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Conversamos com o Diretor do Clipe do Bear's Den, que Filmou as Consequências Devastadoras de um Atentado numa Universidade em Seattle

O diretor Marcus Haney estava trabalhando num clipe belo para o Bear's Den e tudo corria bem, quando um atirador invadiu um campus em Seattle e matou seu amigo de 19 anos. Como prosseguir?

A vida tem uma tendência a acontecer de acordo com os planos. Você vai para o trabalho, come, bebe, agenda coisas no seu iCal, comparece nos horários marcados. Daí, de vez em quando, algo de tão inesperado acontece que você é obrigado a abandonar todos os seus planos. É obrigado a tomar decisões imensas, de grande importância, no calor do momento.

No início de junho de 2014, o diretor Marcus Haney estava fazendo um clipe para a banda de seu amigo, Bear's Den – um negócio meio folk, bem pra tocar no rádio. Ele chegou a Seattle para filmar os amigos de seu irmão no final do período, na Seattle Pacific University. Eram um bando de garotos que tiveram uma educação conservadora e cristã, mas que pela primeira vez descobriam a liberdade de questionar seus pais e professores, e explorar eles mesmos o mundo.

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A filmagem, no início, transcorreu de acordo com os planos. Eles dirigiram motocicletas, foram até a mata, fumaram, beberam cervejas, fizeram fogueiras e umas tatuagens caseiras. As filmagens saíram lindas, e todos estavam se divertindo. Parecia cool.

Mas no meio dos quatro dias em que Marcus filmou, um atirador solitário, Aaron Ybarra, atacou o campus da SPU em que viviam o irmão de Marcus e seus amigos, matando o amigo Paul Lee, de 19 anos, e ferindo outros dois. A alegria exuberante que Marcus planejara documentar transformou-se em aflição e medo, numa escala que ele jamais testemunhara.

Naquele momento havia uma escolha a ser feita: Marcus abriria mão da filmagem ou continuaria a gravar o desenrolar dos acontecimentos?

Conversamos com ele para descobrir o que aconteceu em seguida, e como foi que tomou aquelas decisões.

Noisey: Você obviamente foi surpreendido pelos acontecimentos. Mas e antes da filmagem, qual era a premissa original do clipe?
Marcus:Para ser sincero, odeio fazer clipes. Mas ouvi a música e me apaixonei por ela, então tive que me decidir. Conheço o Bear's Den, e eles têm uma imagem meio que "família", Mumfordesca, então eu queria fazer uma coisa diferente mesmo, inesperada.

Eu conhecia um grupo de pessoas através do meu irmão. Eles estavam nessa universidade conservadora, todos vindo de famílias muito conservadoras. Meio que estão naquela fase delicada da vida em que tentam descobrir as coisas sozinhos, e percebem que nem tudo que os pais – ou a igreja – disseram para eles é necessariamente verdade. Me senti realmente fascinado por eles, então os coloquei no meu clipe.

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E que plano as filmagens seguiriam depois de iniciadas?
Bom, aqui estão eles, nessa faculdade cristã de extrema direita, e estão questionando tudo: fumando, bebendo, tentando descobrir o que o certo e o errado significam para eles. Então minha ideia foi filmá-los sendo eles mesmos, fazendo as coisas que fazem normalmente, com os amigos, só isso. Ir à cachoeira, andar de skate, passeios na floresta – a ideia por trás disso sendo que a atitude genuína do grupo inevitavelmente apareceria. Eles não são hipsters enlatados, pré-fabricados. São pessoas de verdade.

Você estava lá para fazer um clipe, não um documentário. Por que decidiu continuar filmando?
Na verdade, deixei a decisão para os participantes. Eles quiseram que eu continuasse filmando. Mas o tempo inteiro foi simplesmente uma situação muito difícil. Num certo sentido, eu sentia que gravar aquelas coisas extremamente reais era de algum modo importante, tinha valor. E suponho que estivesse ciente também do fato de que ninguém baseou um clipe em algo assim antes, o que é, suponho, pelo menos alguma coisa. Ao mesmo tempo, porém, senti que estava explorando a coisa, ao fazer um clipe baseado no que aconteceu. E não se tratavam de desconhecidos – eram o meu irmão e os amigos dele. Foi custoso achar um ponto de equilíbrio.

Como foi naquela noite, quando as pessoas estavam sendo informadas do atentado?
Durante aquele fim de semana depois do atentado fiquei no dormitório de Paul, onde estavam todos os amigos dele. Na noite anterior à divulgação dos nomes das vítimas, um garoto do dormitório tirou o colchão do beliche e o colocou na frente do elevador, no corredor. A ideia era que, se a porta do elevador abrisse e de lá saísse Paul, ele seria o primeiro a saber. Logo outro garoto fez a mesma coisa, depois outro, e mais outro, até que cerca de 60 garotos – o andar inteiro – estavam dormindo, ou tentando dormir pelo menos, juntos no corredor, esperando a volta de Paul. A imagem daqueles mais ou menos 60 colchões é uma coisa que… não sei… foi literalmente uma das coisas mais arrepiantes… basicamente, fez com que a situação toda ficasse muito real para mim.

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As pessoas tinham esperança de que ele simplesmente apareceria?
Quer dizer, acho que naquela noite os meninos sabiam que tinha sido Paul o baleado. Mas acho que não podiam admitir para si mesmos antes que fosse, tipo, oficial. Quer dizer, até logo antes de anunciarem os nomes circulavam rumores de que, por exemplo, Paul estava pescando na hora dos tiros, e debates intermináveis sobre as cenas mostradas no noticiário, do saco plástico com o cadáver sendo levado para a ambulância. Eles ficavam tipo: "aquilo são os calçados do Paul? Mas ele nunca que usaria essa coisa!".

Por que você acha que os voluntários quiseram continuar sendo filmados depois do atentado?
Bom, as coisas que a gente estava filmando meio que se transformaram numa válvula de escape para os garotos. Era meio como se eles estivessem lidando com a situação na frente das câmeras, liberando muitas de suas ansiedades – por exemplo, na cena em que os pratos são quebrados. Todas as reações dos garotos que você vê no vídeo são reais. Eles me disseram que a coisa os ajudou a lidar com o que estava acontecendo.

Duas coisas me preocupavam: tratar com justiça uma banda pequena que não tinha dinheiro para bancar um outro clipe, e fazer algo que fosse respeitoso para com a família de Paul – e que, é claro, também tratasse com justiça o próprio Paul. Quer dizer, meu irmão e eu tivemos conversas intermináveis sobre o que deveria entrar no clipe o que deveria ficar de fora dele.

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E no final das contas como foi o processo decisório do que seria apropriado incluir, e do que seria imprudente?
Foi tudo na edição. Por exemplo, certa vez a gente estava filmando o skatista que aparece no clipe, ele passando de skate pelo lugar do memorial com as flores. E aconteceu que um monte dos amigos do skatista estavam lá, todos chorando e se abraçando. Tínhamos três câmeras rodando, então decidimos filmar.

Mas, quando fomos editar o promo, a filmagem simplesmente não funcionou bem. Um clipe não fornece contexto, e a imagem de um bando de caras bastante durões desabando por completo precisava, ou melhor, merecia, um contexto. E privada desse contexto, parecia apenas sentimentalismo barato.

Além do mais, é preciso lembrar que dois dos três cinegrafistas eram voluntários da própria universidade, gente que conhecia Paul. Portanto, durante as filmagens, os caras por trás das câmeras estão desabando também.

O que aconteceu quando você foi embora?
Bom, termina a filmagem, e no dia seguinte meu irmão está me deixando no aeroporto para que eu volte para LA. Então ele vira para mim e diz: "eu não tinha certeza se devia te contar isso". E ele me conta que, no dia da filmagem, ele tinha hora marcada para estar no saguão daquele edifício no exato momento do ocorrido, vendendo anuários por duas horas, exatamente no mesmo lugar do saguão em que a coisa aconteceu. E o único motivo de ele não ter estado lá, vendendo os anuários, é que tinha saído mais cedo, sabendo que naquele dia me pegaria no aeroporto para a filmagem. E a ironia é que, de qualquer modo, a filmagem depois foi adiada por uma semana.

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Caralho.
Pois é. Quando ouvi isso, todas as emoções que eu vinha reprimindo durante aquele fim de semana pesado simplesmente vieram à tona.

Foi difícil mais tarde, quando você teve que editar a filmagem?
Acho que senti apenas um enorme senso de responsabilidade, de simplesmente fazer o clipe e fazer direito.

Uma das coisas mais marcantes do vídeo é que, quando acontece o atentado, no meio dele, as reações das pessoas continuam a ser intercaladas com cenas de várias outras coisas acontecendo em suas vidas. Você não transformou o atentado no tema do clipe.
Bom, nós nunca quisemos que fosse um clipe sobre o atentado. Meu plano sempre foi dedicar o mesmo tempo de tela ao acontecido e às outras coisas, o que pensamos que poderia emprestar, ao que era uma situação completamente extraordinária, uma sensação sinistra de normalidade, se é que isso faz sentido. Queríamos mostrar o "cotidiano", de modo a passar a ideia de que a vida continua.

A fundação Paul Lee ajuda pessoas que estão enfrentando problemas de saúde mental e emocional. Você pode saber mais e fazer uma doação aqui.

Tradução: Marcio Stockler