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Tim Hecker Capta a Onda Khora

Autoproclamado "pintor de sons", Tim Hecker diz movimentar os sons "como se trabalhasse com materiais plásticos".

Autoproclamado "pintor de sons", Tim Hecker diz movimentar os sons "como se trabalhasse com materiais plásticos". O prestigiado demônio do ambient/noise, compositor de discos premiados e muito elogiados como Rave Death, 1972 e Harmony in Ultraviolet, está acostumado a tocar em igrejas e catedrais, mas, na noite da última quinta (2), estava tocando na Art Gallery de Ontário, num show que faz parte da série First Thursdays que rola por lá.

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Ele descreve seu show como um "massacre" sônico, tocado num "volume tal que as pessoas ficam incapacitadas de conversar ou se distraírem. É uma experiência diferente de quando você ouve no fone de ouvido, ou de quando está num shopping com música ambiente. É um massacre mesmo. Você tem que fazer o esforço deliberado de ir até lá e se submeter"

O público é espancado pelo som. É bem impressionante que, apesar disso, Hecker consiga captar o que ele chama de "onda khora" e ler o público. "Dá para sentir quando não há energia, ou quando as pessoas não estão concentradas. Tem algum tipo de onda khora que eu consigo captar. Não dá pra ver o público, mas é possível perceber quando a coisa não está funcionando para as pessoas, porque você pode ver o brilho imbecil delas dedando os smartphones".

Mas, desta vez, Hecker experimenta algo novo. Em vez de tocar envolto por névoa e trevas, como está acostumado a fazer, toca ao vivo uma trilha para um filme mudo francês de 1913. Já que o verdadeiro show é a música de Hecker, ele toma algumas liberdades criativas na exibição, criando mais uma instalação sonora do que um filme normal.

"Vou tentar diminuir a intensidade do projetor, de modo que a imagem mal fique visível, e se possível distorcê-la também. O som costuma ser secundário em relação ao que é visual, então vou tentar inverter isso. Quero que a coisa seja mais focada na força sonora e na fisicalidade da experiência sensorial". O ataque sonoro que é marca registrada de Hecker contrasta com seus novos shows em Los Angeles, onde ele está "numa fase meditativa, um intervalo entre trabalhar em novos discos, trabalhando devagar, sem um objetivo e sem alegria". Saca? É tipo "quando as coisas começam a se calcificar em uma estrutura que não pode ser modificada", diz ele.

Quando perguntado se o novo ambiente afetou seu humor e o fez entrar numa fase "alegre", é difícil saber se ele está brincando quando diz que talvez trabalhe com "paletas mais claras" do que se estivesse em Berlim, onde poderia usar estruturas melódicas semelhantes, mas talvez usasse um filtro passa-baixa na música para torná-la mais "distorcida". O ambiente parece ser uma questão irrelevante para Hecker, que rebate: "conheço um monte de góticos que vivem nos lugares mais tropicais do mundo e fazem a música mais deprê possível, mas também conheço gente que vive nos lugares mais deprimentes e faz a música mais livre e luminosa possível".

Jesse Ship é um escritor que mora em Toronto -@jesse_ship

Tradução: Marcio Stockler