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Os Bengaleses Estão se Revoltando e Queimando as Fábricas Precárias onde Trabalham

Os protestos exigem um aumento no salário mínimo e já fecharam mais de 400 fábricas nos arredores da capital Daca.
26.9.13

A primeira página do site Daily Star de Bangladesh diz: “Trabalhadores da RMG Quebram Tudo”, com RMG sendo a abreviação de Ready-Made Garment, a indústria de confecção de roupas a preços baixos para o mercado internacional. Pode até soar meio engraçado para os ouvidos ocidentais, mas essa descrição não é inadequada para descrever os protestos que exigem um aumento no salário mínimo e que já fecharam mais de 400 fábricas nos arredores da capital Daca. As manifestações estão sendo cobertas pela mídia internacional como nunca antes, apesar de várias revoltas similares em relação ao salário mínimo terem ocorrido nos últimos anos – incluindo prisões e assassinatos de líderes sindicais; o gigantesco incêndio na fábrica da Tazreen Fashions em Ashulia, um subúrbio de Daca, e o desabamento do complexo Rana Plaza, que matou mais de 1.100 trabalhadores. Parece que a história sobre as leis inexistentes de proteção aos trabalhadores, salários baixos e condições insalubres nas confecções de Bangladesh – apesar de isso ser o padrão na economia do país – não vai morrer tão cedo.

Aparentemente, mais de 200 mil pessoas estão participando das greves, protestos e revoltas mais recentes de acordo com a polícia local. Eles exigem um salário mínimo de 8 mil takas, o equivalente a R$ 220 por mês – um aumento considerável no valor atual de R$ 82 que prevalece no país. Os trabalhadores já atacaram pelo menos uma delegacia – de onde roubaram rifles de assalto – queimaram carros e causaram danos a pelo menos dez fábricas. A mídia ocidental tem reportado os eventos como uma rebelião de trabalhadores lastimável, porém, razoável, diante dos salários baixos e abusos.

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O que, provavelmente, é somente parte verdade. Os distúrbios em Bangladesh só são iniciados pelos próprios trabalhadores ocasionalmente. Outra matéria na VICE mostrou que os primeiros protestos e revoltas nas fábricas do grupo Nassa, um grande fornecedor do país para companhias como Walmart, foram provavelmente instigados e certamente tolerados pela Segurança Nacional e a Inteligência. Um ativista me contou, durante minha viagem a Bangladesh no começo deste ano, que “homens entram nas fábricas e começam a destruir as máquinas e os trabalhadores dizem: 'ah, é uma rebelião!' Mas não fazem ideia do que isso se trata!”.

Bangladesh tem um histórico de cultura de violência em massa, algo que políticos, oficiais de segurança e líderes industriais em geral usam para encobrir tramas políticas e econômicas de alto nível. “Você pode mandar dois capangas de seu partido”, um analista me disse, “destruírem um carro com pedaços de pau. De repente, 20 pessoas estarão fazendo o mesmo. Você faz isso em dez bairros e já tem uma revolta! Aí você demite o chefe de polícia local porque ele não consegue controlar a área”. No caso do último grande distúrbio, os protestos e a violência foram usados para acobertar a prisão de diversos ativistas trabalhistas – sendo que um desses ativistas foi assassinado depois e as acusações contra os outros continuam pendentes.

É difícil dizer quem ou o quê instigou os protestos atuais, mas é uma surpresa ver a mídia ocidental, até a presente data, se recusar a especular sobre isso. Os bengaleses não têm dúvida de que há um jogo de alto nível por trás dos últimos eventos. A situação atual parece ser uma maquinação bizarra (para alguém de fora) de Shajahan Khan, o ministro dos transportes do governo, um político bigodudo e tempestuoso acusado de usar violência para construir um apoio para as próximas eleições. Shajahan se envolveu nas queixas dos trabalhadores, segundo ele, porque o ministro do trabalho estava fora do país. Acontece que o ministro do trabalho só saiu do país anteontem e, mesmo assim, ele foi para Kolkata. É mais ou menos como dizer que alguém tomou a Secretaria de Estado porque John Kerry estava em Winnipeg.

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Alguns líderes trabalhistas – homens de credibilidade também duvidosa – acusam Shajahan de organizar o comício que desencadeou as revoltas antes de uma reunião entre executivos, oficiais do governo e ativistas trabalhistas que definiria o aumento no salário mínimo. “Não havia necessidade de realizar um comício quando um conselho independente já estava trabalhando para definir o salário dos trabalhadores. O comício foi convocado a pedido do ministro”, um líder trabalhista contou ao Daily Star. Vai demorar algum tempo para averiguar essas informações. As coisas sempre demoram quando se está lidando com a indústria RMG de Bangladesh. Os protestos parecem orgânicos e é pouco provável que ativistas de bases e líderes trabalhistas autênticos acreditassem que o conselho do salário mínimo seria capaz de elevar a remuneração até 8 mil takas. Seria justo se os salários subissem a esse ponto, mas estamos longe de um mundo justo na economia global atual. Mesmo os observadores mais simpatizantes teriam que cogitar a retirada de compradores de RMG e um eventual colapso total da economia bengalesa se os salários subissem tanto e tão rápido. O que talvez eles façam agora. Essa questão tem se mantido uma história grande por muito tempo, mesmo sem fazer muito sentido.

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