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Entrevistamos os Crust Punk Niilistas de Volta Redonda Chamados Deaf Kids

Nem só de São Paulo e Rio vivem os filões mais abrasivos e barulhentos do ritmo que entendemos como rock.
7.10.13

Nem só de São Paulo e Rio vivem os filões mais abrasivos e barulhentos do ritmo que entendemos como rock. Aliás, dá até para arriscar uma generalizada aqui e dizer que é justamente de onde menos se espera que aparecem as coisas mais interessantes, os oddballs.

O Deaf Kids pode ser tomado como um exemplo dessa fraquíssima teoria. Desde 2011 a banda é presença certa nos melhores festivais e picos punks Brasil à fora. A banda, fora dos palcos, é o one man band do Douglas (ou Dovglas, na grafia trve metal), um jovem de 20 anos de Volta Redonda que pira em crust, punk, hardcore, odeia o capitalismo e é um pouco misantropo, aparentemente. Quando rola apresentação ao vivo, Dovglas convida dois bróders para a porradaria, o Angu (baixo) e o enloquecido black power Mariano (bateria).

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A última vez que vi esse trio tocando foi no show de lançamento do Humo, do Noala, há uns dias atrás na Trackers. O que esses caras fazem é impressionante. Uma mistura intensa de punk rock/hardcore violentão, com uns timbres cavernosos de guitarra e baixo. Por mais que o Dovglas negue na entrevista a seguir, eu fico aqui me perguntando se na calada da noite ele não ouve escondidinho um Darkthrone e Hellhammer. Seja assim ou não, o show dos caras é um monstro de pura energia e violência sônica. É imperdível.

Para jogar luz sobre esse e outros assuntos -- na real eu não consegui achar pela internet alguma boa entrevista com os caras --, mandei trocentas perguntas para o Dovglas por email, e a íntegra do papo segue abaixo.

Ilustre a leitura ao som dessas duas músicas que o Deaf Kids acabou de lançar na web e que farão parte do primeiro álbum full-length deles, o The Upper Hand.

Quem é o Deaf Kids?
O Deaf Kids sou eu, Dovglas, 20 anos, autônomo e até então nenhuma passagem na polícia. Nos shows conto com o Angu no baixo e Mariano na bateria. Antes do Deaf Kids eu estudava, tocava em outras bandas e fazia vadiagens.

Como e quando surgiu o Deaf Kids?
Surgiu em meados de 2010, quando tive a ideia de montar uma banda de punk/crust com uns sons que eu tinha feito, e tive a oportunidade de gravá-los de um jeito bem do it yourself!

Conta como foi a gravação da primeira demo.
Então, eu tava ouvindo muito Discharge, Extreme Noise Terror, Born Against, Crucificados Pelo Sistema. A composição dos sons foi a mais simples possível, num violão faltando a corda ré (risos). Eu gravei as baterias em um estúdio que o meu irmão e um amigo estavam trampando na época, e o resto tudo na casa desse amigo. Inclusive, os dois hoje têm um estúdio (Estúdio Jukebox) e todos os materiais do Deaf Kids até hoje foram gravados, mixados e masterizados por eles lá.

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E foi fudida a repercussão da demo, se espalhou como fogo. Como você recebeu esse CARINHO DOS FÃS na época? Você esperava isso?
Jamais esperava isso, foi surreal bixo! Foi muito doido! Através da banda conheci muita gente, de vários lugares do Brasil, e fiz amizades que até hoje são gente que eu amo, incluindo os dois caras que tocam comigo. Além da galera que de vez em quando manda mensagem ou vem falar pessoalmente dizendo que pira na banda ou procurando pelos materiais, muito doido isso tudo.

E qual a história por trás do 6 Heretic Anthems?
Não tem muita história. As músicas têm uma tématica entre o descontentamento com o capitalismo, a sociedade e a desistência através do suicídio como uma possível saída.

O que mudou entre a demo e o 6 Heretic Anthems?
Foi gravado em estúdio com equipamentos melhores, acrescentei algumas influências, usei um delay, saiu o Robinho (que foi o primeiro baterista) e entrou o Mariano.

Vocês lançaram esses dias duas músicas do próximo e primeiro disco de vocês, o The Upper Hand. Conta como foi a gravação, quem tocou, onde gravaram e etc.
Eu gravei todos os instrumentos. Foi gravado no Estúdio Jukebox aqui em Volta Redonda, onde eu moro. A gravação foi tranquila, em um dia gravei todas as baterias e os baixos, no outro as guitarras e mais dois dias pros vocais.

Como vai ser o lançamento desse disco? Vai ter formato físico? Vocês fazem questão disso?
O plano é lançar ele em LP e em CD. Eu até faço questão de prensar, mas não ligo de disponibilizar tudo na internet e pra download, daí quem tiver interesse em ter o material físico pode comprar e quem não tiver, pode baixar e ouvir, ter as letras e etc.

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A Raw Recs de Brasília tá envolvida nessa fita do lançamento não é? Como surgiu esse contato? Qual vai ser o papel deles?
Sim! O Pícaro da Raw Recs é um grande amigo, a gente se conheceu da primeira vez que tocamos em Brasília e o bixão hospedou a gente. Daí pra frente fiquei na casa dele mais outras vezes que fui tocar por lá e ele já veio de férias pra Volta Redonda e ficou aqui em casa. Ele está participando e ajudando no lançamento do material em LP.

Li pela internet que não só você, mas todo mundo que já passou pelo Deaf Kids é vegan. É algo que você toma como princípio filosófico mesmo ou foi sem querer querendo?
Foi sem querer querendo mas é também um princípio filosófico/político pra gente hehe. Apesar de que hoje eu e o Angu não somos mais vegans por motivos x e y, o veganismo é um lance que eu acho muito foda. Inclusive eu e o Mariano trampamos vendendo doces artesanais veganos.

Para você, qual a importância desse tipo de afirmação política na música do Deaf Kids?
Acho importante que as pessoas vejam, ouçam, escutem e sintam as coisas que estão acontecendo a todo momento, sejam elas positivas e/ou negativas, mas que geralmente parecem invísiveis aos olhos comuns. É necessário o desconforto, o novo, deixar de lado o medo e a fraqueza para que possa haver a mudança, e da mudança interior vem a mudança exterior, e por aí vai. Se você não consegue ver e sentir que está tudo se despedaçando, que tudo que lhe foi ensinado até hoje é baseado e/ou deturpado pelo seu ego e ganância, você não está vivendo, é apenas um morto vivo, um número. O conteúdo político do Deaf Kids é bastante pessoal.

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Acho as capas dos EPs e singles muito fudidas. Quem faz? Como faz? Por que fez assim? Qual a importância que você dá para essa parte gráfica do trampo do Deaf Kids?
Pô, valeu! Com exceção da capa do split com O Mito da Caverna, que foi feita pelo Augusto Miranda, e a do The Upper Hand que eu e o Angu fizemos juntos (mais ele do que eu), o resto foram todas eu que fiz, além das artes das camisetas e tal. Faço tudo no computador, tudo bem simples pois não domino muito bem o Photoshop. Dou a mesma importância que dou à parte sonora. É dar visual ao som e som ao visual. Penso eu que na arte, essas coisas estão completamente conectadas. É o conjunto da "obra" heheh.

O som de vocês, especialmente ao vivo, tem uma pegada que remete um pouco ao black metal norueguês do começo dos 90’s. É algo de propósito ou eu que tô viajando?
Bem, na real para nós não remete em nada ao black metal norueguês dos 90's, hehe, mas se remeteu à você, animal!

A gente vê no novo metal nacional underground uma força que há tempos tinha desaparecido. Como você enxerga essa cena atual de bandas? Qual a relação do Deaf Kids com essas outras bandas pelo Brasil?
Do metal ao punk outro outro gênero que for, atualmente tem muitas bandas nacionais independentes que são absurdamente boas, e isso é animal! Através do Deaf Kids conheci e conheço muita gente de bandas pelo Brasil, e isso é muito foda, desde a amizade até poder tocar juntos, a troca de experiências e etc. Pelo menos da nossa parte, temos sempre uma relação boa com várias bandas pelo Brasil, já tocamos com uma porrada de bandas por aí e estamos sempre em contato com elas.

Como é fazer um som extremo em Volta Redonda? Você tem planos de ficar por lá, mudar, ou coisa do gênero?
De um ano para cá uma galera de Volta Redonda começou a conhecer a banda e tal, mas a gente praticamente não toca por aqui, então é como se a banda nem fosse daqui, infelizmente. Por enquanto fico por aqui, mas to largado no mundão hehe. Viajar é o que há!

EU ACHO que o Deaf Kids tem uma vantagem estratégica estilística. O som de vocês se encaixa tanto no rolê metal extremo como no rolê mais punk. Você concorda com isso? Isso acontece na prática, na agenda de shows de vocês?
Eu até concordo, mas não acontece muito na prática. É mais comum a gente tocar em shows que não tenha nenhuma banda de "som extremo" do que em rolês de metal extremo.

Você grava tudo sozinho, mas ao vivo você toca com os companheiros. Quem são esses caras? Essa formação é fixa ou costuma mudar?
É o Angu no baixo (também tocamos juntos no Sick Visions e no Homem Elefante, que já acabou) e o Mariano, que vive em São Paulo, na bateria (que também toca no Electric Roar e já tocou no Lifelifters, que também já se acabou). Essa formação é fixa.

Para além do lançamento do Upper Hand, o que o Deaf Kids tem como meta para os próximos meses e trampos?
Estamos armando o lance em conjunto com O Cúmplice, shows, gravar o próximo e último material do Deaf Kids e fazer tour na Europa.