FYI.

This story is over 5 years old.

Noticias

Deus Não É Tão Brasileiro Quanto Os Imigrantes Haitianos Imaginaram

Muitos haitianos sonham em encontrar a prosperidade econômica no Brasil e a maioria se assenta em São Paulo. Mas para a maioria dos recém-chegados, a jornada aqui é repleta de dificuldades.
13.3.14

Pastor Charles prega em sua pequena igreja em Santa Felicidade. Foto por Vinicius Ferreira.

Fico observando enquanto o pastor Charles Antiochus, um capelão haitiano, se prepara para o culto de domingo. Sua pequena igreja evangélica fica no coração de Santa Felicidade, um bairro de Curitiba, Paraná. A área costumava ser o lar da comunidade italiana do estado, mas, recentemente, ganhou o apelido de “Pequeno Haiti” graças aos aproximadamente dois mil haitianos que vivem em Curitiba, muitos deles fugindo da devastação do terremoto de 2010 em seu país.

Publicidade

Muitos haitianos sonham em encontrar a prosperidade econômica no Brasil e a maioria se assenta em São Paulo. Mas, para a maioria dos recém-chegados, a jornada aqui é repleta de dificuldades.

Assim como centenas de milhares de migrantes antes dele, Amos D., de 22 anos, trocou o Haiti por Curitiba no final do ano passado. “Passei por muita coisa”, Amos me contou. Sua jornada, que começou em Gonaïves, uma cidade do norte no Haiti, e acabou no Paraná, foi extremamente perigosa. Essa é uma rota frequentemente usada pelos migrantes haitianos que não querem passar pelo tedioso – porém benéfico – processo de candidatura a um visto humanitário para o Brasil, e que, em vez disso, pagam cerca de R$7.000 para serem transportados para o sul do país sem autorização legal.

Uma varanda em Santa Felicidade, o “Pequeno Haiti” de Curitiba.

Amos viajou primeiro para a República Dominicana, depois voou para o Equador com um amigo após uma rápida passagem pelo Panamá. Quando chegou em Quito, a capital equatoriana, ele ficou com um dos contatos dos contrabandistas antes de rumar para o Peru. É aí que os migrantes enfrentam o maior perigo. Um jovem haitiano me contou que ficou vários dias enfurnado numa van com outros 11 imigrantes.

“No Peru, os migrantes haitianos sempre têm que se esconder nos bananais”, me contou o pastor Charles. Também ouvi que os contrabandistas subornam policiais peruanos, que podem roubar os imigrantes haitianos para fazer valer o acordo. “Às vezes, eles roubam nosso dinheiro, nossos relógios e até nossos sapatos”, disse outro haitiano, que preferiu permanecer anônimo.

Publicidade

A maioria dos imigrantes haitianos parece ter o mesmo objetivo: chegar em segurança ao Brasil, seja em Brasileia, no Acre, ou Tabatinga (Amazonas), onde eles recebem um CPF e registro de trabalho que permite que eles se assentem no país.

Um imigrante haitiano comprando passagem de ônibus.

As belas praias do país e a expansão econômica são combustível para as fantasias, mas a vida aqui raramente é do jeito que os migrantes haitianos sonhavam. Para começar, a sétima maior potência econômica do mundo não fornece muita segurança financeira aos imigrantes: “Há muito preconceito econômico contra os imigrantes”, explicou Nadia Floriani, advogada e voluntária da Casa Latino-Americana em Curitiba, que presta assistência legal gratuita aos recém-chegados. “Eles são mão de obra barata.”

Em outros países com grandes populações de imigrantes, essa mão de obra barata é explorada com frequência. Lucaindy, 27 anos, trabalhou cinco meses como pedreiro. “Meu chefe, que gostava muito de cachaça, não gostava nem um pouco dos trabalhadores haitianos”, ele disse. E quando o chefe ouviu dizer que Lucaindy queria largar o emprego, ele imediatamente parou de pagá-lo. Vulneráveis e relativamente desinformados, os haitianos são alvos fáceis; mesmo quando trabalham legalmente, os salários são muito baixos para fornecer qualquer segurança financeira viável.

Jean, um imigrante haitiano, no internato onde vive.

Os haitianos às vezes conseguem trabalho na construção, mas os salários nunca ultrapassam os R$1.000 por mês.

Publicidade

“Os salários no Brasil são extremamente baixos”, explicou Guiveny A., um haitiano que chegou ao Brasil seis meses atrás. “É muito difícil achar uma casa”, acrescentou Henrico Y., um mecânico que vivia em Porto Príncipe. Os aluguéis altos e os problemas administrativos dos imigrantes tornam a situação ainda mais difícil. Como resultado, muitos acabam se assentando na periferia de Curitiba. Algumas casas abrigam mais de dez haitianos, que compartilham as despesas e um espaço mínimo.

Os membros da comunidade haitiana também lutam para mandar algum dinheiro para parentes que ficaram no Haiti; porém, a taxa de câmbio não está a favor deles, já que o valor do real está estagnado e continua baixo em relação ao dólar. Jean, que vive num internato de propriedade de seu patrão, precisa pedir dinheiro à família, já que seu salário como garçom não permite pagar uma casa para a esposa e a filha.

Benjamin M., de 21 anos, também resolveu se juntar aos compatriotas em Santa Felicidade. Ele se mudou para cá dois anos atrás e trabalha como segurança. Interessado em tecnologia, Benjamin pretende abrir uma lan house e já começou a comprar computadores.

“Os salários estão nos matando”, disse ele num português perfeito. Mas graças ao apoio financeiro de parentes que vivem nos Estados Unidos, ele tem uma vida ligeiramente mais confortável do que os outros haitianos assentados no Brasil.

De volta à igreja, o pastor Charles começa seu sermão. “Brasil, Brasil… este país abriu suas portas para nós”, diz ele para os quatros haitianos sentados à sua frente. Continuando, num sermão que mistura crioulo, francês e português, ele encoraja sua congregação a não perder a esperança que, um dia, o país que os recebeu permitirá que eles prosperem.