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O que aprendemos com o último debate do primeiro turno das eleições em SP

Doria toma descompostura de Erundina, Marta e Russomanno chegaram na lerdeza e Haddad foi o mais atacado na reta final pela prefeitura paulistana.
30.9.16

Imagem: Reprodução/TV Globo.

O último debate entre os candidatos à prefeitura de São Paulo antes da votação do primeiro turno, realizado na noite desta quinta (29) pela Rede Globo, foi um pouco menos morno que a série anterior, mas ainda assim ficou devendo às fortes emoções de debates como o carioca, por exemplo, onde a própria Globo pediu "direito de resposta" depois de ter sido chamada de golpista por Jandira Feghalli (PCdoB).

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O formato do debate, que tem apenas os candidatos trocando perguntas (dois blocos livres, dois com temas sorteados) numa mesinha de centro, é um pouco mala e, dado o recente histórico de evitar o embate, tinha tudo para dar errado, mas acabou rolando. Com o segundo lugar das pesquisas embolado — Celso Russomanno (PRB) e Marta Suplicy (PMDB) apresentaram queda durante a semana, enquanto o atual prefeito Fernando Haddad (PT) começou a deslanchar depois de mais de um mês estacionado — é natural que o foco de disputa se dê entre esses candidatos.

Como vem acontecendo desde o início da corrida eleitoral, Haddad foi o mais criticado, mesmo quando candidatos como Russomanno claramente planejam copiar as propostas do petista. A questão da saúde, uma das mais caras ao prefeito, foi bastante lembrada, e Doria e o candidato do PRB também prometeram voltar com as antigas velocidades máximas em vias expressas na capital paulista. Russomanno foi ainda mais longe em apelar ao amor de paulistano pelo carro e prometeu suspender multas de trânsito não julgadas, enquanto Doria se contentou em propor que a Guarda Civil Metropolitana deixe de auxiliar no trânsito da cidade. Marta, por sua vez, prometeu a volta da inspeção veicular, dessa vez de graça e facultativa.

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De fala arrastada e às vezes soando incoerentes, Marta (que em diversos momentos parecia se perder nas falas) e Russomanno se agrediram indiretamente. A pemedebista voltou a acusar Russomanno pelo restaurante do qual ele foi sócio em Brasília, que fechou deixando dívidas trabalhistas, e o apresentador de TV teve que utilizar tempo da sua fala final para se defender. Já com Doria, Marta foi um anjo: perguntou ao tucano sobre o que ele faria a respeito de ocupações ilegais na cidade, mas não lembrou que Doria foi recentemente condenado a devolver uma invasão feita por ele mesmo em uma área pública em Campos do Jordão.

Um dos momentos mais bizarros foi a discussão entre Marta e Doria sobre pixação e vandalismo na cidade. Marta tentou adotar um estilo mais conciliador de quem pelo menos viu um documentário sobre o tema, falando que pixo é "adrenalina" e defendendo a repintura constante dos aparelhos públicos pixados, enquanto Doria adotou o tom de programa policial e só faltou chamar os pixadores de "vagabundos" — porém Marta fechou o estranho diálogo defendendo que se construam mais pistas de skate, afinal "quer adrenalina, vai andar de skate", na visão da ex-petista. Se a mansão de Doria amanhecer foscada, vocês já sabem os motivos.

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O passeio de Doria, líder das pesquisas, foi tão grande que nem foi confrontado por reclamar do aumento do preço do crack ao criticar o programa "Braços Abertos" da Prefeitura. Porém, o psdbista deu uma escorregada feia com Luiza Erundina (PSOL), a quem chamou indiretamente de velha, ao dizer que tinha uma trajetória "moderna, atual e transformadora", ao contrário da candidata psolista. Foi a deixa para tomar uma bela descompostura: "velho é você, tão velho como qualquer político no Brasil que diz não ser político", rebateu a octogenária. Doria ficou tão desconcertado que pediu desculpas à Erundina nas suas considerações finais.

Haddad, por sua vez, até que se saiu bem em confrontar os adversários, provavelmente mais confiante com a sua ascensão nas pesquisas. Chamou todo mundo de "desinformado" e bateu na tecla dos números da sua gestão. Sobre a velocidade nas vias expressas, fez dupla com Marta e defendeu os limites atuais como medida de proteção à vida.

A corrida eleitoral em São Paulo chega a seus últimos dias indefinidas. João Doria, indicação tucana forçada pelo governador paulista Geraldo Alckmin (PSDB) — quem não se lembra da foto do Bininho nas prévias do partido? — disparou a partir do início do horário eleitoral gratuito, ancorado no seu próprio poder econômico, num discurso anti-política (repete em todos os debates a ladainha de ser um "gestor, não um político") e no grande tempo de TV, conquistado por inúmeras alianças de Geraldo e que no final pode custar sua candidatura, indiciada pelo Ministério Público Eleitoral por abuso do poder político.

Russomanno, líder no início da corrida, vem derretendo nas pesquisas, como aconteceu em 2012, quando terminou em terceiro lugar. Contra si, o deputado federal tem uma ficha corrida de B.O.s para a eternidade que vão de humilhar caixas de supermercado em seus programas de TV a assédio de modelos em frente às câmeras em antigos carnavais. Já Marta, que trocou o PT pelo PMDB em 2015, acabou costurando uma insuspeita aliança com seus antigos rivais José Serra (PSDB) e Gilberto Kassab (PSD) ao acolher outro desafeto, Andrea Matarazzo (PSD) em sua chapa — seu vice foi o derrotado por Doria nas prévias tucanas. Além disso, conta com o problema de ter borrado a sua identificação partidária, forjada no PT, e agora sofrendo ao ter que defender medidas impopulares do governo Temer.

Haddad, por sua vez, sofreu para decolar — antes do início oficial da campanha, figurava atrás até de Erundina nas pesquisas graças à alta rejeição e a falta de identificação das periferias em relação ao seu projeto político. Vale ressaltar ainda que São Paulo não tem tradição de reeleger seus prefeitos, o único agraciado foi Kassab, e ele só havia cumprido meio mandato quando derrotou Marta em 2008. Em ascensão na reta final, conta com as quedas sucessivas de Russomanno e Marta para virar o jogo para si. Erundina, por sua vez, perdeu fôlego rapidamente, prejudicada pela falta de tempo na TV, por um discurso quase parlamentar nos debates e pelo que parece uma tendência da esquerda pelo "voto útil" em Haddad.

O primeiro turno das eleições municipais acontece neste domingo (2), e dificilmente será definido em São Paulo já nesta etapa. Aconteça o que acontecer, a tendência é que o segundo turno na capital paulista seja uma bela treta, da disputa de apoios partidários aos debates televisivos – o jogo é sujo e vai ganhar mais quem errar menos.

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