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Entrevista

A senhora de 90 anos que seduzia e matava nazis quando era nova

Tinha 14 anos quando um homem foi a sua casa, na Holanda, e perguntou à mãe se permitia que as filhas se juntassem à resistência.

Por Noor Spanjer
12 Maio 2016, 5:25pm

Freddie Oversteegen. Foto pelo autor

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Holanda.

Freddie Oversteegen, 90 anos, foi uma das poucas mulheres activas na resistência holandesa durante a Segunda Guerra Mundial — com a sua irmã Truus e a famosa Hannie Schaft, que foi morta pouco antes do fim da Guerra. Quando Freddie tinha 14 anos, um homem visitou a família para perguntar se a mãe dela permitia que as filhas se juntassem à resistência. Ninguém suspeitaria que as duas adolescentes fossem combatentes, argumentou. Estava certo. As irmãs Oversteegen namoriscavam com colaboradores nazis e levavam-nos para a floresta, onde os homens eram recebidos com balas em vez de beijos.

Hannie Schaft tornou-se famosa mundialmente. Foi feito um filme sobre "A rapariga do cabelo vermelho" e ela foi, até, sepultada (novamente, claro) com honras militares e com a presença da Rainha Wilhemina e do Príncipe Bernhard da Holanda. Há cerca de 15 cidades do país que têm ruas com o nome dela. Já Truus Oversteegen fez valer o seu nome depois da Guerra, como porta-voz dos serviços memoriais e como artista. Todavia, a sua irmã mais nova, Freddie, nunca conquistou tanto reconhecimento pela sua participação na resistência. Até que o cineasta holandês Thijs Zeeman decidiu fazer da história dela e da irmã o tema do seu novo documentário para televisão, Duas Irmãs na Resistência.

Encontrei-me com Freddie no dia 4 de Maio, Dia da Memória na Holanda, para lhe perguntar como funcionava isso de seduzir e matar nazis.


Vê também: "Os Soldados de Odin"


VICE: Olá, Freddie. Parece que não tem muito tempo para a nossa entrevista.
Freddie Oversteegen: É verdade. Vou encontrar-me às duas da tarde com umas pessoas para jogar Scrabble. É uma coisa que faço duas vezes por semana. E se concordaste em participar, não podes desapontar as pessoas, correcto?

E costuma ganhar?
Sem comentários.

Como é recordar a Guerra neste dia? Como é que acorda num dia como o de hoje?
Com um pouco de preocupação. Ainda pior hoje porque, depois do Scrabble, tenho que ir ao dentista. Não estou muito ansiosa por esse momento.

Vai participar em alguma cerimónia do Dia da Memória?
Sim, vou a IJmuiden. As pessoas depositam lá coroas de flores, incluindo uma em meu nome. E posso sentar-me na primeira fila, entre os mais notáveis.

No que é que pensa durante os dois minutos de silêncio?
Em nada. Paro os meus pensamentos completamente. Depois penso no facto de que muitas pessoas caíram. Lembro-me como as pessoas foram levadas das suas casas. Os alemães batiam nas portas com a coronha das espingardas - fazia tanto barulho que a vizinhança inteira ouvia. E estavam sempre a gritar - era muito assustador. Para que jornal é esta entrevista?

É para a VICE, uma revista online. Vejo que tem computador, por isso...
Sim, mas não tem Internet. Os meus filhos acham melhor eu não entrar na Internet.

Não se preocupe que eu vou encontrar uma maneira de a senhora ler o artigo. Agora, voltando aos tempos antes da Internet. Tinha apenas 14 anos quando você e a sua irmã Truus — que tinha 16 na época — foram chamadas para lutar na resistência. A vossa mãe concordou logo à primeira?
Um homem de chapéu foi a nossa casa e perguntou à minha mãe se podia falar connosco. E foi o que ele fez. Ela não teve qualquer problema com a situação

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Freddie, na Primavera de 1945. Foto do álbum de família, cortesia de Remi Dekker.

E o seu pai?
A minha mãe tinha-se divorciado dele, o que era bastante incomum naquela época. Houve um dia que ela simplesmente se fartou - nós morávamos num barco grande em Haarlem, mas o meu pai ganhava pouco dinheiro e não pagava nada pelo barco. Mas não foi um divórcio feio, nem nada desse género - ele cantou uma música de adeus em francês na proa do navio quando fomos embora. Ele amava-nos, mas não o vi muitas mais vezes depois disso.

E vocês as três foram viver para outro sítio?
Sim, para um apartamento onde dormíamos em colchões de palha. Foi a minha mãe quem fez os colchões. Ela era de uma família muito original. Não tínhamos muito, mas a minha mãe arranjava sempre alguma coisa. E estávamos sempre a cantar. Mais tarde "ganhámos" um irmãozinho, de outro pai.

Vocês também escondiam pessoas na vossa casa, certo?
Sim. Antes da Guerra começar na Holanda, quando ainda morávamos no barco, algumas pessoas da Lituânia esconderam-se no nosso barco. E durante a Guerra tínhamos um casal judeu a morar connosco, por isso eu e a minha irmã sabíamos perfeitamente o que estava a acontecer.

Quando vos pediram para se juntarem à resistência, tinha alguma ideia do que seria o trabalho?
Não. Achei que íamos começar uma espécie de exército secreto. O homem que nos apareceu à porta disse que receberíamos treino militar e é verdade que nos ensinaram mesmo uma coisa ou duas. Houve alguém que nos ensinou a disparar armas e também aprendemos a marchar na floresta. Éramos uns sete — Hannie ainda não fazia parte do grupo e nós duas éramos as únicas raparigas. Um tempo depois, uma alta figura do regime nazi foi morta e enterrada naquela mesma floresta. Mas Truus e eu não fomos autorizadas a estar lá quando isso aconteceu - eles acharam que era algo que as raparigas não deveriam ver.

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Freddie lê um poema que Hannie Schaft escreveu na Guerra. A foto no livro é de Hannie.

Qual foi o vosso papel nessa missão?
Não disparei sobre ele - foi um dos homens que disparou. Eu tinha que ficar de olho na minha irmã e manter um posto de guarda na floresta, para ver se aparecia alguém. A Truus tinha encontrado o homem num bar fino, seduziu-o e levou-o para um passeio na floresta. Ela disse-lhe: "Gostavas de ir dar uma volta?". E claro que ele quis. Já durante o passeio eles encontraram alguém - o que era para ser visto como uma coincidência, mas era, claro, um dos nossos - que disse à Truus: "Menina, você sabe que não deveria andar por aqui". Nesse momento eles desculparam-se, deram a volta e começaram a caminhar. Depois vieram os tiros. Aquele homem nunca soube o que lhe acertou. Eles já tinham feito a cova, mas não tivemos autorização para ver essa parte.

E vocês não tiveram problemas com a situação?
Não. Eu, de qualquer forma, não queria ver. Mais tarde disseram-nos que lhe tiraram as roupas para que o corpo não pudesse ser identificado. Acho que ele ainda deve lá estar.

Você era dois anos mais nova que a sua irmã. Ela era a mais corajosa?
Quando éramos mais novas, ela estava sempre a dizer "A minha irmã é a mais linda". E era verdade. Ela era uma criança um bocadito sem graça. Mas era, sem dúvida, a mais corajosa. E era muito boa a falar em público - fez muito disso depois da Guerra. Sabia sempre os discursos de cor, nunca precisou de cábulas. Mas isso agora mudou.

Você mencionou que ela sofre de demência. Vocês costumavam conversar sobre a Guerra?
Sim, sempre. Nunca precisávamos de dizer "lembras-te quando...", porque isso estava sempre nas nossas cabeças.

Truus foi exteriorizando o seu trauma da Guerra parcialmente através da arte. Como é que você lidou com isso?
Casando e tendo filhos. E cuidava sempre dos filhos da Truus também, porque ela estava sempre muito ocupada. Visitava imensas vezes a mãe de Hannie Schaft, por exemplo. Sempre tive um bocadinho de inveja por ela ter recebido muita atenção depois da Guerra. Mas depois pensava: "Inveja, de quê? Eu também estive na resistência". Sabes o que vou fazer agora?

O quê?
Uma sanduíche e uma chávena de chá. Estou acordada desde as seis da manhã.

Obrigada, Freddie! Bom chá!


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