Chegando ao Banco da Inglaterra no sábado para a grande manifestação antiausteridade, encontrei um mar de haters anti-tories de todos os tipos imagináveis: amantes dos animais fantasiados de texugo, percursionistas de samba, stalinistas não reformados, pessoas usando bottons "Vote Partido Trabalhista" como se a eleição ainda não tivesse acontecido, simpatizantes do Partido Verde e gente que não cai em nenhuma dessas categorias, sendo, portanto, de famílias trabalhadoras ou folgados, um grupo também conhecido como o povão.
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Não sei em que ponto esse cara se situa no espectro entre Homem Mondeo e Mãe Aldi, mas provavelmente era por isso que ele estava lá: como muitos outros na marcha, ele provavelmente sentia que tinha sido esquecido pelos árbitros do poder em Westminster; assim, viu que sair às ruas com uma regatinha Ed Hardyera era a única chance de ter sua voz ouvida.Os organizadores estimam que 250 mil pessoas tenham participado do protesto. Um número um tanto otimista – outros calcularam o público em algo entre 70 e 150 mil pessoas –, mas foda-se: muita gente apareceu para mostrar que não concorda com o grande plano de George Osborne de voltar aos valores vitorianos.Por mais impressionante que esse comparecimento tenha sido, isso não mascarou a sensação de que a esquerda ainda está se recuperando da vitória chocante dos conservadores na última eleição no Reino Unido. A proposta de liderança de Jeremy Corbyn deu alguma sensação de direção, mas será mesmo uma boa direção? Em certo momento, cruzei com um cara gritando que, se todo mundo no protesto tivesse se filiado ao Partido Trabalhista e votado em Corbyn, a vitória teria sido fácil. "Faça isso hoje!", ele incentivava. A conta dele era bastante discutível, porém, mesmo se todo mundo se filiasse, fico imaginando se isso não seria apenas mais forragem jogada na trituradora de centralização dos trabalhistas.Menos otimista era outro filiado dos trabalhistas: eu o ouvi dizendo que queria que sua candidata preferida, Yvette Cooper, perdesse. A razão era que, se o Partido Trabalhista vai perder mesmo em 2020, então – segundo ele – Cooper podia sair na frente, sem ter sido contaminada pelo fracasso, e liderar os trabalhistas na vitória em 2025.
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Em certo momento, um grupo de black blocs anarquistas se separou da marcha e foi a Elephant and Castle. Chegando lá, eles picharam "FODA-SE O CAPITALISMO" no tapume do canteiro de obras de um novo prédio de apartamentos gentrificados do bairro. Aí eles jogaram algumas bombas de tinta e ovos no tapume. Enquanto uma fileira da polícia se formava na frente dos apartamentos yuppies, os black blocs desistiram e voltaram até a marcha principal, que estava chegando à Praça do Parlamento para ouvir discursos de sindicalistas, acadêmicos de esquerda e Owen Jones.
Uma fogueira começou no fundo da praça, mas a polícia apagou o fogo rapidamente. Isso foi o mais perto que as coisas chegaram de um incidente que podia fazer a marcha ser notada pelo Daily Mail (um dos memoriais de guerra de Whitehall estava coberto com placas para evitar pichações).
O outro único incidente notável foi esse cara caindo numa barraca do Partido Socialista dos Trabalhadores, derrubando a coisa toda. No entanto, duvido que Paul Dacre e seus leitores liguem muito para alguns cartazes amassados e uma mesa quebrada.
Com celebridades tão diversas quanto Charlotte Church, Russel Brand e uma versão impressa de Wealdstone Raider entre o público – todos dizendo aos tories "If you want some, I'll give it ya" –, a esquerda pode ter algum consolo.No entanto, a pergunta sobre o que exatamente deve ser feito continua aí. Segundo John Rees, um dos organizadores, a marcha foi "só o começo" de uma campanha muito maior. "Precisamos atacar o governo de novo, de novo e de novo", ele disse.
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Mas não adianta nada jogar ganchos infinitos da esquerda se nenhum pegar. No dia seguinte ao protesto, o chanceler George Osborne e o secretário do Trabalho e Pensões, Iain Duncan Smith, escreveram um artigo para o Sunday Times."Esse governo foi eleito com um mandato para implementar mais economias", eles afirmaram, anunciando um plano para cortar ainda mais gastos com benefícios em £ 12 bilhões (R$ 58 bilhões) por ano. Foi uma reafirmação forte do comprometimento deles em não dar a mínima para a opinião do pessoal que nunca votaria neles mesmo.E, claro, a marcha não foi o "começo" – houve o movimento dos estudantes em 2010, seguido pela "Marcha pela Alternativa" de 2011. Naquele dia, duas vezes mais pessoas marcharam em Londres. E isso também não impediu os anos de austeridade que se seguiram.
O perigo é que – como diz o ditado –, assim como um cachorro fofo usando boné, lenço de caveira e focinheira, o movimento tenha perdido sua mordida. Às vezes, parece que a esquerda está presa num loop eterno de protestos, se preparando sempre para "a próxima grande marcha" assim que a última acaba, sem que isso dê em nada exceto em um próximo protesto – feito no repeat, até a náusea.
Se Tony Blair conseguiu ignorar um milhão de pessoas dizendo para ele não matar centenas de milhares de iraquianos, David Cameron consegue ignorar um quarto disso pedindo que ele não implemente políticas que vão fazer doentes terminais terem de trabalhar até a morte. Os manifestantes só precisam ler os próprios cartazes sobre como os tories são sem coração para sacar isso.
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Depois de cinco anos de austeridade sem um final à vista, talvez um grande protesto seja exatamente o que o médico receitou para a esquerda torturada britânica. Porém, com notícias de que a pobreza infantil caminha para o maior aumento em uma geração graças aos cortes nos benefícios e aos impostos imobiliários, logo eles vão precisar de algo que faça mais do que funcionar como um cobertorzinho de conforto político.Veja mais fotos abaixo.Siga oSimon, oOscare oChrisno Twitter.Tradução: Marina Schnoor