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Em Memória de Arturo Vega, o “Quinto Ramone” e Meu Ex-Colega de Quarto

Passei três meses morando com o artista que criou o icônico logo dos Ramones.

Tenho pensado muito em Arturo Vega recentemente. Talvez tenha algo a ver com o segundo aniversário de sua morte ou o fato de que há pouco fui à sua exposição póstuma, American Treasure, na Howl! Happening, mas por algum motivo não consigo tirar seu rosto simpático e sua natureza gentil de minha cabeça. Se você não está familiarizado com Vega, ele era conhecido como o “quinto Ramone” e por um bom motivo. Ele não só criou o icônico logo da banda, mas também essencialmente bolou a ideia de camisas de shows nos anos 70, quando as bandas distribuíam uns panfletos parecidos com o que se compra em eventos esportivos em vez de peças de roupa. (Tudo isto é relatado em um episódio de meu podcast “Going Off Track”, feito com Vega e sua colega de quarto, Lisa Brownlee, em 2012.)

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Vega também foi o diretor de iluminação dos Ramones e só não esteve presente em dois dos seus mais de 2.200 shows (uma vez porque estava na cadeia). Ele se mudou para um loft na East 2nd and Bowery no final de 1973, enquanto ele ainda estava sendo construído, e logo conheceu Dee Dee Ramone, que saía com uma moça que era vizinha de cima e curtia a música que Vega – que havia se mudado do México para a Califórnia e então East Village – tocava e mencionou que estava começando uma banda chamada Ramones. O resto é história. Ao longo dos anos, o loft serviu como local de ensaio, estação de impressão e design, quartel-general de merchandising e até mesmo abrigou Dee Dee e Joey Ramone por uns anos ao longo da estadia de quase quatro décadas de Vega ali.

Como a maioria das pessoas que se muda para Nova York, eu não tinha estabilidade alguma em termos de moradia, e depois de terminar com minha namorada no East Village, acabei me mudando três vezes em 2012. Depois de ser despejado de um puta loft em South Williamsburg no fim do ano em circunstâncias bizarras (o fato de ter rolado uma festa com 150 pessoas, incluindo os tiras, e com nego mijando na escadaria não deve ter ajudado), me vi sublocando o quarto de Lisa Brownlee enquanto ela caía na estrada trampando com a Warped Tour por uns meses. Havia encontrado Vega algumas vezes ali no loft, mas não nos conhecemos bem até ter me mudado para dentro do quarto dela, decorado com facas e demais armas cobertas de joias, com um número de posses tão pequeno que cabiam em um táxi comum.

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O espaço em si era em parte apartamento, em parte ateliê e em parte museu dos Ramones. Contava com janelas gigantescas pra frente do CBGB e era coberto com fotos da banda curtindo ali nos anos 70, além de muitas obras de Dee Dee Ramone e peças de Vega – como seus quadros de moedas de dólar e suásticas fluorescentes, que inclusive admito terem me deixado meio boladão até que ele me explicou o significado daquilo e como as cores representavam a loucura criada pelo homem. Além disso, o lugar estava cheio de chifres de rena, livros dos Ramones, artigos de merchandising como pranchas de surfe e skates e trocentas outras peças de arte de valor inestimável as quais constantemente temia esbarrar e derrubar e quebrar na calada da noite. Meu bem mais precioso na época era minha esteira de yoga da Manduka. (Sendo sincero, essa esteira é tipo o Rolls Royce das esteiras.)

O espaço também funcionava como ateliê de Vega (apesar de ele possuir outro em sua cidade natal, Chihuahua, no México, onde também passava bastante tempo), o que na teoria parece excelente, mas na prática era complicado quando eu tentava fazer uma saladinha enquanto o pequeno batalhão de assistentes de Vega lavava latas de tinta na pia. Ainda assim, era um pequeno preço a se pagar para morar em um local histórico e ter acesso irrestrito a Vega – e no papel de jornalista musical, sempre o bombardeava com perguntas sobre sua arte, a banda e o punhado de shows dos Ramones que vi quando era moleque, incluindo quando eles foram co-headliners junto com o White Zombie em 1995, quando eu ainda não nem tinha idade para ir de carro aos shows.

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Vega passava muito tempo fora da cidade em exposições por todo o país e eu ficava responsável por seu cachorro, algo que não foi expressado diretamente a mim antes de me mudar e que me deixava meio desconfortável por não ser acostumado com cães. Era tranquilo, tirando a vez que o bicho ficou meio ruim e vomitou, então liguei para um dos vizinhos de Arturo que jurava que minha energia tinha adoentado o cachorro e que eu “não sabia como amar nada”. Essa era a outra parte bizarra de morar ali; parecia que todo mundo do East Village tinha as chaves do lugar e chegaria em horários nada a ver sem avisar. Mas no final das contas acabei fazendo amizade com muitas dessas pessoas (incluindo o avaliador psicológico mencionado anteriormente) e com certeza era uma galera que nunca teria conhecido em meio ao meu círculo de amigos.

Os Ramones tocando no loft em 1975

Quanto ao Arturo, ele era uma das pessoas mais sinceras e gentis com as quais pude conviver e eu sabia que se lhe perguntasse algo, ele me responderia na lata, independentemente se eu queria isso ou não. Fora isso, era uma das pessoas mais saudáveis que já conheci, que além de ir à academia todo dia mesmo aos 60 e poucos anos, parecia viver à base de shakes de proteína que batia diariamente. (Infelizmente, por outro lado, eu desenvolvi um ciclo vicioso de fazer todas as minhas refeições na loja de conveniência da esquina e parecia que tinha ganho na loteria toda vez que chegava lá cedo o bastante pra pegar um wrap de peru antes que acabassem. Acredite se quiser, mas eu também estava solteiro na época.)

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Diferentemente de minhas situações de moradia anteriores, sabia que meu tempo ali era limitado e após três meses, já havia feito os preparativos para morar com um amigo em Greenpoint. Fazer as malas demorou tipo meia hora e mais uma vez chamei um táxi na rua com minhas possessões temporárias (minha mobília e demais itens estavam guardados em outro lugar) e lá fui eu. Mas ainda lembro da última vez que vi Arturo. Uns meses depois da mudança, percebi que não achava um de meus pôsteres favoritos, de uma série limitada de Portlandia inspirada em Battlestar Galactica que minha irmã Vanessa havia me dado quando participei do programa. Mandei um e-mail pra Arturo, que me respondeu logo e disse que podia passar no apartamento para buscá-lo.

Na maior parte do tempo sou um procrastinador, mas por algum motivo senti aquela necessidade de fazer isso logo. No outro dia fui até o loft e conversamos um pouco tomando água mesmo enquanto ele botava pra rolar uma de suas bandas favoritas, The Moody Blues. Conversamos sobre o que andávamos fazendo e o cara irradiava quando me mostrou um mural enorme quase completo que mostrava Jesus rodeado pela frase “Life Isn’t Tragic, Love Is Just Being Ignored” [A vida não é trágica, o amor só está sendo ignorado]. Tiramos uma foto juntos e não muito depois recebi a notícia de que Arturo havia adoecido e morrido subitamente. No dia de sua morte, íamos gravar um podcast no Union Hall dedicado à sua memória, e segue como um de meus maiores arrependimentos não termos gravado outro podcast com Arturo para registrarmos mais de suas histórias para a posteridade.

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No final das contas, Vega sempre estava focado em seu trabalho. Enquanto escrevia este artigo, esbarrei no último e-mail que recebi dele em março de 2013, alguns meses antes de seu falecimento, em que dizia: “Ei Jonah, acho que isso vai ser outra maratona para terminar o que tenho que fazer antes de ir para Chih, melhor adiar pra quando eu voltar”. Acho que essa mensagem representa, de alguma forma, quem era Vega. Sua obstinação em espalhar a mensagem do amor o motivou por décadas após ter criado o mais reconhecido – e pirateado – logo não só da cena punk, mas do rock em geral.

Passei no loft ontem para prestar minhas homenagens, como faço de tempos em tempos. Por mais que haja uma plaquinha com o logo dos Ramones escrito “Arturo Vega 1948-2013” logo acima da porta se você olhar com atenção, hoje em dia, esta meca do punk rock (que muitos acreditavam ser assombrada pelo fantasma de Dee Dee) agora é igual a qualquer outra residência na região – e como quase tudo que há de icônico no East Village, virou local de apartamentos caríssimos que são a antítese de tudo que o lugar representava. Mas em vez de lamentar a forma como a vizinhança mudou e o CBGB virou uma loja John Varvatos onde a maioria de nós não conseguiria nem comprar umas meias, acho que Arturo gostaria que nos lembrássemos com carinho o que o loft representava, o tempo e história do qual fazia parte, e porque sua arte e a música dos Ramones exerceram um efeito em tanta gente, ultrapassando barreiras de idade, gênero ou nacionalidade.

Siga Jonah Bayer no Twitter - @mynameisjonah

Tradução: Thiago “Índio” Silva