sexo

"As mulheres nunca foram ensinadas para o prazer"

Conhece Vânia Beliz, a sexóloga que está a aproveitar as redes sociais e as novas tecnologias, para desenvolver um trabalho intenso de educação e esclarecimento sexual das novas gerações.

Por Cláudio Garcia
24 Abril 2017, 12:42pm

A sexóloga Vânia Beliz. Foto por Ricardo Graça

Este artigo foi originalmente publicado no JORNAL DE LEIRIA e a sua partilha resulta de uma parceria com a VICE Portugal.

Podem já a ter visto nas emissões da SIC a falar sobre sexualidade, ou lido os textos que escreveu sobre o tema nas revistas Sábado e Playboy (edição portuguesa) e também no jornal Público. Licenciada em Psicologia Clínica pelo Instituto Superior D. Afonso III e mestre em Sexologia pela Universidade Lusófona, com um trabalho de investigação que incidia sobre a sexualidade feminina, com o objectivo de estudar o comportamento masturbatório da mulher, Vânia Beliz tem 38 anos e é autora dos livros Ponto Quê? Prazer no Feminino (2011) e A Viagem de Peludim (2016). Este último, uma abordagem lúdica ao tema da educação sexual, publicado com a escritora Sara Rodi e a ilustradora Célia Fernandes.

Desde há seis meses, mantém uma linha de esclarecimento de dúvidas sobre sexualidade na rede social WhatsApp, destinada a um público-alvo entre os 12 e os 30 anos de idade. Natural de Lisboa, mas a residir no Alentejo, Vânia Beliz trabalha como consultora técnica dos grupos Artsana e GCI, integra programas públicos de educação para a saúde, mantém consultório privado e frequenta o doutoramento em Estudos da Criança na Universidade do Minho.

Falámos com ela.


Vê também: "A história do vibrador"


JORNAL DE LEIRIA: Escreveste um livro chamado Ponto Quê? Os homens são assim tão ignorantes em relação às mulheres?

Vânia Beliz: Muitas vezes fico surpreendida com o desconhecimento das mulheres, principalmente em relação às questões do corpo. Mas, as mulheres nunca foram ensinadas para o prazer, tem a ver com a educação. E os homens, durante muito tempo, viam o sexo como algo procriativo. Há mulheres mais velhas que dizem que as relações sexuais eram rápidas, desconfortáveis e pouco gratificantes. Hoje em dia, os homens já não têm essa postura, pelo contrário, noto que têm um interesse muito grande por perceber como é que o corpo das mulheres funciona. Há cada vez mais homens que têm como prioridade dar prazer às parceiras.

Quem é que se preocupa mais com essa ideia de sucesso na relação sexual? Eles ou elas?

Ambos. A mulher esforça-se, mesmo que não consiga atingir o orgasmo, pelo facto de terem mais dificuldade em o atingir, por questões biológicas. É preciso que as pessoas percebam que o orgasmo é o culminar do nosso prazer, mas não significa que uma pessoa que não tenha orgasmos não tenha prazer. E vejo por parte dos homens muitas perguntas relacionadas com o dar mais prazer. Aquela coisa de antigamente de os homens só quererem ter o seu prazer e virarem-se para o lado, acho que cada vez menos acontece, principalmente nos casais mais jovens, em que as mulheres se emanciparam e sabem muitas outras coisas. E acabam por ser elas a pressionar a relação para que procurem outras coisas na relação.

"Os pénis são como os automóveis e as vaginas como as garagens. Os homens querem muito ter um pénis grande, mas se a mulher tiver uma vagina curta, ou estreita, isso poderá causar problemas na relação sexual".

Que questões biológicas?

Os pénis são como os automóveis e as vaginas como as garagens. Os homens querem muito ter um pénis grande, mas se a mulher tiver uma vagina curta, ou estreita, isso poderá causar problemas na relação sexual. As questões biológicas de que falo têm a ver com o facto de os homens serem biologicamente mais eficazes, têm um desejo mais fácil, excitam-se mais facilmente e conseguem ejacular ou ter prazer mais facilmente. Nas mulheres as coisas não funcionam assim. Basta ver que os modelos de resposta sexual das mulheres são muito complexos em relação aos dos homens. Uma mulher para se conseguir excitar é preciso que uma série de variáveis se reúnam. Por exemplo, a mulher tem que estar relaxada, num ambiente em que se sinta confortável e segura, tem que estar bem com ela e sentir-se bem com o seu corpo, enquanto o homem é muito mais objectivo.

Em relação à emancipação, estamos num ponto em que a liberdade sexual funciona da mesma maneira para homens e mulheres?

Acho que não. E basta ver quando perguntamos às mulheres coisas sobre a intimidade: elas têm muito receio de falar. No caso das jovens, há dificuldade de trazer um preservativo, porque têm medo que eles achem que elas querem ter sexo. A mulher ainda resiste muito ao sexo no primeiro encontro por achar que isso poderá não ser correcto. Portanto, a mulher ainda se sente pressionada por questões sociais. Basta ver que enquanto um homem continua a ser considerado um garanhão se tiver muitas parceiras, uma mulher continua a ser uma prostituta. A verdade é esta: continuamos com este tipo de estigmas, que acabam por condicionar a liberdade sexual das mulheres.

Dirias que os jovens chegam bem informados ao momento em que iniciam a vida sexual?

Eles têm tudo para chegar bem informados, agora, acho que há muito desconhecimento e penso que a informação que é dada na escola foca-se muito nas questões biológicas. Continua-se a falar muito da sexualidade associada aos riscos, não se fala muito da sexualidade de forma positiva. É importante que os jovens saibam como proteger-se, mas também é importante que tenham uma vida sexual gratificante, porque nós não fazemos sexo só para nos reproduzirmos.

Quais são as principais dúvidas que eles e elas expressam?

No caso das raparigas, as questões relacionam-se mais com a primeira vez e alguns tabús que ainda existem, como, por exemplo, se sangram na primeira vez e se a primeira vez engravida (ainda há muitas pessoas que acham que não). E, depois, a contracepção: tenho histórias de raparigas a achar que a pílula se deve tomar no dia da relação sexual. Algumas questões relacionadas com o orgasmo, ou seja, fazerem uma grande expectativa e depois aquilo não correr de acordo com o que elas pensam. Em relação aos homens, questões relacionadas com o desempenho, principalmente o tamanho do órgão genital e temos que ver que nós educamos os rapazes valorizando o órgão masculino.

Ainda se apanham perguntas como as que se liam há uns anos nos consultórios das revistas femininas?

Muito. Às vezes recebo perguntas que me deixam preocupada. Por exemplo, quando falo com raparigas sobre menstruação e as mães não as deixam usar um tampão, porque acham que perdem a virgindade.

"Os pais também têm muita dificuldade em abordar estes assuntos com os filhos, porque têm receio de dar informação excessiva e também porque, muitos deles, não estão muito confortáveis com a sua própria intimidade".

Pode concluir-se que a desinformação tem a ver com os jovens não falarem com os adultos sobre estas questões?

A principal forma de esclarecimento dos jovens é a internet e depois são os pares, portanto, os próprios colegas. Às vezes, alguns professores e gabinetes de apoio à saúde nas escolas. Com os pais, muitos não se sentem confortáveis. E os pais também têm muita dificuldade em abordar estes assuntos com os filhos, porque têm receio de dar informação excessiva e também porque, muitos deles, não estão muito confortáveis com a sua própria intimidade.

Os jovens estão a começar a sexualidade mais cedo?

Alguns estudos referem que os jovens até têm estado a começar a sexualidade mais tarde. Têm uma atitude mais responsável e outros objectivos que fazem com que não queiram logo ficar presos ao casamento ou à paternidade. No entanto, continuamos a ter muitas situações de gravidez indesejada e muitas meninas que engravidam muito cedo.


Vê também: "A história da pílula contraceptiva"


É importante chegar até eles através das novas ferramentas online, como fazes através da linha de esclarecimento na rede social WhatsApp?

Temos de nos ir adaptando àquilo que os jovens procuram e o WhatsApp é uma ferramenta fácil para chegar aos jovens e eles rapidamente chegarem a nós. A conversa é confidencial e falo individualmente com cada pessoa, tirando dúvidas e fazendo reencaminhamento, caso seja necessário. Já tinha havido uma experiência de utilização deste serviço em Espanha, que correu muito bem e nós pegámos na ideia e implementámos cá. Os homens perguntam muitas coisas sobre a performance e as mulheres sobre contracepção.

A educação sexual nas escolas continua a não reunir consenso, nomeadamente entre os pais. De que falamos quando falamos de educação sexual no pré-escolar ou no primeiro ciclo?

As pessoas associam muito a sexualidade à genitalidade e nós quando vamos para a escola falar com os meninos do pré-escolar, a partir dos quatro anos de idade, falamos sobre questões de identidade, para que eles descubram quem são e consigam respeitar os outros. Trabalhamos também os sentimentos, as sensações, a prevenção da violência sexual referindo que o corpo é especial e ninguém pode tocar nele, a questão da não descriminação da diferença... isto tudo se trabalha em sexualidade, que é muito mais do que sexo. Existe ainda muita dificuldade para explicar coisas simples, como o que são as famosas sementinhas. Os pais ainda falam das sementinhas e eu chego ao fim do primeiro ciclo e os miúdos ainda acham que têm sementinhas como se fossem plantas. Há que desmistificar estas coisas.

"É muito importante dar o nome aos órgãos genitais. Acabar com a história do pipi e da pilinha, que não nos leva a lado nenhum. Se os pais chamam os nomes certos às outras partes do corpo, porque é que hão-de arranjar nomes ridículos para chamar aos órgãos genitais?".

Como é que os pais podem explicar?

Para já, é muito importante dar o nome aos órgãos genitais. Acabar com a história do pipi e da pilinha, que não nos leva a lado nenhum. Se os pais chamam os nomes certos às outras partes do corpo, porque é que hão-de arranjar nomes ridículos para chamar aos órgãos genitais? No pré-escolar não é preciso dizer que dentro dos testículos estão os espermatozóides, porque se calhar a criança não vai perceber. No primeiro ciclo, usamos as palavras certas.

Isso contribui para que quando cheguem a adultos tenham uma sexualidade mais saudável?

Pelo menos para que tenham conhecimento para se protegerem e perceberem que todos os corpos são diferentes. Eu vejo isso na puberdade, em que os miúdos se recusam a tomar banho nas escolas. Nós educamos para a protecção do corpo e, muitas vezes, os miúdos são obrigados a tomar banho na escola ao molho. Estamos a forçá-los a uma exposição que pode não ser confortável para eles. Era urgente que as escolas tivessem oportunidade de ter espaços com mais privacidade.

Os crimes de violência sexual contra as crianças acontecem com frequência na família ou pessoas próximas... é importante que os esclarecimentos cheguem através da escola ou de outras figuras de referência fora do círculo mais próximo?

No caso da violência sexual existe muita ameaça associada. O agressor vai usar de todas as estratégias para convencer a criança que aquilo é uma coisa normal, portanto é importante que as crianças sejam sensibilizadas para perceberem o que é um segredo bom e o que é um segredo mau. Tudo tem que ser trabalhado desde cedo. E, nas pessoas de confiança a quem as crianças contariam se alguma coisa de grave acontecesse, devem estar os pais e devem estar outras pessoas de referência, a professora ou educadora e a comissão de protecção de menores, que devem saber que existe.

Quais são os principais sinais de alerta?

É muito relativo. Para já, a criança começa a apresentar alterações do comportamento: humor, ansiedade, recusa em estar com determinadas pessoas, pode começar a fazer xixi à noite, pode ter lesões, pode começar na escola a ter comportamentos demasiado sexualizados, alterações do sono ou alimentação, pode mostrar-se triste, isolada, manifestar medos, tudo isto são sinais que devem preocupar os pais.

"Muitos jovens que já fizeram sexo oral nem consideram isso sexo".

Com a Internet e os perigos associados ao online, é mais importante as crianças estarem informadas para estas questões desde cedo?

Hoje em dia os miúdos nunca estão sozinhos. É muito importante treinar as crianças para não exporem o seu corpo e não darem informações. Há também o problema de as pessoas não saberem o que é violência sexual. Quando vamos para as escolas e falamos com os jovens sobre isto, eles acham que violência sexual é forçar uma pessoa a fazer sexo e desculpabilizam tudo o resto.

A educação sexual também tem um papel na igualdade de género e não discriminação da mulher.

Sim. Falamos com os jovens sobre a questão da pornografia, para que eles percebam que o que vêem é um filme e não representa a intimidade. Hoje em dia há muitos jovens que já fizeram sexo oral e nem consideram isso sexo, consideram preliminares.

Têm uma ideia distorcida da sexualidade?

Alguns sim. Outra situação que falamos muitas vezes tem a ver com a tomada de decisão, a pressão dos pares e o álcool. Temos muitos jovens que a primeira vez foi sob o efeito do álcool, o que nos traz alguns problemas. A consciência está alterada e não sabem até que ponto estão a consentir. E depois, a protecção. E às vezes há confidências de meninos e meninas que não sabem se usaram preservativo ou que não se lembram da primeira vez.


Vê também: "Idade de consentimento"


Voltando à igualdade de género, estamos muito longe em Portugal de ter uma sociedade em que isso é uma realidade?

Sim, ainda assistimos a coisas impensáveis. Ainda se educa muito os meninos para a masculinidade e a verdade é que o machismo é tão negativo para os homens como para as mulheres. Continuamos a educar os homens para serem fortes e as mulheres para serem princesas. É um erro. Se numa relação queremos ter um homem sensível ao nosso lado, não podemos dizer aos meninos para não chorarem porque são maricas. Continuamos a fazê-lo e continuamos a achar que a orientação sexual é uma coisa que aparece da educação, quando não tem nada a ver.

Os brinquedos chamados "gender free" são um excesso do politicamente correcto ou são realmente úteis?

Vamos ver: as crianças ainda não nasceram e os pais já fantasiaram um conjunto de coisas em relação àquele indivíduo, decoram o quarto em função do género e isso é muito limitador da felicidade das crianças. As crianças estão rodeadas de elementos altamente discriminatórios: os meninos estão enfiados num universo azul e as meninas num universo cor-de-rosa, as meninas lêem os livros das princesas e os meninos lêem os livros dos super-heróis. Os brinquedos neutros em relação ao género são importantes numa primeira fase.

Cláudio Garcia é jornalista do JORNAL DE LEIRIA.