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Gui Boratto Teve Seu Coração Partido pelos Ingleses

Na nossa série Heartbreakers, o manda chuva do techno no Brasil nos conta qual a faixa o fez chorar bem no meio da pista.

Na série HEARTBREAKERS, revemos os hits lacrimosos das pistas que tornam a sua noite especial, seja no pico do seu brilho ou no platô. A música eletrônica tem o poder de partir corações, e esta é uma homenagem a essas faixas. Desta vez, pedimos ao Gui Boratto, mestre brasileiro do tech-house melancólico e principal atração da Kompakt, que nos dissesse qual é a música que faz ele chorar toda vez que ele a ouve no seu Funktion-One.

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Nasci em 1974, então tive a sorte de poder aproveitar o brilho e a glória do fim dos anos 80 enquanto tudo acontecia. Eu me lembro dessa época como o momento em que finalmente me cansei da formação básica de uma banda. A combinação de um baterista regular, um baixista arrastado, um guitarrista sólido e um vocalista não estava funcionando mais para mim. Então comecei a curtir muito o Kraftwerk e comprei meu primeiro sequenciador, um Roland MC-500, e um sampler, um ENSONIQ EPS. Esse era o meu equipamento.

Aos 16 anos, usava uma identidade falsa para entrar no melhor clube underground de São Paulo, o Rose Bom Bom. Naquela época, quando você saía à noite, era quase certo que só ouviria techno-pop. Eu adorava. Isso foi antes de tudo se tornar essa coisa fragmentada que é agora, antes de existir o trance, o deep house, o progressive house e tudo mais. Como músico, tenho que admitir que meio que sinto falta da simplicidade desse tempo, em que tudo era só techno-pop descompromissado.

Uma das minhas memórias mais marcantes daquela época é de ouvir "Pump up the Volume", do M|A|R|R|S, pela primeira vez. Fiquei hipnotizado com aquela bateria! Aquele piano!

Mas não é dessa música que eu quero falar. Naquela mesma noite, o DJ, um cara chamado DJ Magal, tocou outra faixa que teve um impacto muito profundo em mim. Eu chorei de verdade na pista. Tinha um ritmo parecido com "Pump up the Volume", mas cheia de cordas complexas e lindas. Então vinha um vocal perfeito. A música era a seminal "Unfinished Sympathy", do Massive Attack, uma faixa que ainda entra facilmente no meu top 10 de todos os tempos.

Saí correndo no dia seguinte para comprar o Blue Lines, e desde então me tornei um fã dedicado do Massive Attack. Foi uma honra quando eles me pediram, décadas depois, para remixar uma faixa deles, a "Paradise Circus". Então você só pode imaginar como me senti quando, passados mais alguns anos, eles me pediram para remixar "Unfinished Sympathy". As lágrimas correram de novo quando me mandaram todas as partes da música separadas. Ouvi-la daquele jeito, só as cordas sozinhas e nuas, o vocal inigualável de Shara Nelson isolado, aqueles pequenos scratches e samples da Mahavishnu Orchestra e de "Planetary Citizen", do John McLaughlin… Foi incrível. Não consigo nem descrever.

"Unfinished Sympathy" é uma das músicas mais lindas e incríveis de qualquer gênero ou estilo dos últimos 30 anos para mim. Sabe quando você assiste a um filme, lê um livro ou ouve uma música e só consegue pensar "nossa, queria ter feito isso?". Essa música é um desses casos. Uma faixa da qual nunca vou me cansar de verdade.

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