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Fotos

Uma Entrevista com Ryan McGinley

Continuando a série de entrevistas com fotógrafos que participaram da nossa Edição de Foto 2010: Natureza-Morta, agora é a vez de Ryan McGinley. Esta conversa foi originalmente publicada em The Vice Photo Book em 2007.

Continuando a série de entrevistas com fotógrafos que participaram da nossa Edição de Foto 2010: Natureza-Morta, agora é a vez de Ryan McGinley. Esta conversa foi originalmente publicada no The Vice Photo Book em 2007.

VICE: Como você começou a se envolver com a VICE?
Ryan McGinley: Bom, eu conhecia o Jesse de quando ele era editor da Index Magazine. Ele era amigo do Gavin e curtia minha fotos, então mandou o Gavin ao meu apartamento para dar uma olhada no meu trabalho. Isso foi em 2000. Eu tinha um quartinho e espalhei todas as minha fotos na cama para o Gavin ver. Ele viu tudo e apontou para foto que tinha o Dash [Snow] agachado na cama usando drogas com uma camiseta do The Clash e disse: “Eu quero usar essa aqui para a capa. Ela resume o que é a VICE: sexo, drogas e rock 'n' roll”. Isso foi um puta negócio legal para mim porque era a minha primeira capa de revista. Eu estava começando, e ninguém conhecia meu trabalho naquela época. Lembro que o Gavin disse algo do tipo: “Cara, essas fotos são tão fodas que você não vai poder trabalhar mais para gente daqui a um ano, você vai ser bom demais”.

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Legal ele ter falado isso.
É, mas aí a capa saiu e parecia que um cachorro tinha cagado em cima. A cor estava completamente errada. Parecia que tinham xerocado a foto umas 100 vezes. O Gavin acabou me dando uma cópia da revista com uma nota dizendo: “Desculpe, às vezes isso acontece. Nós somos retardados”.

Ah vai, não era tão ruim assim! Estava só um pouco mais escura do que a original. Dava para perceber os detalhes mais importantes. Parecia só que o Dash era moreno em vez de loiro.
Pois é! Ele era loiro e ficou moreno? Eu diria que isso é um problema! As cores na foto original eram lindas e tinham ficado horríveis. Mas deixa pra lá, isso não importa. Na edição seguinte eles colocaram quatro páginas com as minhas fotos na sessão Vice Pictures, e isso foi importante também, porque no total eram 16 fotos e o trabalho acabou marcando bastante.

Como você se tornou editor de foto?
Ninguém na VICE entendia de fotografia. Eu falei: “Que porra vocês estão fazendo?”. E eles falaram: “Quer saber, por que você não vira editor de foto então?”. E aí eu cuidei da sessão de fotos por um ano e meio. Eu que dei a sugestão de fazermos uma edição só de fotos, que resultou na primeira Edição de Foto. Visitei vários estúdios e basicamente juntei um time de fotógrafos que a VICE usa até hoje. Tinha o Tim Barber, o Richard Kern, o Bruce LaBruce, o Terry Richardson, o Patrick O’Dell…

Ah, falou então, Sr. McFodão.
Cara, só estou falando o que aconteceu. Ah, e eu mostrei também as Polaroids do Dash Snow pela primeira vez. Aí o Bruce LaBruce escreveu aquele artigo sobre o grupo de graffiti IRAK. Você lembra disso, era o artigo de quando o Dash tacou fogo na árvore de Natal e aí o carro explodiu e ele teve que fugir da polícia e tudo mais. Aquelas eram fotos e histórias que as pessoas liam e falavam: “Caralho, esses moleques são loucos”. O pessoal pirou. Era muito doido.

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Era tudo tão empolgante na época.
E era real. A gente era um bando de maníacos da porra. Tipo aquela foto do Dan Dusted, que foi tirada do meu telhado depois que ele fumou pó de anjo a noite toda. Ele estava na casa do Dash e ficou com a vista embaçada, aí ele voltou para casa às nove da manhã cego, tateando os prédios, praticamente pelado, só com um cobertor em volta dele e todo rabiscado na cara e no resto do corpo. Quando saiu essa foto na VICE, o Dan estudava na RISD (Rhode Island School of Design) e ele disse que desconhecidos de lá paravam ele e perguntavam: “Meu Deus, você tá bem???”.

Você quer contar a infame história do karaokê?
Nem lembro direito. Realmente só me lembro que quase eletrocutei meu pau. Por que você não conta?

Beleza, era inverno de 2000, e eu, o Jesse, o Gavin e mais um pessoal estávamos no karaokê e você chegou bêbado, causando feito louco. Você tinha acabado de sair da cadeia.
Ah é mesmo, tinha uns mandados de prisão, aí os policiais entraram no meu apartamento no meio da noite, me arrancaram da cama e me arrastaram para cadeia. Eu fiquei preso por uns dias. E aquela noite eu tinha acabado de ser solto, então estava louco para comemorar.

Pois é, você chegou, tirou a roupa na hora e ficou pelado. Pegou o microfone e começou a berrar qualquer merda e aí mijou naquela TV gigante inteira. Depois disso começou a vomitar, mas era só líquido — você estava gorfando cerveja pura. Aí você caiu numa poça do seu próprio mijo e gorfo e ficou meio que se contorcendo no chão. Eu lembro de ter corrido para o banheiro para pegar papel toalha e tentar limpar tudo. Aí você pegou o papel molhado e jogou na minha cara, e eu tive que correr de volta para o banheiro para vomitar. E logo depois você foi embora. Era inverno e você saiu correndo sem camiseta nem nada. Não lembro nem se você estava de calça. Todo mundo achou que nunca mais iríamos te ver.
Hahahaha. Acho que foi aí que todo mundo da VICE se apaixonou por mim.

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Bom, você também estragou as noites de karaokê para todos nós. Não deixaram a gente voltar lá durante meses depois disso.
Não tenho ideia de como cheguei em casa naquele dia, sem uma peça de roupa no corpo. Voltei ao karaokê na noite seguinte porque estava usando essa camiseta velha do Air Jordan que tinha desde criança e a queria de volta. Perguntei se tinham alguma roupa minha e eles olharam para mim tipo: “Você? Não. Sai daqui!”.

Foi difícil desbancar aquela noite. Acho que uma vez que chegou perto foi aquela festa na casa do Jesse que você saiu do banheiro com a cara cheia de porra. Você sentou no sofá como se nada tivesse acontecido e quando nos ligamos, todo mundo curtiu muito. Menos eu que corri para o banheiro para vomitar de novo.
Hahaha, foi mal. Mas então, você não vai me perguntar nada sobre fotografia ou o quê?

Ah, que saco! OK. Você sempre quis ser fotógrafo?
Nunca pensei que fosse ser fotógrafo. Comecei a trabalhar no final de 1998 e lembro de ficar pensando: “Será que eu sou fotógrafo? Não, acho que não sou”. Durante quatro anos tirei foto porque realmente curtia e era isso que eu ficava fazendo. Aí no final de 2001, assim que comecei a mostrar um pouco do meu trabalho para as pessoas e logo depois que a Index publicou meu primeiro livro, lembro de falar pra mim mesmo: “Porra, acho que agora eu sou fotógrafo!”.

Como suas fotos passaram de algo com uma cara nova-iorquina para esse lance todo de natureza que você faz agora?
Depois que me mudei para Nova York, em 1996, nunca mais quis sair. E tudo que fiz até a minha exposição no Whitney Museum em 2003 foi tirado em Nova York. Mas em 2002 fui visitar meu amigo Dan Colen, que estava fazendo pinturas em um celeiro durante o verão inteiro. Levei comigo um grupo de amigos que estava fotografando na época. Percebi que realmente gostava da ideia de tirar as pessoas da cidade. Isso trouxe uma certa liberdade e energia. As pessoas ficavam mais soltas e eu realmente gostava de tirar foto disso. Depois disso eu sentia que precisava sair da cidade grande. Quando você está lá, é como se não conseguisse tirar da cabeça o que tem que fazer no dia seguinte ou no final do dia. Quando você leva as pessoas para fora da cidade por um período mais longo, eles logo esquecem todos esses problemas. E como eu acredito que a maioria das pessoas não vêm de Nova York, elas acabam lembrando do tempo de quando eram crianças e completamente livres, que é exatamente o que eu quero das pessoas que eu fotografo. Nunca conseguiria produzir as fotos que faço agora se as tirasse em Nova York.

Você usa muito filme. Tipo, MUITO. Quantas fotos você tira para conseguir uma muito boa?
Não sei muito bem quantas, mas acho que quando penso em fotografar e conseguir uma foto que eu realmente goste, tem a ver com excesso. Clicar, clicar e clicar, e a pessoa que está na foto repetir, repetir e repetir a ação. Não faço ideia de como usar câmeras ou iluminação. Nunca estudei fotografia de verdade. Fiz design gráfico, então sei me virar com as luzes e constantemente olho para as minhas câmeras para entender o que está acontecendo. Sou mestre em quebrar câmeras também. Sempre acabo molhando ou as deixando cair. O que realmente gosto é quando tudo está tranquilo e a câmera é uma extensão da minha mão.

Tem algum conselho para os jovens fotógrafos por aí que se inspiram em você?
Hahaha, não sei, conselhos para jovens fotógrafos? Isso é meio gay.