Fotografia

Fotos da cave que se transformou no salão de cabeleireiro mais alucinado de Londres

O livro "CUTS" celebra uma referência para ícones da pop, editores de moda e a rapaziada punk.

Por Paige Silveria
04 Outubro 2018, 2:41pm

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma i-D.

Fundado em 1978 em Londres, Inglaterra, o salão de cabeleireiro CUTS tornou-se imediatamente conhecido pelos seus cortes experimentais e pela clientela famosa que os procurava – David Bowie e Jean-Paul Gaultier eram clientes assíduos.

Agora, novo livro de fotos de 500 páginas celebra o legado do salão de culto de James Lebon e Steve Brook. Com o mesmo nome do estabelecimento, o projecto é co-publicado pela DoBeDo, a galeria de fotografia do fotógrafo e cineasta Tyrone Lebon, sobrinho de James, e a Gimme 5, a lendária loja de streetwear, fundada por Michael Kopelman em 1989, com o apoio de James.

CUTS, o livro, apresenta retratos casuais tirados por Brooks nos anos 90 e 2000. As fotos foram redescobertas recentemente pela realizadora Sarah Lewis, cujo documentário que fez ao longo de 20 anos sobre o salão, No Ifs or Buts, estreia no próximo mês no London Film Festival. A i-D conversou sobre o legado do CUTS com Tyrone, Michael e o aclamado fotógrafo Mark Lebon – pai de Tyrone, irmão de James e editor do livro.

i-D: Falem-me sobre o salão CUTS. Como é que começou e porque é que era importante naquela época?

Michael Kopelman: James Lebon fundou o salão em 1978 no Kensington Market, que na época era uma meca alternativa. Subculturas existiam lado a lado no KM, como punks, Teds, rockabillies e Novos Românticos. Era tudo muito jovem e de vanguarda. James fazia os cortes de cabelo a preços que as pessoas podiam pagar. De certa maneira, o CUTS substituiu a praça do bairro como ponto de encontro. Se querias saber o que ia acontecer naquela noite, era lá que descobrias.

Mark Lebon: O salão ficava na cave e era do tamanho de uma caixa de sapatos, só tinha espaço para uma cadeira de corte e um lavatório.

Quem eram James e Steve? Como era a personalidade deles e como eram conhecidos em Londres nessa altura?

Michael Kopelman: James era o recepcionista do Gaz's Rockin' Blues e do Language Lab, dois dos clubes underground mais hype de Londres na época. Era uma celebridade na cultura jovem, exalando confiança e descontração; foi da i-D para a Harpers & Queen e Vogue. Steve ofereceu uma estrutura de negócio à celebridade de James e introduziu produtos para cabelo inovadores e uma galeria da arte na imagem.

Mark Lebon: James tinha ligações e queria fama e fortuna, enquanto Steve queria amor e segurança. James era inacreditavelmente bonito, enquanto Steve não conseguia encontrar um namorado. Mas, eles faziam rir um ao outro... Muito. E gostavam de fazer maluqueiras e sonhar juntos.

Michael e Mark, o que faziam vocês na época? Participavam do mundo do CUTS?

Michael Kopelman: Eu trabalhava a vender commodities. Lembro-me que James me levou ao apartamento dele em New Cavendish Street, onde conheci o Steve. O Mark estava a fazer uma sessão de fotos de moda na sala da frente, com Judy Blame e vários modelos; era incrível. Em 1978, depois de me tornar redundante, James e Mark deram-me a confiança para abrir a Gimme 5. A equipa e os clientes do CUTS usavam as marcas que eu vendia.

Mark Lebon: Eu estava a sair do meu estágio como fotógrafo de moda, a viver em ocupações com vários artistas como Boy George – quando ele era o meu stylist, antes de começar a carreira musical. Aos sábados, organizava eventos de música ao vivo, música de dança, DJs, moda e exibições de filmes num salão de jogos no segundo andar do KM. Isso fez-me perceber que, para mim, só a fotografia não era suficiente e destacou o que senti que era central para a minha prática: apresentar pessoas criativas. Tirei fotos de e para James e dei-lhe ideias de corte de cabelo para mim. Ele era melhor no networking com os jovens do que eu. Era muito focado, eu era mais distraído.

Tyrone a cortar o cabelo no salão quando era criança, fotografado por Kadir Guirey.

Tyrone, quais são as tuas memórias mais antigas do CUTS e do teu tio lá?

Tyrone: A minha primeira memória é ver a minha mãe a cortar o cabelo no salão no Soho. Acho que tinha uns sete anos? Quando já tinha idade para me lembrar melhor de tudo, o James tinha saído e o Steve assumiu. O meu tio passou para a sua produtora e era realziador. Adorava o meu tio James. Sempre foi muito divertido e generoso. Ainda fico meio emocionado quando penso nele.

Quem são as pessoas que foram fotografadas e incluídas no livro?

Michael Kopelman: As pessoas que Steve fotografava eram os clientes que passavam diariamente pelo CUTS. Algumas pessoas nem recorriam aos funcionários, pegavam numa máquina de cortar cabelo e faziam o próprio corte. O CUTS sempre teve uma clientela diversa, de estrelas pop a cineastas, artistas e pessoas da indústria da música. A dada altura, quase todos os editores de moda frequentavam o CUTS no Soho. Também havia sempre alguns vigários, bombeiros e funcionários do McDonalds.

Mark Lebon: O que mais me fascina nos meus processos criativos actuais é o que se perde. Isso reflecte-se no livro. O Mike não está nas fotos e ele era um dos clientes mais consistentes. O James também não aparece.

Qual é o legado que esperam que este livro projecte para o futuro?

Tyrone Lebon: Com o filme, espero que o livro CUTS seja um registo de muito mais que alguns cortes de cabelo; este era um grupo de pessoas e uma era em Londres. A fotografia do Steve, o amor dele pela sua arte e a comunidade de gente estranha que ele construiu: a família CUTS, os funcionários e os clientes envolvidos naquela cena. E, finalmente, espero que o livro seja parte do legado de manter viva a memória do meu tio James.

CUTS está disponível na Gimme 5 e DoBeDo no Reino Unido, na Dashwood Books em Nova Iorque e na Bueno Books no Japão.



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