Chama no grau, papai
Foto: Felipe Larozza/ VICE

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Chama no grau, papai

Umas foto loca e um texto bem explicado sobre o grau, aquele lance de empinar moto.
29.3.16

Da zona leste à zona sul, da norte até a oeste, há anos os moleques estão por aí empinando bicicleta, mobilete, triciclo, moto. Tem roda? Os manos empinam, ou melhor, "chamam no grau".

Faz tempo que o grau virou um esporte nas quebradas de São Paulo. Empinar bicicleta hoje é conhecido como wheeling bike. Antes, era só grau. Empinar moto ainda não teve seu batismo, então o nome ficou o mesmo: grau. Uma bela puxada no acelerador e a roda da frente sai do chão. O eixo do mundo começa a girar a milhão. A subida é rápida e certeira: 90 graus. Ângulo reto mesmo, que é para testar o velho Newton.

Foto: Felipe Larozza/ VICE

A cada ano que passa surgem novas manobras, novas motos e novas lendas. Começam a crescer também as crews, como a Vila do Grau, da zona norte de São Paulo, que surgiu em uma conversa na garagem e hoje tem mais de 20 mil seguidores no Facebook e mais de 100 membros no grupo.

"Grau é uma sensação inexplicável de adrenalina com felicidade. É o controle total da moto", explica Danilo Yago, o Nelito, de 23 anos — desde os 16 chamando moto no grau. Nelito é empresário, tem uma loja que instala persianas e passa o dia pra lá e pra cá munido da sua inseparável moto. Ele já sofreu tantos acidentes e conta histórias tão intensas entre recuperações e novas quedas que daria um livro de auto-ajuda fácil.

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A molecada da Vila do Grau, da zona norte, explicou em várias mensagens as principais e mais "básicas" manobras do grau:

Grau: Empinar a roda da frente da moto em um ângulo de 90 graus — de preferência a milhão.

RL: Freiar a roda da frente e deslizar com a roda traseira empinada. É bom deslizar mesmo papai, se não é dente no pixe.

Ralão: É largar o freio da moto e vir raspando a churrasqueira no chão, conhecida nos catalogos da Honda como "alça", aquele ferro que o garupa segura para não tomar rola. A ideia é tirar faísca dele.

Corte: Passar do grau e cortar a embreagem, segurando só no freio.

Foto: Felipe Larozza/VICE

O Código de Trânsito Brasileiro é especifico com a questão de equilibrar-se em apenas uma roda. De acordo com o artigo 244-III, as punições previstas para quem se arrisca são: multa, sete pontos na carteira, suspensão do direito de dirigir e apreensão do documento de habilitação. Por esses e outros motivos, os praticantes do grau não são benquistos pela Polícia Militar.

"O nosso esporte sofre muito preconceito. Não temos espaço para treinar. A polícia sempre tenta atrasar, mas sempre 'toma fuga'", relata Canidia, o Alemão, de 22 anos. "Eles nos odeiam por andarmos de moto, por sermos maloqueiros, loucos e contra o sistema."

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Alemão, que é entregador de pizza, diz que já teve mais de 40 motos. Todas feitas a partir de sucatas. "Uso minha moto para trabalho, lazer e esporte. Amo o que eu faço."

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As histórias com a polícia fazem parte do grau e essa é das boas: um belo dia, em umas das pistas da Marginal Tiête, Jadis Pracinha, de 23 anos e há 10 praticando grau, avistou a uns cinco quilômetros o helicóptero da Polícia Militar voando baixo. "Empinei ali na via com a maior tranquilidade. Achei que nem dava para me ver", ele conta. "Quando me liguei, eles já estavam em cima de mim. Eu só acelerava, sem saber o que estava acontecendo. A única coisa que eu tinha feito de errado foi chamar a moto no grau."

Assustado e depois de mais de meia hora de fuga, Jadis foi parar num campo de futebol, cercado por algumas pessoas que estavam no gramado e um baita vendaval provocado pelo helicóptero que pousava. "No meio do campo eu caí, levantei a moto e caí de novo enquanto o policial gritava: 'Para! Para!'." Já na delegacia, Jadis descobriu que, na real, ele havia sido confundido com um assaltante pela descrição da moto. Foi só um susto.

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Ele, que começou empinando mobilete pelas ruas da zona leste, é conhecido como "cupim de aço" pelos camaradas, de tanta moto que destruíu em batidas. "Praticando 'surf' em cima do banco da minha Fan 150 eu caí dentro de uma garagem e tive meu braço quebrado. Foi aí que comecei a empinar com o pé esquerdo na embreagem e com uma mão só", ele fala.

Hoje, não existem competições oficiais, regras e nem locais legalizados para a prática do grau, que acontece nas ruas e em alguns cantos que vão aparecendo pela cidade. Mas até um funk pro rolê já tem.

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