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Lúcio Flávio Pinto: Não acredito mais. O Tribunal teve várias oportunidades de se corrigir e não o fez. O presidente do STJ foi rigoroso demais ao ignorar o recurso por causa de detalhes formais. Trata-se de uma perseguição política, contra a qual decidi reagir politicamente. Há quase duas décadas litigo na Justiça contra pessoas poderosas. São nove apenas as que me acionaram: donos do maior grupo de comunicação do Norte, magistrados, grileiro, madeireiro, político… Mas elas abusaram do seu poder e extrapolaram seu direito na tentativa de me condenar. Como provo tudo que digo, a verdade está do meu lado. Para eles a única saída era extrapolar a lei. Fizeram isso, tanto que me cansei. Depois de 33 processos, numa história que fará 20 anos em setembro (quando o Jornal Pessoal completará 25 anos). Achei que a melhor resposta era mobilizar a opinião pública e não permanecer circunscrito ao fórum. Quando o presidente do STJ não acolheu o meu recurso, por falhas na formação da documentação, falhas todas meramente formais, sem atentar para o contundente conteúdo dos autos, provando todos os absurdos, decidi reagir politicamente a um processo que sempre foi político. Ao invés de continuar preso à instrução processual que me sonegou o direito de defesa, resolvi denunciar a justiça, por sua parcialidade. Não recorri e vou pagar a indenização ao grileiro, protegido na justiça estadual enquanto a justiça federal de Belém decidiu, em novembro do ano passado, mandar cancelar os registros imobiliários de propriedade feitos em nome dele.
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Comecei no jornalismo profissional dois anos depois do golpe militar de 64. Nem sei como -- me alfabetizei lendo dicionários. Aos 16 anos escrevi meu primeiro texto para um grande jornal. Já seguia as regras do new journalism americano e jornalismo investigativo. Comecei fazendo o que faço hoje -- exerço minha profissão e cumpro meu ofício. Só isso. Sou um caçador de fatos cuja obrigação é entregá-los à sociedade para o melhor uso possível em prol do interesse coletivo. [Enfim, durante a Ditadura] fui processado uma única vez, em 1976, pela Lei de Segurança Nacional. O processo foi para a Justiça Militar, mas o auditor militar a desqualificou. Na justiça comum, o representante do Ministério Público disse que eu devia ser era condecorado, por denunciar a violência policial, e não punido. O processo foi arquivado.Esse processo do CR Almeida, pelo que parece, de uma hora pra outra pareceu se transformar num lance Estado do Pará versus Lúcio Flávio Pinto.
O que ficou claro foi a tendenciosidade do Tribunal. Um contraste brutal entre o que fizeram os desembargadores e como agiu a juíza da 10ª vara criminal do fórum de Belém. Ao ser informada sobre a morte de Cecílio Almeida, que propôs também duas ações penais contra mim (uma delas distribuída para a 10ª vara), ela deu prazo para os sucessores se habilitarem em 60 dias. Como eles não se apresentaram, ela simplesmente extinguiu o processo. Os desembargadores fizeram o contrário, e só depois de dois anos e meio abriram prazo para os herdeiros -- que perderam esse primeiro prazo. Ganharam um segundo [prazo], e mesmo assim não preencheram as exigências. Até que a cumpriram, de forma completamente ilegal. O tribunal sabia o que estava fazendo: violando a lei.
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O maior gasto é emocional, de tempo perdido, de frustração. As despesas materiais derivam das custas processuais, da coleta de material, da movimentação… Os quatro advogados que já me defenderam (dois amigos e dois parentes) nada cobraram. Mas a campanha é para pagar a indenização. Ela já atingiu R$ 7 mil. Prefiro que as pessoas depositem valores pequenos para que seja como pensei: o máximo de pessoas com o mínimo de custo individual. Pretendo fazer um pagamento simbólico no tribunal na companhia de quantos dos pagantes quiserem me acompanhar. Vamos responsabilizar o Tribunal por estarmos pagando a um grileiro, que queria ficar com 8% das terras do Pará.Em uma das suas notas veiculadas pelos sites que estão acompanhando o caso o Sr. diz: "Mas também é verdade que, na linha de frente e agindo poderosamente nos bastidores, um grupo de personagens (para não reduzi-lo a uma única figura fundamental) continua disposto a manter a condenação, alcançada a tanto custo, depois de uma resistência extensa e intensa da minha parte. Esse grupo (e, sobretudo, esse líder) tem conseguido se impor aos demais de várias maneiras, ora pela concessão de prêmios e privilégios ora pela pressão e coação. Seu objetivo é me destruir. Tive a audácia de contrariar seus propósitos e denunciar algumas de suas manobras, como continuo a fazer, inclusive na edição do meu Jornal Pessoal que irá amanhã às ruas." Quem é esse grupo e quem é esse líder?
Ao contrário do que sempre faço, preferi não identificar essa pessoa, que age pelos bastidores, à espera de que seus pares o façam, além dos servidores. Para que todos saibam que também estou informado sobre algumas ações que quase não deixam pistas nem provas, mas em relação às quais é possível apresentar evidências tão fortes que funcionam como provas, inclusive no procedimento judicial. Gostaria que as pessoas de bem da justiça paraense também reagissem e afastassem aqueles que podem realmente ser classificados de "bandidos de toga". Se a correção não vier por dentro, certamente virá de fora. Com essas denúncias, não é possível mais manter tudo dentro do tribunal ou circunscrito aos autos. Tudo isso virou segredo de polichinelo.
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Já sofri muitas ameaças anônimas de morte, já consegui desfazer uma tentativa de pô-la em prática e já fui agredido fisicamente três vezes. Mas não desisti. A melhor maneira de me proteger é me antecipar aos que planejam me fazer mal. Para isso conto com minha excepcional rede de informantes, em todas as posições e locais. Recorro sempre a eles quando há alguma indicação hostil.Isso quer dizer o quê: andar escoltado, armado, evitar sair de casa…?
Previno-me contra qualquer forma de paranóia. Procuro viver uma vida normal. Não tenho seguranças e nunca tive. Nem ando armado. Procuro apenas evitar sair pela noite, ir a bares, festas. Evito concentrações de pessoas. Ando rápido, mas sempre andei assim, desde menino (sempre fui um andarilho, antes de essa atividade se tornar moda). Os belenenses têm que andar assim, mas para prevenir assaltos e outras agressões. Belém é uma das quatro capitais mais violentas do Brasil.Vive com medo?
Não, felizmente. Já houve época em que meu medo era maior do que a minha coragem. Mas o jornalismo impõe tanta coisa a quem o exerce na linha de frente que a gente perde o cacoete. Tenho medo, às vezes, quando o jornal sai da gráfica e vou lê-lo. Digo em silêncio: "Lúcio, tu és maluco em publicar isso aí". Depois esqueço.Tem recebido apoio da OAB, ou órgãos ligados à imprensa (Fenaj, Sindicatos etc.)?
Sim, tenho. Mas o maior apoio tem sido das pessoas. Sem esse apoio dificilmente eu teria prosseguido.Depois de tudo isso e tanto tempo, guarda alguma mágoa de tudo isso? Da Justiça, da mídia, do Pará, do Brasil ou sejá lá de quem for? O que mais doeu em tudo isso?
Já são quase 20 anos de uma vida de 62 anos acorrentado a processos judiciais. Com sinceridade, não sei como consegui manter a sanidade e a disposição para o trabalho com o tanto que amarguei nesse longo período, que ainda não tem fim -- muito pelo contrário. Não tenho mágoa alguma de ninguém. Mas fico perplexo que esse Gulag se tenha constituído durante o período de mais longa democracia na república brasileira, tantas vezes vítima de golpes de estado. O que me preocupa é não conseguir sensibilizar a sociedade para a gravidade do meu caso. Não é um caso individual fortuito, uma briga pessoal. Ele prova que ainda não vivemos numa democracia, embora o nosso regime tenha todas as aparências de democrático. Muita coisa é destruída por pressão ilegítima e pela covardia das pessoas.