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Juçara Marçal e Cadu Tenório Bateram Música de Terreiro no Liquidificador em ‘Canto II’

Meio candomblé e meio Swans, ouça a primeira faixa de 'Anganga', álbum da dupla que sai dia 6 de outubro.

A voz da Juçara Marçal é uma força da natureza. Não se explica, não se imita. Ela é. Surge, rouba a cena e desaparece como um raio no meio da floresta. Juçara sabe dizer as coisas mais desgraçadas da forma mais doce e vice versa. “Canto II”, primeira faixa de seu álbum com o inquieto produtor carioca Cadu Tenório, é um ótimo exemplo dessa força. “A interpretação dela é demais, acho incrível a tranquilidade que ela consegue passar na voz, meio que em contraste com o arranjo. A Juçara é um amor de pessoa, e me passa uma energia boa demais”, conta Cadu.

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Ela empresta toda sua leveza para a caótica “Canto II”, faixa que abre o disco Anganga, com estreia marcada para o dia 6 de outubro. A música foi resgatada do álbum Canto dos Escravos, de 1982, que juntou Doca, Geraldo Filme e Clementina de Jesus interpretando canções ancestrais dos negros de São João da Chapada, em Minas Gerais. O projeto, capitaneado pelo filólogo, professor e linguista mineiro Aires da Mata Machado Filho, é uma das principais pesquisas de nossas heranças musicais negras.

A versão da dupla buscou o canto dos escravos e o jogou num turbilhão de sintetizadores, objetos amplificados e desarrumação de ruídos experimentais que mescla o som do italiano Luigi Russolo Corale com Uakti e um pouquinho de Neneh Cherry menos pop. É bom, muito bom, mas não vai ser o som que você vai colocar no churrasco da família no domingo. A não ser que você tenha uma boa razão pra isso.

Sobre a produção, Cadu explica. “O processo inteiro durou cerca de um ano e pouquinho, desde as primeiras conversas. Foi penoso, mas tudo está valendo a pena”. O álbum terá oito faixas, sete delas tiradas de cantos antigos e muita experimentação. “Apenas uma das faixas não é dessa pesquisa, mas é um resultado puro do efeito dela. É uma faixa instrumental que compus durante o processo e que Juçara contribuiu com a voz mas sem letra. Quanto aos cantos resgatados, a proposta desde o príncipio foi criar peças para ‘abrigar’ esses cantos. Compôr por cima do já composto”, finaliza.

Ouça “Canto II”, que sai de uma parceria dos selos Quintavant e Banda Desenhada: