Foto por Ben Gottesman
Estou usando um crachá plastificado com o meu nome. Por algum motivo, as pessoas acham que isso me deixa importante. Multidões abrem caminho para eu passar. Todo mundo tem certeza que eu tenho um lugar importante para ir. Na verdade, estou só vagando pelo Riverfront Studios no Brooklyn, acompanhando o lançamento do Station to Station: a public art project made possible by Levi’s® (De Estação em Estação: um projeto de arte público possibilitado pela Levi’s®) em Nova York. O evento está cheio, mas as pessoas veem meu crachá e a câmera pendurada no meu ombro e me abrem espaço.
Vou para a fila do banheiro até que um segurança sussurra que tem um banheiro nos fundos.
“Não é aberto ao público”, diz. “Não precisa ficar na fila.”
“O crachá também pode me ajudar a cortar a fila do bar?”, pergunto.
“O crachá não te torna Deus.”
Meu poder tem limites.
O Riverfront Studios fica às margens do Rio East, sob a Ponte de Williamsburg, e o Station to Station tomou conta do galpão do estúdio e do estacionamento de frente para o rio com vista para Lower Manhattan. O público circula entre o interior – com o palco e o bar – e o lado de fora, onde é possível explorar tendas coloridas e cuspir no Rio East.
Chego na festa alguns minutos atrasado e perco a performance de bombas de fumaça coloridas de Olaf Breuning. Mas não demora muito para outra coisa acontecer. A Kansas City Marching Cobras irrompe pela cortina de fumaça que ainda se não se dissipou do show de Olaf em uniformes iguais e liderada por um maestro que se mexe feito um Joe Cocker epiléptico. Ele se contorce todo e sopra um apito e a banda acompanha. Talvez a parte mais interessante da coisa toda seja a forma como a banda marcial consegue fazer a transição para o set do No Age. Eu já tinha visto o No Age algumas vezes. Esta foi a primeira vez que eles tocaram com uma banda marcial de Kansas City.

Foto por Ben Gottesman
No fundo do espaço do galpão tem algumas tendas. Uma delas é normal, mas a outra está aberta – é só o esqueleto da estrutura da tenda. Sem pano de cobertura. Dentro dela tem uma equipe de pessoas em máquinas de costura, bordando texto e logotipos nas costas de jaquetas jeans. Seu espaço de trabalho é iluminado por um monte de lâmpadas suspensas do teto. A Levi’s vende essas jaquetas especiais na segunda tenda.
As tendas do lado de fora são maiores que as duas primeiras e pintadas com cores primárias vivas. Uma placa na porta de uma delas me pede para tirar o sapato. Coloco numa pilha com outros e entro. A sala está revestida de espelhos e saturada de fumaça. No centro tem uma cama queen ou king size. Tem uma bola de espelho pendurada no teto. Eu me sento.
Tudo está muito legal. Tirando uma menina chorando.
Ela está sentada no chão de carpete, as costas apoiadas na cama. Eu não a vi quando entrei. Lembro do crachá no meu pescoço e sinto algum tipo de obrigação de ajudá-la. Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades ou enfim. Coloco a cabeça para fora da cama e pergunto para ela qual é o problema. Ela levanta a cabeça e olha para mim.
“Aqui está tão bonito, esse lugar todo está lindo”, ela diz. “E o No Age vai tocar e o Ariel Pink vai tocar e aquela banda Suicide, que eu achava que já tinha morrido, vai tocar — eu vim para Nova York de Boston com os meus amigos, mas agora eles se perderam e eu não sei onde estão — e essa bola de espelho é tão bonita e a fumaça é tão grossa que parece que eu estou em uma nuvem e eu não sei o que fazer? E quem é você, hein?”

Foto por Ben Gottesman
“Sou River, tenho que escrever sobre essa festa.”
Isso não é o suficiente para ela.
“Mas, tipo, de verdade.”
“Cresci no Oregon”, digo a ela. “Hoje moro no Brooklyn. Eu escrevo e toco às vezes. Quem é você?”
Ela pisca. Tem um fardo que acompanha meu novo poder. Posso sentir o peso simbólico do crachá no meu pescoço. A tensão dele pesa no meu ombro. Na verdade, isso aí é só o peso da minha câmera.
“Quer me ajudar a tirar fotos enquanto procuramos seus amigos?”
Ela limpa o nariz. “Sou muito boa com fotografia. Tenho um Tumblr.”
E foi assim que uma menina que estava chorando na Tenda Disco acabou tirando as fotos para o meu artigo.
A menina e eu — o nome dela é Allie — usamos meu crachá para chegar até a frente do palco e ver o YOSHIMIO + Hisham Akira e o Ariel Pink’s Haunted Graffiti tocarem.
Tinha projeção de vídeos em três telas atrás das bandas durante os shows. Os vídeos do No Age e do YOSHIMIO são cheios de trens e tributários de filmes como Koyaanisqatsi, mas ficam um pouco mais coloridos e lisérgicos quando começa o show do Ariel Pink.
Ariel Pink’s Haunted Graffiti é a banda favorita da Allie. Ela desaparece rápido na multidão levando a minha câmera no pescoço. Tento acompanhar para ela não fugir com a minha DSLR, mas o público está ocupado demais para ligar para o fato de eu ser importante e ter um crachá plastificado. Eu me perco dela. O crachá não me torna Deus.
A Allie reaparece depois que o show termina. Ela está suada e sorridente e com os olhos arregalados.
“Tirou fotos boas?”, pergunto.
“A música estava tão boa e os vídeos estavam tão bons que esqueci completamente de fotografar.”
Entre os shows do Station to Station passam curtas de videoarte. A Allie fica totalmente absorta em um filme de Kelly Sears chamado The Joy of Sex que parece uma série de gifs pornográficos animados em rotoscopia. Ela tenta tirar um monte de fotos do vídeo enquanto ele passa. Nenhuma dá certo.
Antes do Suicide entrar no palco, tem uma performance no meio do galpão. Uma mulher fica na ponta dos pés enquanto dois homens de patins dançam em volta dela. Eu curti bastante, mas a Allie disse que estava dando muitas sensações nela, então saímos.
O Suicide entra. Assistimos o show metade dentro do galpão e metade do lado de fora.

Foto por Ben Gottesman
O Suicide entra. Assistimos o show metade dentro do galpão e metade do lado de fora.
“Onde você acha que seus amigos estão?”
“Em algum lugar”, ela diz.
Começo a ficar preocupado com o que vou fazer se os amigos dela não aparecerem. Mas tenho planos para depois do show que não envolvem descobrir como ajudar uma estranha a voltar para casa em Boston.
“Quem é você mesmo?”, Allie pergunta.
“Vou viajar no trem Station to Station um tempo e escrever sobre isso”, digo. Ela balança a cabeça como se tivesse esquecido e lembrado. “E também tenho que fotografar quando não tenho alguém para me ajudar.”
“Tirei muitas boas para você”, ela diz.
Alguém grita de dentro do galpão e eu viro e vejo um grupo correndo. Todos estão com o mesmo aspecto suado e esbugalhado da Allie.
“O que aconteceu com você?”, um deles pergunta para a Allie. “Estávamos todos juntos na tenda da nuvem e de repente você não estava mais com a gente.”
“Eu estava sentada na sala Disco e aí recebi uma tarefa de tirar fotos e aí vi uma menina bonita tocar bateria e aí o Ariel Pink estava incrível e aí uma pessoa ficou na ponta dos pés e outras pessoas andaram de patins. Você viu o vídeo de sexo?”
“Amei o vídeo de sexo! Quem é você?”, o amigo da Allie pergunta olhando para mim.
“Esse é o —”, diz Allie, virando para mim. “Como é mesmo o seu nome?”
“Sou o River. Sou escritor—.”
“É, beleza, já vi o crachá”, diz o amigo. “Está pronta para ir?”
A Allie me entrega a câmera. Ligo e olhos as fotos. Só tem umas três e estão todas péssimas.
“Obrigado por me ajudar hoje”, digo. “Te devo uma.”
“Tem uma jaqueta jeans linda com um búfalo na tenda da Levi’s. Me arranja uma e estamos quites.” Ela aponta para o crachá pendurado no meu pescoço.
“O crachá não me torna Deus”, digo a ela.
