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Clandestinas

O ​documentário Clandestinas, roteirizado por Renata Corrêa e dirigido por Fádhia Salomão foi produzido para lembrar o dia latino-americano pela legalização do aborto, 28 de setembro.
26.11.14
Ilustração por Juliana Lucato.

​Aborto é sempre um assunto espinhoso e pesado. Como mulher, eu sempre penso sobre qual seria minha decisão se eu descobrisse uma gravidez indesejada. Acredito que um cara que descubra que engravidou alguma mulher também fique refletindo sobre a questão da paternidade e do direito de escolha da moça. É um assunto que não serve para mesa de bar e nem para reunião de família no natal.

Mas foi justamente o silêncio em torno disso que fez com que, em setembro desse ano, algumas mulheres dessem as caras falando sobre aborto. Na verdade, sobre seus próprios abortos. Os grupos feministas andam pirando ainda mais nesse assunto desde então. O ​documentário Clandestinas, roteirizado por Renata Corrêa e dirigido por Fádhia Salomão foi produzido para lembrar o dia latino-americano pela legalização do aborto, 28 de setembro. São atrizes interpretando histórias de mulheres que abortaram que se misturam com relatos de mulheres que passaram mesmo pelo procedimento. As interpretações e os depoimentos verdadeiros são indistinguíveis— numa pegada Jogo de Cena, do Eduardo Coutinho.

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O filme foi feito por iniciativa voluntária, financiado por ONGs, movimentos feministas e pessoas físicas que toparam ajudar. Tudo entre amigas, quase toda a produção foi composta por mulheres. Vários depoimentos são de pessoas conhecidas, alguns de anônimas do site Somos Todas Clandestinas.

​Renata Corrêa. Foto por Anna Mascarenhas.

Conversei com a Renata e ela me contou que algumas organizações feministas se reuniram em São Paulo em agosto e, de lá, surgiu a ideia de trazer o tema à tona através de um blog, produzido durante o mês de setembro. O último post, no dia 28, foi o documentário. Renata conta que o objetivo era mostrar que as mulheres que fazem aborto estão perto de nós, são nossas mães, amigas, primas, colegas de trabalho: "Não são criminosas, não são pessoas completamente despirocadas e irresponsáveis".

Por ano, estima-se que aconteçam cerca de um milhão de abortos no Brasil. Mesmo assim, a prática ainda é considerada crime por aqui e, por isso, as mulheres recorrem à clandestinidade. Algumas chegam a pagar mais de R$ 3 mil em clínicas razoáveis – ou menos do que isso em clínicas que parecem açougues mesmo. Outras recorrem ao famoso Cytotec, que varia de preço e também de confiabilidade – o remédio é abortivo e proibido no país, por isso também é muito falsificado.

Algumas mulheres sobrevivem. Outras não.

Esse ano, os casos de duas dessas mulheres que morreram ao recorrer a clínicas clandestinas de aborto no Rio de Janeiro moveram grandes ações da polícia para prender as pessoas envolvidas: Jandira e Elizângela. Inclusive o ex-marido de Jandira foi indiciado como cúmplice por tê-la levado até o ponto de encontro com a equipe da clínica.

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Tanto Jandira quanto Elizângela já eram mães.

Ambos foram casos trágicos e simbólicos — e infelizmente não são exceções: o aborto é a quinta causa de morte materna no Brasil e considerado problema de saúde pública no país pela Anistia Internacional.

Mesmo assim, se mostrar a favor da legalização do aborto ainda pega mal e também pode gerar tretas em períodos eleitorais – como nas eleições presidenciais de 2010, em que a presidenta Dilma Rousseff voltou atrás em suas declarações sobre o assunto.

Em entrevista à VICE, Fádhia disse que o problema é que o aborto ainda é muito tratado como questão de opinião, ou pelo viés da religião, sendo pouco levado a sério. "É até conveniente para as pessoas, para o governo, ser assim. As mulheres continuam morrendo, as pessoas continuam com discurso de ódio sobre quem pratica o aborto e é isso, a gente fecha os olhos, finge que o assunto não tem a importância que ele tem", ela diz. Ninguém se responsabiliza.

O discurso de ódio, inclusive, está presente nos comentários na página do documentário no YouTube. Fádhia desconfia que essas pessoas nem assistem ao filme, ou se assistem acham que todas aquelas mulheres são assassinas. Isso a deixa na dúvida sobre se estamos no caminho para uma efetiva legalização do aborto no Brasil: "Perco um pouco do otimismo, não vejo grandes movimentos políticos, por parte dos próprios políticos, acontecendo pela legalização".

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Renata também acha que o Estado tem fechado os olhos para o problema e "permite que essas mulheres sejam assassinadas". Para ela, estamos vivendo um momento muito conservador na sociedade e ainda somos um país muito religioso. E também deseducado, porque, para ela, as pessoas acham que a partir do momento que espermatozoide entrou começou a vida, é um bebê pronto e esquecem que já fomos um amontoado de células, zigotos e fetos.

Mesmo assim, ambas acham que o documentário é um passo para criar uma empatia por essas mulheres e questionar a criminalização. Segundo elas, ninguém precisa ser a favor do aborto, você pode ser pessoalmente contra, mas também pode (e deveria) ser a favor dele ser legalizado apenas para que as mulheres parem de morrer.

Renata se mantém mais otimista. "Nós somos um país civilizado, por que não estaríamos preparados [para legalizar o aborto]? Talvez as nossas instituições é que não estejam preparadas", ela reflete.

E provavelmente não estão mesmo. Em maio desse ano, o Ministério da Saúde revogou a portaria 415, que incluía o aborto legal na tabela do SUS. De acordo com a lei brasileira, o aborto é permitido em casos de risco de saúde para a vida mãe, casos de gravidez por estupro e quando o feto é anencéfalo. A portaria foi revogada depois de críticas da Bancada Evangélica.

Só que colocar o aborto na criminalidade não diminui o número de incidências da prática. De acordo com a Pesquisa Nacional do Aborto, uma em cada cinco mulheres entre 18 e 39 anos já abortou no Brasil. Efetivamente, a lei serve para provar que nosso país ainda é muito machista, já que nós, mulheres, perdemos nosso direito de fazer escolhas sobre nossos corpos.

E também serve para aumentar o sofrimento das mulheres que abortam, já que são vistas como criminosas e não podem conversar com ninguém sobre isso. Renata me contou que algumas das mulheres do filme estavam falando sobre seus abortos pela primeira vez. "O silêncio é algo que pesa muito", ela lamenta.

E poder falar sobre isso é um alívio e também uma libertação para as mulheres.

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