Todas as fotos por Joshua T. Gibbons.

Retratos de pessoas que conheci em sites de sexo alternativo

Falámos com o fotógrafo britânico Joshua T. Gibbons sobre o seu novo projecto, “Sex Site”.

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20 janeiro 2017, 3:50pm

Todas as fotos por Joshua T. Gibbons.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE UK.

O mais recente trabalho do fotógrafo britânico Joshua T. Gibbons, "Sex Site", é uma série que explora as transformações na sociedade que permitem uma maior aceitação de opções sexuais "alternativas" no Reino Unido, bem como o papel da Internet nessas mudanças. E esse papel, claro, é imenso: até ao advento dos sites pensados para ligar, digamos, gente com fétiche por roupas de borracha, era difícil para essas pessoas explorarem aprofundadamente os seus interesses sexuais, isoladas - como estavam - de alguém que partilhasse as mesmas filosofias.

Para "Sex Site", Josh entrou em contacto com pessoas em vários sites e plataformas de sexo "alternativo", depois visitou as suas casa, tirou os seus retratos e, em alguns casos, reuniu mensagens que elas receberam através dessas plataformas digitais. Falei com ele sobre o projecto.

VICE: Como escolheste quem querias apresentar no projecto?
Joshua Gibbons: Inicialmente, teve muito a ver com convencer as pessoas a envolverem-se. Frequentei estas plataformas entre seis a nove meses e fui construindo uma base de dados, apesar de esta poder parecer uma maneira clínica de descrever o processo. Tinha que ganhar a confiança de certos indivíduos e aprofundar as ligações com quem eu achava que seria interessante para o projecto. Isso levou-me a um grupo de pessoas entre os 18 e os 35 anos e àqueles de origens mais interessantes.

Como é que abordavas o tema com os potenciais participantes? Que obstáculos encontraste?
Fui claro sobre as minhas intenções logo de início. Nestes sites em particular, há muitas pessoas que são bastante desconfiadas e com razão. Não queria sentir que estava a enganar alguém. Fui sincero sobre as minhas intenções e, por vezes, as respostas eram mistas.

Alguns diziam "óptimo, apoio a ideia e adoraria estar envolvido", quando outros respondiam, "não entendi bem o que estás a tentar fazer. Queres vir a minha casa para me fotografares? A fazer o quê?". E eu dizia "só vos quero fotografar a passar roupa a ferro, ou algo do género" e a pessoa respondia "és maluco! Porque é que queres fazer uma coisa dessas? Deixo-te vir cá a casa e fotografar a minha esposa com sémen na cara, mas não deixo que nos fotografes a fazer algo familiar".

No arranque, foi um obstáculo convencer as pessoas de que eu não era apenas um freak qualquer. Bem, talvez seja. Dar a impressão de que era uma pessoa interessante, relativamente normal e confiável era 90 por cento do desafio.

Porque é que decidiste fotografar apenas pessoas com vidas sexuais "alternativas"?
Acho que todos nós temos - odeio esse termo - um estilo de vida sexual "baunilha". Os sites que abordei para este projecto focavam-se em sexualidades "alternativas", mesmo que não goste do termo. Estão na esfera do que a sociedade mainstream considera alternativo. Não estava muito interessado no que essas pessoas faziam; tive essa impressão logo no início. Estava mais interessado em observar a familiaridade das suas vidas, porque se gostas de fazer sexo em público, por exemplo, não és uma pessoa menos válida. É só algo que gostas de fazer.

De onde são as mensagens que acompanham as fotos?
Algumas recebi-as pessoalmente. Quando estava a abordar estes indivíduos, tinha de fazer um perfil nos sites e eu era muito explícito sobre qual era o meu propósito e o meu papel ali. Uma das coisas que notas na maioria dos perfis é que as pessoas escrevem, "antes de me mandar mensagem, por favor leia o meu perfil" e muita gente não lia o meu. Recebi muitas mensagens sexualmente agressivas de homens e outras mensagens foram enviadas a pessoas que participam no projecto.

Porque é que decidiste incluir as mensagens?
Quero mostrar que, de várias maneiras, existe este grupo de pessoas que exploram estas plataformas. Alguns destes sites estão cheios do que eu chamaria de aproveitadores, enquanto outros querem formar uma comunidade. Algumas pessoas com quem falei tinham motivações artísticas e eram incríveis, mas havia esse submundo de comportamento sexualmente agressivo. Para ser honesto, são as mulheres que mais sentem isso nestes sites. Senti que era importante não apenas pintar essa subcultura como algo belo e progressista. Também queria dizer que, como tudo na vida, há vários idiotas a tentarem aproveitar-se.

As mensagens a alguma das fotos?
As mensagens não se relacionam diretamente com as histórias dos indivíduos que fotografei. São apenas mensagens ligeiramente mais explícitas que eles receberam de outras pessoas. Poderia ter incluído muitas outras. Algumas são sobre o processo; têm a ver com as minhas comunicações com as pessoas que queria fotografar e que, por alguma razão, acabaram por não avançar. Queria que o processo de abordar as pessoas estivesse presente na série.

Tens ideia do que farás com o projecto agora?
Estou exactamente nesse ponto. Não sou um fotógrafo que quer fazer bonitos livros de mesa de café. Sinto-me mais atraído pela ideia de exibir uma série. Este projecto é algo que gostaria de expor em várias cidades da Europa, como uma perspectiva britânica. Sinto que estamos num período interessante do país, com o Brexit e a nossa situação política. O resto da Europa olha para nós com suspeição e com uma visão muito isolada, por isso gostaria de levar o projecto para mais partes do Mundo. Quero mostrar que não somos estranhos e isolados, mas também quero mostrar a humanidade desta subcultura em particular. A minha visão sempre foi de uma exposição itinerante, com impressões em tamanho real, acompanhadas das mensagens.

Vê mais trabalhos do Josh no site e no Instagram e vê mais fotos de "Sex Site" abaixo.

@mariane_eloise


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