O Cara que Está na Abertura da Novela Quer Sair Fora de Paraisópolis

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O Cara que Está na Abertura da Novela Quer Sair Fora de Paraisópolis

A TV ama Paraisópolis, mas talvez a recíproca não seja verdadeira.
8.6.15

Berbela e seus filhotes. O cara não para… Todas as fotos por Ricardo Matsukawa.

"Querem que [eu] saia daqui. Mas não é assim. São 14 anos aqui. Pago o aluguel certinho. Nunca atrasei um dia." Treta de vizinho é um saco. O Antônio Ednaldo da Silva, o Berbela, 50, está meio cabreiro com sua locatária. Diz que ela faz jogo duro, não o deixa expor seu trampo como artista plástico direito. A vizinhança também não tem ajudado. "Só trabalho depois das 10h. E o povo ainda não quer. Quando chego, já gritam: 'Olha essa zoada aí! Deixa a gente dormir'.". O Berbela aluga dois quartos lotados das obras que produz durante o tempo do dia em que não está consertando motocicletas, o ganha-pão oficial. A arte dele é basicamente soldar ferro-velho e dar algum sentido para o que seria descartado. Das mãos dele, surgem capivaras, aranhas, escorpiões, gatos, ratos, violinos e até a P-36, aquela plataforma da Petrobras que afundou mar adentro no governo FHC.

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Manja a Estátua da Liberdade, os coraçãozinhos, os peixes, o cavaquinho, as câmeras e o tanque de guerra que aparecem na vinheta de abertura de I Love Paraisópolis? São todos do Berbela. Ele está feliz com a repercussão do trabalho, claro. O problema real tem sido a chatice do dia a dia: "Vou até ver um terreno em Embu das Artes que um parente me falou que poderia ser bom".

O Berbela tem uma veia acumuladora que lembra aqueles reality shows pavorosos de gente que não consegue se desfazer de nada e entulha a casa, a garagem ou até o próprio quarto. Recentemente, ele até passou a vender algumas peças. Mas a real é que ele precisa de espaço extra, ainda mais se quiser concretizar o sonho de criar um helicóptero em tamanho real feito de sucata (!). A Associação de Moradores está esperta. Todo mundo ali sabe que o Berbela é um patrimônio local e tenta agilizar um pico para ele trabalhar em paz. O destino para que a rusga de vizinhos não se alastre e termine num final cabuloso seria o Pavilhão Social, área que está prevista no plano de urbanização local. "O problema é que as obras estão paradas. A prefeitura congelou a verba. Pedimos um espaço para o Berbela, que é um artista que contribui para um bairro melhor. É uma pessoa de coração imenso e merece o espaço, né?". Quem diz é a Elizandra de Oliveira Cerqueira, recentemente eleita para o conselho da comunidade. Mas o Berbela lamenta, mesmo assim: "São 10 anos. Já não consigo mais esperar. Estou daquele jeito, pronto para explodir".

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Mesmo sendo uma voz importante entre os artistas da comunidade, não é todo mundo que concorda com o Berbela por ali. A maioria está bastante confiante no futuro de Paraisópolis. Há um certo entendimento de que chegou a hora e não dá mais para passar aperto. A Mônica Tarragó, 50, idealizadora do Ballet Paraisópolis, é uma dessas. "Que mão é essa?", "Alonga esse pulso" e "Esta barriga é de sábado e domingo?" foram algumas das tiradas que ela deu na criançadinha. Ela gosta de manter tudo bem rígido nas aulas, mas, em pouco tempo de conversa, se derrete. Faz o tipão mãe-severa-coração-enorme, e todo mundo está ligado na dela. Ela é respeitada e amada por ali. São 300 meninas e 10 meninos matriculados regularmente, uma fila de 800 pequenos na espera e a possível profissionalização de boa parte dessas crianças em alguns anos. O xodó maior da Mônica é o David Rocha, 10, que deu um plié na intolerância. "Começaram a tirar sarro dele na escola falando que era bichinha, viadinho. Então, ele chamou os moleques para virem ao balé aprenderem como é difícil. Vieram e estão aqui até hoje", me contou a Mônica.

David, o ícone do ballet em Paraisópolis.

Em 2020, será formada a primeira turma de bailarinos. De lá, Mônica aposta que o destino de boa parte é o exterior. Propostas, conta ela, já não faltam. A chegada da ginasta Daiane dos Santos para um projeto de ginástica olímpica dentro da comunidade é outro ponto favorável, segundo a professora. "Ela tem disciplina militar como nós. Não pode comer, viajar, tatuar, engravidar, ir à balada…".

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Na mesma pegada do "Não tem como dar errado" está o grafiteiro Diego Soares, o Digo, 33. A ideia dele é rabiscar as vielas para transformá-las em galeria a céu aberto. De fato, pela potencialidade de Paraisópolis, até que são poucos grafites. As paredes de algumas das ruas com grande circulação ganharam os dizeres "I Love Paraisópolis", mas a arte urbana tem um montão de espaço por explorar ainda. O projeto do Digo já está na ponta da agulha. Nos próximos meses, 60 grafiteiros devem descer o safarro e criar alguns corredores completamente estilizados. A frase "Aqui ficaria da hora" foi pronunciada pelo Digo pelo menos umas dez vezes no percurso que a gente fez pelas quebradas. Uma casa já serviu de cobaia, digamos assim. Digo e o Berg, outro grafiteiro local, pintaram o muro lateral e a entrada inteirinha da casa. A reação dos moradores da mesma viela foi maneira. Saíram praticamente no mesmo dia para comprar tinta e renovar o tingimento das suas casas também. "Tem muita gente pedindo. Mas tem material, tem custo… precisa se organizar."É esperar para ver, mas deve rolar bem.

O grafiteiro Digo e seu trampo.

A pista de skate também ganhou o trampo do Digo e do Berg.

Às 9h47 de uma segunda-feira, o MC Pikachu saía com potência dos alto-falantes ali na ladeira da Rua Ernest Renan. Há controvérsias sobre o que quer afinal a novinha. Mas era fatal que Paraisópolis tivesse um espaço próprio para a música. A Rádio Comunitária Nova Paraisópolis chega aos ouvidos dos moradores pela frequência 87,5 FM. São dez locutores e, desde maio, o serviço é 24 horas - sendo 14 delas com programas ao vivo. Recentemente, uma operadora de celular resolveu bancar parte da reforma e a rádio ganhou sede própria, abandonando de vez o cubículo onde a galera trabalhava dentro da Associação de Moradores. Na parede da sede nova, foram feitos uns grafites de Heitor Villa-Lobos, Pixinguinha, Tim Maia, Luiz Gonzaga e Cartola, uma amostragem bem didática da multiplicidade sonora que impera por ali. "Tem um senhor que vem todo dia aqui, deixa um papelzinho com o nome da música. Ele sempre pede para a gente esperar uns 30 minutos, que é o tempo de ele chegar em casa." Quem conta a história é a Karina Sampaio, que coordena a parada toda. Da cabine, no outro lado da sala, os locutores anunciam a presença da VICE pelas quebradas por duas vezes no período em que estivemos ali. Na mesa, estavam dois RGs perdidos e um CD pirata da trilha sonora da novela global sobre a comunidade.

Faltava então trombar com a última figurinha carimbada do O tour Paraisópolis das Artes, que, pelos projetos artísticos do bairro, custa R$ 150: o jardineiro Estevão Conceição, o Gaudí de Paraisópolis, 56. Durante três décadas, ele foi moldando o teto, as paredes e as colunas de sua propriedade de 75 m² na Rua Hebert Spencer. No final de tudo, o "Castelo de Pedra" ganhou aparência similar ao Parque Guell, em Barcelona. Ninguém sabe se é por não ter tido destaque maior na novela, mas o fato é que o artista estava bicudão. Ele quis que eu e o Matsukawa, novamente o fotógrafo da matéria, pagássemos R$ 30 cada pela conversa. Trocamos ideia, explicamos que isso não era comum, mas não estava rolando. A mulher de Estevão, a Edilene Souza Conceição, foi bastante simpática, porém nos alertou que ele estava irredutível. No fim, o Gaudí mandou a real: "Está todo mundo ganhando dinheiro com isso aqui. Menos eu". Ele não abria mão. Então, era hora de sair fora.