Uma Visita aos Mais Raros Artefatos da Era Espacial Soviética
A cápsula carbonizada na qual Tereshkova passou dois dias, 22 horas e 50 minutos. Crédito: Emiko Jozuka.

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Uma Visita aos Mais Raros Artefatos da Era Espacial Soviética

Conferimos em Londres uma exposição com naves, pôsteres, louças e cartas russas da época da Guerra Fria.
23.9.15

O sonho de criança de Valentina Tereshkova era ser maquinista de trem. Aos 26 anos, em 1963, ela se viu percorrendo distâncias maiores do que qualquer menina da sua geração imaginaria: a russa foi, a bordo da nave Vostok 6, a primeira mulher a viajar pelo espaço.

Na última semana, Tereshkova esteve em Londres com Sergei Krikalev, um cosmonauta russo que passou 803 dias em órbita, para a abertura da exibição Cosmonautas: o nascimento da Era Espacial, que estará aberta até março do ano que vem no Museu da Ciência da capital inglesa.

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A mostra apresenta o envolvimento pioneiro da Rússia na corrida espacial. Na abertura, Tereshkova aproveitou para mostrar o apreço pela cápsula que a levou para os céus. "Quando vejo esse objeto, o acaricio. Digo: meu amor, meu amigo mais belo e querido", ela disse. "Meu homem", brincou.

Valentina Tereshkova, a primeira mulher no espaço, na coletiva de imprensa do Museu da Ciência. Crédito: Emiko Jozuka

A Vostok 6 – hoje um "homem-esfera" velho e enferrujado – foi uma proeza épica de engenharia que abrigou Tereshkova por dois dias, 22 horas e 50 minutos no espaço. Mas é somente um dos 149 objetos relacionados ao espaço com significado histórico por lá. Na exposição também há naves espaciais, pôsteres, louças e cartas que foram cuidadosamente enviadas ao Museu da Ciência de 18 lugares diferentes da Rússia.

A mostra levou cerca de quatro anos para ser elaborada e, apesar de diversos atrasos e contratempos, valeu a pena esperar. Os objetos nunca foram vistos pela maioria dos moradores da Rússia e são as grandes "joias da coroa" russa, como disse Doug Millard, curador sênior de Tecnologias e Engenharia do Museu de Ciências, pelo telefone.

Os russos foram os pioneiros das viagens espaciais. Eles foram a primeira nação no planeta a enviar de tudo, de animais e humanos a satélites, para a órbita. Veja Laika, que se tornou o primeiro cão no espaço; ou Yuri Gargarin, um cidadão soviético que foi lançado ao espaço em 12 de abril de 1961 durante o governo de Nikita Khrushchev. (A Rússia também foi responsável por algumas tragédias espaciais, como a explosão da soyuz-1 e a morte de Vladimir Komarov.) Esse espírito intrépido de viagem espacial e sua evolução foram alguns dos temas explorados na exibição.

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"A ideia era mostrar um senso de conquista e penetração no espaço – essas ideias já emergiram na filosofia russa ainda antes do fim do século XIX", me contou Zelfira Tregulova, historiadora e diretora geral da The State Tretyakov Gallery.

Tregulova, que também foi responsável pela curadoria e ajudou com a logística e o transporte, explicou a importância de incluir uma variedade de objetos que têm a ver com o desejo russo de se aventurar no espaço. Ao longo de quatro salas do Museu de Ciência, os visitantes também podem observar, por exemplo, um uniforme e assento ejetor de cães, satélites do Sputnik 1, bem como o módulo de aterragem lunar LK-3, que se parece com uma aranha de metal.

O módulo de aterragem lunar LK-3 (modelo de engenharia de 1969) – uma nave de metal gigante que se parece com uma aranha. Crédito: Museu de Ciência

Além de exibir os objetos físicos, os curadores estavam dispostos a mostrar ideias, sentimentos e alguns dos líderes importantes que conduziram a era espacial russa. Tregulova fez referência a Konstantin Tsiolkovsky (1857-1935), um erudito russo conhecido como o pai da viagem espacial soviética. Tsiolkovsky é lembrado por ter escrito tanto ficção científica quanto tratados sobre propulsão de foguetes e por sua célebre frase: "A Terra é o berço da humanidade, mas ninguém pode viver em um berço para sempre".

Millard me disse que uma carta de uma fazendeira soviética de 42 anos à Radio Moscou é um de seus objetos favoritos.

"Ela pediu para ser colocada em uma Sputnik para ir ao espaço. Ela se sentia no dever com seu país e pensou que seria uma oportunidade, algo que a Rússia havia prometido aos cidadãos", afirmou Millard. "É uma carta bastante comovente porque ela não se preocupava com os perigos, ela não se importava se nunca mais retornasse."

"A fantasia se torna realidade", Boris Staris, 1961. Publicado pela Guarda Jovem (Molodaya Gvardia). Crédito: Museu Memorial dos Cosmonautas. Crédito: Museu de Ciências

A era espacial se desenvolveu no ápice da Guerra Fria. Na época, os Estados Unidos reconheciam que qualquer incentivo à exploração espacial deveria acontecer em competição com a Rússia soviética. Uma série de sucessos espaciais da União Soviética, incluindo a primeira caminhada espacial, suscitou mal-estar dos EUA, e o presidente John F. Kennedy prometeu, em 1961, colocar um homem na lua até o fim dos anos 1960. Até então, os norte-americanos contavam com um único homem no espaço.

Tregulova descreveu os lançamentos bem-sucedidos de Gargarin e Tereshkova como momentos épicos. "Foi muito inspirador para os russos ter uma mulher no espaço", ela me contou. "Lembro de que todos nos sentimos muito orgulhosos."

Ex-cosmonauta Sergei Krikalev, em frente à Vostok 6. Crédito: Emiko Jozuka

A era espacial pode ter sido marcada por uma competição implacável entre os EUA e a URSS. Entretanto, na coletiva de imprensa, tanto Tereshkova quando Krikalev afirmaram que tal rivalidade abriu caminho para aumentar a colaboração entre as duas nações.

Em oposição à busca por prestígio de um país, Krikalev afirmou que o objetivo da exploração espacial era seguir desenvolvendo novas tecnologias sem interferência política e deixar as pessoas comuns mais conscientes dos potenciais da exploração espacial. Afinal, o espaço, afirmou Tereshkova, deve ser uma "arena de associação pacífica".

Tradução: Amanda Guizzo Zampieri