente intocadas pelos horrores e o estresse do mundo exterior. Não podemos diminuir as dificuldades emocionais que as garotas enfrentam, mas elas jamais mencionariam um acontecimento como o 11 de setembro, ocorrido durante o primeiro ou segundo ano de filmagem da série. As garotas escondiam-se em seu próprio mundo, com neve e uma abundância de café, e durante uma hora por semana era possível escapar com elas para dentro desse universo.

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Assim como Rory em seu discurso de formatura, devo agradecer à dupla mãe-e-filha por cada grama do capital cultural que elas me transmitiram. Como em muitas das maiores obras do cinema, a música e a presença de música na série são cruciais para a trama e para o desenvolvimento das personagens. E, é claro, a junção de música e imagens em movimento evoca e acentua emoções. A música continua tão importante para mim quanto era na época em que a série estreou, e tanto quanto era quando eu tinha 10 anos de idade. A seguir, estão alguns dos destaques musicais da fantástica trajetória de Gilmore Girls.

CAROLE KING E SAM PHILLIPS

Amy Sherman-Palladino e seu marido queriam que o programa tivesse um som próprio e, por isso, deram grande importância à música-tema e à trilha sonora da série. Carole King gravou uma nova versão para a sua canção de 1971, “Where You Lead”, com a participação de sua filha, Louise Goffin. Essa foi a música-tema durante todas as sete temporadas, e King chegou a fazer uma participação especial na série.

O cantor e compositor Sam Phillips escreveu os famosos e marcantes “la las” que são parte considerável da trilha sonora da série (ouça aqui, caso você não conheça). Em uma entrevista concedida cerca de quatro anos atrás, Sherman-Palladino afirmou: “O lance é que a música de Sam parecia sair da cabeça das garotas. Parecia haver uma conexão real… Não sei o que os outros acham, nem dou a mínima para os outros, mas para mim parecia que música era uma extensão dos pensamentos delas. E se elas tivessem uma música na cabeça durante algum momento difícil da vida, se elas fossem pessoas de verdade, essa seria a música. E acho que isso foi o que elevou o programa”.

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Embora alguém pudesse pensar que suaves “la las” emburreceriam as personagens principais se tomados como uma representação de seus pensamentos mais íntimos, na verdade, eles representam bem as ideias despreocupadas que as personagens têm enquanto caminham pela cidade. Para mim, ser apresentado à King trouxe curiosidade em relação à música dos anos 60, o que acabou por me levar ao Woodstock de 1969 e todo o seu amor livre e fantástica beleza musical. Phillips fez de mim um conhecedor de trilhas sonoras de cinema e TV, me ensinando a compreender os sutis elementos sonoros sobrepostos a trilhas mais óbvias.

TER UM GOSTO MUSICAL ECLÉTICO É LEGAL

Quando Rory vai para Chilton, a escola metida a besta que vai ter que aturar por quatro anos para poder concretizar seu sonho de estudar em Harvard, ela sente dificuldade em fazer amigos. Talvez dificuldade não seja a palavra exata, porque ela parece confortável em seu isolamento com livros, música e sanduíches sem a melhor das aparências para o almoço. Em uma dessas cenas, Rory aparece sentada sozinha em uma lanchonete ouvindo “Know Your Onion!” do The Shins – e isso foi anos antes de Hora de Voltar dar sucesso comercial à banda, então Rory ganha pontos extra por conhecê-los antes das massas.

No geral, o gosto musical de Rory é um pouco mais atual do que o de sua mãe. Ao longo da série, ela mostra sua admiração pelo Sonic Youth, Franz Ferdinand e Belle and Sebastian. Já Lorelai foca mais em bandas dos anos 80, década em que entrou na adolescência. Sua lista inclui XTC, The Go-Go’s e The Bangles. Esta última é a banda cujo show Lorelai e sua melhor amiga Sookie (Melissa McCarthy) levam Rory, junto com uma colega de classe, para assistir em Nova York. Algumas de minhas músicas prediletas citadas no programa são “99 Luft Balloons”, da Nena, “My Darling”, do Wilco e “Tiny Cities Made of Ashes”, do Modest Mouse. Em suma, as garotas eram hipsters antes do hipster do novo milênio surgir por um canal vaginal forrado com flanela.

BONECO DE NEVE DA BJÖRK

Enquanto que seus gostos musicais costumavam ser afinados e apaixonados, as garotas Gilmore frequentemente expressavam admiração por uma seleção de artistas notavelmente diversa. A segunda temporada gira em torno da aceitação de Lorelai à proposta de casamento que Max lhe faz, apresentando ao público uma versão da personagem que parece estar prestes a abandonar os problemas de mãe solteira, o que havia sido a premissa da série. Analogamente, Rory continua voando por Stars Hollow ao lado de Dean, o galã da cidade. O relacionamento dos dois é incrivelmente inocente e inócuo. Rory, aos 17 anos, parece um comercial da Neutrogena voltado para evangélicos. Mas, como o desenvolvimento da série é semelhante às irmandades de Mr. Roger’s Neighbourhood, Amy Sherman-Palladino não deixa o drama acabar aí, fazendo as moças ficarem bastante confusas em relação aos seus interesses românticos.

O décimo episódio da temporada começa com Lorelai e Rory curtindo o idílico inverno de sua cidade, participando de uma competição de melhor boneco de neve. Atipicamente, as meninas fazem seu boneco inspiradas na Björk. Um babaca qualquer está tentando aparecer, usando uma máquina para polir sua escultura, fazendo com que a família Gilmore coloque fé e empenho na sua modesta construção. No fim, a cabeça do boneco feito pelas garotas cai no chão. Apesar da ideia de neve e Islândia (o país natal da cantora, dã) combinarem, o gosto das personagens pela excêntrica cantora é inesperado.

O episódio termina com Rory e Lorelai levando um trenó puxado por cavalos para casa, com “Human Behaviour”, da artista em questão, tocando ao fundo. Minha memória do que a internet era capaz no início dos anos 2000 me falha, mas ainda assim, garanto que fiz o equivalente a uma maratona de Björk no YouTube.

KORN = ASSUSTADOR

Lorelai “Trix” Gilmore, a quem os fãs frequentemente chamam de “Terceira Lorelai”, aparece pela primeira vez no episódio 18, dificultando as coisas ao incluir mais uma relação disfuncional entre duas mulheres no enredo. Como mãe de Richard, o desprezo de Trix por sua nora Emily (mãe de Lorelai) é evidente e intenso, minimizando as dificuldades que Emily tem com sua filha de espírito livre. Após apresentar Emily Gilmore como rainha da inflexibilidade e superficialidade, os roteiristas da série fazem Trix ganhar o trono.

A mãe de Richard ganha muitos pontos no quesito vilã ao dizer a seu filho que ela não veio à cidade para o seu aniversário, e sim para cuidar de negócios. Ela andou alugando sua casa em Hartfort para uma banda que ela sabe vagamente se chamar Korn. Sinceramente, não sei praticamente nada sobre esses caras, tirando as minhas crenças pessoais de eles serem aterrorizantes, do nü metal ser assustador e do sujeito à direita parecer um James Franco com dreadlocks que irá me assombrar pra sempre. Trix os relembra da seguinte forma: “Eles eram bons inquilinos. Cuidavam muito bem do imóvel. Plantaram umas tulipas lindas no jardim na frente da casa”. Ela não dá a mínima para a imagem ou reputação do Korn, o que a torna ainda mais assombrosa.

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LANE KIM, CLARO

Mesmo tendo muito com o que competir, Lane é possivelmente o que há de mais hardcore em Stars Hollow, além de ser melhor amiga de Rory. Filha de uma coreana extremamente religiosa e intoleravelmente rígida, Lane é uma ardorosa entusiasta do rock and roll presa no corpo de uma adolescente que raramente recebe permissão para sair de casa.

Lane se esconde no guarda-roupa para ouvir seu toca-discos, paga o dono de uma loja de instrumentos musicais para que ele a deixe praticar bateria em seu estabelecimento e faz com que Rory crie conferências telefônicas quando ela deseja conversar sobre meninos (para a Sra. Kim não ouvir a conversa). Quando faz uma lista de suas bandas favoritas para seu anúncio de “baterista-procura-banda-de-rock”, Lane acaba usando três páginas com espaço simples. O nome da banda é Hep Alien (anagrama do nome da produtora da série, Helen Pai), e eles fizeram uma pequena reunião em outubro passado.

Como regra, sua criação rígida tornaria a amizade com Rory e Lorelai difícil, mas a música cria um laço e uma ponte entre essas duas jovens não-conformistas.

Além disso, o primeiro beijo de Lane e Dave Rygalski (interpretado por Adam Brody) é ao som de “The Man Who Sold the World”, do David Bowie, faixa diametralmente oposta aos supramencionados “la las” que tocavam durante os encontros românticos de Rory. Lane não é uma Gilmore, e esse angustiado contraste se estende por toda a série. Eventualmente, Lane se muda para um apartamento com sua esforçada banda – só de garotos – enquanto Rory ruma para um futuro de prestígio em Yale. De um jeito muito Gilmore Girls, os criadores da série trouxeram Sebastian Bach, do Skid Row (foto abaixo), para substituir o guitarrista Dave quando Brody deixou a série para gravar The O.C.

LORELAI CHAMA SEU CACHORRO DE PAUL ANKA

Durante a sexta temporada, Rory e Lorelai têm uma briga de proporções inéditas quando Rory é presa por roubar um iate (mas também, né) e resolve largar Yale, achando que não nasceu pra isso. Depois que Lorelai a avisa de que está cometendo um erro grave, Rory vai morar com os avós e mantém pouquíssimo contato com a mãe. Em uma aberta tentativa de substituir a filha distante, Lorelai adota um cachorro e lhe dá o nome de Paul Anka, em homenagem ao cantor e ator canadense.

A canção “Lonely Boy”, de Anka, chegou ao topo das paradas em 1959.

De fato, Anka faz uma participação especial como ele mesmo na sétima temporada da série. Apesar de ser apenas um cão, Paul Anka tem um papel importante na reta final de Gilmore Girls. Lorelai frequentemente o trata como um segundo filho, tolerando seus comportamentos peculiares (e que, de certa forma, refletem suas próprias idiossincrasias) como medo de ataduras, CDs e molduras.

Em cada temporada da série, vemos as garotas usarem suas línguas afiadas, bem como uma perspicácia temperamental e culturalmente sintonizada, esfregando em nossas caras que não sabemos porra nenhuma sobre cinema, celebridades, escritores e, é claro, música. As garotas estavam à frente do seu tempo e, simultaneamente, gostavam de bandas cujas carreiras na música pop já haviam se esgotado. Tinha muita música de mãe, claro, mas ainda assim era legal. Então, se você nunca assistiu à Gilmore Girls, se jogue nestas sete temporadas: a série continua sendo gloriosamente relevante, mesmo quase uma década depois de seu fim.

Mathias Rosenzweig dedicou muitas semanas de sua vida à Gilmore Girls e não tem vergonha disso. Ele está no Twitter.

Tradução: Fernanda Botta