No dia em que liguei para El-Mahdi Rezoug para fazer a entrevista que marcamos, a ligação caiu em sua caixa postal, reiteradas vezes, por uma hora. Quando ele finalmente entrou em contato por email, foi pra pedir desculpas que seu telefone não estava funcionando. Era o dia anterior ao desabamento da mina de carvão Soma, uma tragédia que se tornaria o pior desastre de mineração da história da Turquia e custaria a vida de 300 pessoas. Rezoug ficou preso nos protestos em Istambul depois do trabalho, e a bateria do seu telefone foi pro saco. "Estava uma loucura. Eu mal conseguia andar pelas ruas". Apesar do horror do acidente, ele é talvez um ponto de partida adequado para a história de um jovem argelino cuja música lida com uma luta universal: estar presa entre a modernidade e a tradição. "É isso que somos, por assim dizer". Enquanto falamos pelo telefone no dia seguinte eu pude ouvir através da linha distorcida e ao fundo o cotidiano de Istambul: crianças brincando, gaivotas, o barulho do trânsito.
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Rezoug mudou-se da Argélia para a Turquia ainda pequeno e alternou entre os dois países até entrar na universidade na Turquia. "Meu companheiro de quarto tinha um computador com o Fruity Loops, foi assim que eu comecei a fazer música". O contato com outras pessoas, com o rádio e com a internet o levaram ao jungle, ao dubstep e à música eletrônica, saciando sua sede de ouvir e entender tudo o que pudesse. O resultado disso é que as composições de Rezoug incluem tanto o antigo - Arabesco turco, um tipo de música popular dos anos 1970 muito presente no seu álbum de estreia, e o Raï da Argélia, explorado nos seus lançamentos seguintes – quanto o novo.O álbum de estreia de Rezoug como El Mahdy Jr., The Spirit of Fucked Up Places, surgiu do nada pelo selo Boomarm Nation de Portland. Alguns meses mais tarde, ele foi seguido por uma aparição do El Mahdy Jr no selo Deep Medi, do Mala, em uma colaboração com o produtor Gantz, seu conterrâneo de Istambul. No entanto, ao falar com ele fica claro que ele não está em uma missão de se tornar um artista como a maioria deseja hoje em dia. Na real, é bem o contrário: ele está em uma missão de compreender o mundo através da arte, quer as outras pessoas ouçam ou não as suas ruminações."Eu nunca quis fazer um álbum. Só fiz uns beats com o computador do meu amigo e os juntei". Rezoug largou a faculdade e voltou pra Argélia pra trabalhar em uma construtora, ajudando na comunicação dos trabalhadores turcos do local. "Viajei pra Burkina Faso, sempre fazendo beats". A música foi inspirada pelo dia-a-dia, pelo tipo de coisa mundana a que a maioria das pessoas não presta atenção mas que tem muito potencial criativo quando sua mente está aberta a elas. "É o sentimento que tento transmitir na minha música." Esta ideia então juntou-se à curiosidade por reproduzir a música tradicional que ele também estava ouvindo.
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Para criar sentido sonoro usando batidas eletrônicas e música devocional do Norte da África e Oriente Médio, Rezoug contou com duas ferramentas estéticas fundamentais: o sampling e o dub. O poder do sampling para ele está no fato de este ser capaz de captar a essência de algo, "roubar o espírito de uma música". O dub veio da coleção de discos de seu pai, uma das primeiras coisas que Rezoug ouviu quando criança. Essa descoberta precoce da música jamaicana o levou a um amor pelo estilo pra vida toda, e que no álbum se manifesta através da manipulação de espaços e de samples. "O dub é a face moderna da música de raiz. Por isso tento fazer dub Norte Africano. Se o dub tivesse nascido na Argélia ou no Oriente Médio, colo ele soaria?"Em Burkina Faso, Rezoug descobriu a música do Mali. Uma busca de internet mais tarde e ele foi parar no blog da Sahel Sounds, outro selo de Portland que tinha feito um lançamento conjunto com a Boomarm. Depois de alguns emails, Rezoug encontrou ouvidos dispostos a ouví-lo. "Não foi a primeira vez que entrei em contato com alguém pra falar sobre música, mas a maioria dos meus amigos odeia minhas músicas". O resto do processo foi tranquilo, com Rezoug e o selo arquitetando um trabalho de três anos pra conceber o álbum, em um processo realmente colaborativo que envolveu conversas diárias e nenhum sentimento de afastamento, apesar da distância geográfica. "Enquanto eu tiver vontade de fazer música eu farei, mesmo que não chegue a publicá-la."
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Istambul sempre foi um local privilegiado para o encontro do Ocidente com o Oriente, do leste com o oeste, uma dinâmica evidente na música de Rezoug. "Nesse momento, com a situação política, isso está na cara. Mas não é bem sobre o lugar. Não é que vindo a Istambul você verá o leste e o oeste. Isso está por toda parte". Olhando de fora, você assumiria que esta dinâmica se manifestaria na música e na arte feitas na cidade. "Não sei por que mas as pessoas daqui que fazem música tentam evitar a parte leste. É esquisito. Elas tentam voar com uma asa só quando têm duas. Nós somos leste e oeste. Por que não usar ambos?" O som penetrante de uma chamada para oração interrompe a nossa conversa antes de Rezoug afirmar que "você tem que usar aquilo que tem."Um artista turco que tentou articular a dinâmica da localização e história únicas da cidade foi o Serhat Koksal, conhecido pelo projeto multimídia 2/5BZ. Koksal começou seu trabalho em 1986 e seu rastro digital é tão psicodélico quanto a música e a arte que ele produziu. "Ele é o mais importante, foi o primeiro a tentar produzir coisas de rave por aqui". Mais recentemente é o Gantz que atrai a atenção de Rezoug, e ainda que ele trabalhe nas partes mais tradicionais do dubstep, isso não impediu a dupla de trabalhar junta pra articular ainda mais o seu ambiente através da música.Enquanto o Arabesco não é necessariamente aceito pela juventude turca – "eles acham que é música tosca" – na Argélia o Raï ainda é popular entre a molecada. Uma música folclórica originária dos pastores beduínos de Oran, ela ainda ocupa um lugar importante na cultura do país. "Não há selos na Argélia, todos faliram depois do mp3. As pessoas não gravam mais em estúdios, elas vão a casinos, gravam performances ao vivo e as queimam em CD pra vender."
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Essa mudança na criação da música levou a cultura a transfigurar-se em algo diferente e mais elitista. "Só os ricos estão incluídos. Esses hotéis são caros, Sheraton, Hilton, e as pessoas pagam os artistas para saudá-las durante o show. Pra que isso aumente o status de respeitabilidade dessas pessoas. É um lixo…"À parte do populismo do Raï existe gente fazendo hip-hop e música eletrônica na Argélia, mas eles enfrentam condições adversas. "Não existem casas de show ou lugares para a música alternativa. É mais uma experiência individual. A sociedade não é muito aberta, e isso é um problema. Existem clubes mas eles são parecidos com os casinos que tocam Raï". A inspiração para a cena local de hip-hop vem de fora, pela TV francesa via satélite, que é uma das escolhas possíveis, ao lado dos canais do Oriente Médio, para aqueles que não querem encarar o único canal nacional argelino – "é uma merda, ninguém assiste."Apesar das condições sociais difíceis na Argélia e na Turquia, Rezoug vê uma possibilidade de que a música ajude a levar adiante certas mudanças radicais por lá. "Há pessoas com ideias próprias, mas não creio que ocorrerão mudanças muito grandes. Espero que sim, mas não é fácil". É difícil pra ele enxergar valor político na música, já que ele admite que seu próprio trabalho é muito mais pessoal, menos preocupado em causar mudanças e mais focado em oferecer experiências pessoais.
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O trabalho de Rezoug é talvez mais pertinente para a questão de como a originalidade pode se manifestar em um mundo hiper-conectado. "Você tem que ouvir de tudo sem preconceito. Mas nunca deve tentar fazer igual. Não copie. Ouça, depois limpe sua mente e faça o que estiver sentindo". A aceitação de si mesmo é a forma como esse discreto argelino conseguiu se conectar com uma audiência internacional.Enquanto alguns ficam obcecados em se tornar algo, ele apenas traduz o que vê e sente, durante o processo de captar a essência de nosso mundo moderno com suas fronteiras geográficas que desaparecem e suas distâncias culturais que se intensificam. "Minha música é nômade, é como viajar. Quaro conhecer outros continentes, outras pessoas e entender culturas diferentes. Existe uma frase famosa que diz 'nós os criamos em nações diferentes para que possam conhecer-se uns aos outros.' "El Mahdy Jr. – Gasba Grime EP sai dia 9 de Junho em 12 polegadas e digital na Danse Noire.Você pode seguir o Laurent Fintoni no Twitter aqui: @laurent_fintoniTradução: Stan Molina